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Cultura drag queen de Porto Alegre se reinventa para além da performance

Novas formas de expressão ganham espaço na cena drag de Porto Alegre

Historicamente associadas às noites e aos palcos, as drag queens sempre ocuparam espaços ligados à performance artística, com apresentações de dublagem, dança, canto e humor. No entanto, a cultura drag vai muito além dos shows, e se insere em novos campos do cenário cultural. Em Porto Alegre, representantes da cena vêm ampliando os limites dessa expressão e se consolidando na cena artística local.

Cada vez mais artistas drags da região têm diversificado suas áreas de atuação, ocupando diferentes espaços do mercado cultural e artístico. Além das performances tradicionais, muitas drags também se encontram atuando como DJs, fotógrafas, maquiadoras, dançarinas, cantoras e comediantes, estabelecendo uma presença diversificada que vai além da vida noturna.

“Há um imaginário no meio cultural de que as drags são apenas performances tradicionais na noite, mas somos muito além disso. Temos drag fazendo casamento, a gente é um leque de possibilidades”, afirma Jean Fabrício, que interpreta a drag Joanne, que atua como DJ em Porto Alegre.

Foto: Victoria Cielo
Foto: Victoria Cielo

Arte drag também se consolida como resistência política


A inserção de pautas sociais nas apresentações artísticas é uma das formas com que a cena drag vem se diversificando nos últimos anos. Para além das performances associadas principalmente ao entretenimento noturno, muitos artistas utilizam seus trabalhos como uma extensão de suas identidades, vivências e posicionamentos políticos.

Desta forma, maquiagem, figurino e performance deixam de cumprir apenas uma função estética e passam a servir também como símbolos de pertencimento, afirmação e resistência.

Tina Oliver, drag criada por Sergio Henrique Oliveira, é uma das artistas que incorporam elementos ligados à identidade negra em sua arte. Ela transforma o palco em um espaço de representação racial dentro de uma cena que, segundo ela, ainda possui pouca presença de artistas negro na região gaúcha.

A utilização do penteado black power durante as apresentações tornou-se uma das principais marcas da artista. Mais do que composição visual, o elemento carrega um significado político e identitário.

“Reafirmar minha identidade enquanto pessoa negra dentro da minha forma de me expressar nos shows é muito importante para mim”, afirma Tina. “De certa forma, cada drag carrega em suas performances parte de quem é, e foi por isso que decidi trazer essa abordagem para os meus trabalhos”, ressalta.

A construção da drag evidencia uma nova dinâmica da cultura contemporânea dentro da cena, onde a performance passa a dialogar diretamente com questões de raça, gênero, território e pertencimento.

Foto: Victoria Cielo

Fechamento da Workroom impacta na ressignificação da cena de Porto Alegre 


Em Porto Alegre, o movimento de expansão da cultura drag ganhou ainda mais força após o fechamento do espaço físico da Workroom, em outubro de 2025. A casa era considerada uma das principais referências da cena drag na região e se destacava por destinar integralmente o couvert artístico aos performers.

O bar é inspirado nos cenários do icônico reality show estadunidense RuPaul’s Drag Race, que consiste em uma competição de drags com dança, costura, canto, humor, personalidade, atuação. O local foi inaugurado em 2017, na Cidade Baixa, em Porto Alegre, e rapidamente se consolidou como um ponto de referência para a população LGBTQIAPN+, se destacando por incentivar a arte drag por meio de performances e por valorizar a identidade, a expressão e a liberdade de quem frequenta o espaço.

Com dificuldades financeiras, o espaço encerrou suas atividades presenciais, mas a marca continuou promovendo eventos em parceria com outros locais da capital, como o Bar Ocidente e a casa de festas Cucko. Entre as ações recentes, esteve a celebração dos nove anos da Workroom, realizada em formato itinerante.

Segundo Pedro Hablich, um dos sócios da Workroom, a descentralização dos eventos acompanha a transformação vivida pela cultura drag atualmente. “A cena drag atual tem muito desse movimento de ressignificação do que é ser uma drag queen. Por isso, é muito importante promovermos esses eventos e levarmos a cultura para diferentes espaços”, destaca.

A marca ainda se destaca com presenças de artistas de diferentes estados. No dia 8 de maio a casa recebeu em uma de suas festas a atual vencedora do programa “Corrida das Blogueiras”, a drag queen paulista Kitty Kawakubo. Figura importante da cena, Kitty falou sobre as transformações da cena drag contemporânea e destacou o movimento cada vez mais forte de artistas que buscam expandir suas formas de atuação para além das performances tradicionais.

Para Kitty, a cultura drag vive um momento de reinvenção artística e ocupação de novos espaços culturais. “Acredito que as drags podem, e devem, ir muito além dos padrões. É importante se permitir trocar experiências com outras pessoas da cena, experimentar novas linguagens e trazer novas tendências. A cultura drag vai além de uma expressão de gênero. Podemos, sim, falar sobre gênero, mas somos muito mais do que isso. Drag é, acima de tudo, uma linguagem artística, e estamos ocupando os mais diversos espaços da cultura porque também temos esse direito”, afirma

Foto: Victoria Cielo

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