Notas desafinadas, mãos trêmulas e um arco que insistia em escapar das cordas. Uma melodia que reproduzia ruídos e sons estranhos para um violinista de mais de 20 anos de carreira. Naquela manhã de sábado, Leandro Melo estava longe da técnica que o acompanhava em cada casamento, formatura ou evento que fez nas últimas duas décadas. Um movimento antes simples, agora exigia um esforço incomum para reencontrar o caminho das cordas e encerrar o silêncio que cortava as notas hesitantes e falhas. Ao reassistir ao vídeo daquele sábado, gravado pela esposa Carla, Leandro resumiu a apresentação em poucas palavras: “Estava horrível”. Ainda assim, não é a qualidade da execução que torna a gravação especial, mas o reencontro entre aqueles dedos trêmulos e o corpo do violino. Após sobreviver a um tiro na cabeça e perder os movimentos do lado direito do corpo, Leandro Melo voltava a tocar o instrumento que o acompanhou por praticamente toda a sua vida.
O disparo aconteceu em 8 de junho de 2023, durante uma tentativa de assalto em Canoas. Leandro e Carla saíam de uma aula ministrada pelo músico na rua Ferreira Viana, no bairro São José. Enquanto ligava o carro, o casal foi abordado por dois assaltantes, um deles portando um revólver. Carla lembra que Leandro estendeu o braço em sua direção para protegê-la e, achando que o casal não iria entregar as chaves, o criminoso atirou. A bala atingiu o teto do carro e a cabeça de Leandro. Em seguida, a dupla de assaltantes fugiu. O que veio depois foram 32 dias de internação, em um processo de recuperação que surpreendeu toda a equipe médica que o atendeu. Porém, antes de entender os dias que sucederam o disparo, é preciso voltar alguns anos e conhecer a história que Leandro construiu muito antes daquela noite em Canoas.
A ligação de Leandro com a música começa no município de Ajuricaba, noroeste gaúcho, a mais de 400 km de distância de onde as probabilidades indicavam que iria terminar. Jovenzinho, aos quatro anos, Leandro cantava nos cultos domésticos praticados pela família. Ele tinha um parceiro de dupla, seu irmão Leonir, que o violinista diz ter nascido com o dom da música. Enquanto Leonir cantava lindamente, Leandro desafinava. Porém, como em qualquer paixão, os defeitos se perdem no encanto. Leandro estava apaixonado pela música. Apenas faltava achar o par perfeito.
Aos nove anos, foi incentivado por um professor a achar esse par através da busca por instrumentos. Antes de encontrar sua alma gêmea de arco e corda, ele experimentou o pandeiro, o violão, o trombone e o teclado. Entretanto, foi somente aos 13 que o violino apareceu. Na cidade de Santo Augusto, cerca de uma hora de distância de Ajuricaba, Leandro acompanhava o irmão nas aulas de violão. Certo dia, a prefeitura vizinha recebeu uma leva de instrumentos para a sua banda municipal de sopro. Entre estes, três violinos. Novamente, o professor o abordou:
“Senta aqui comigo” – puxando o banco para Leandro – “Tu não quer aprender violino?”
“Violino? Não é tu que disse que é o instrumento mais difícil?” – questiona Leandro.
“E é verdade. Tu quer ou não quer aprender?”
Leandro acente. Ele relata que não sabe por que, mas pôs na consciência naquele instante: é isso que queria da sua vida.
“Então pronto, tu vai tocar”, conclui o professor. Em uma semana já tocava uma versão simples da trilha sonora de Titanic. Naquele momento, acreditou que poderia construir uma vida através da música.
Tal qual toda boa história de amor, o relacionamento entre Leandro e o violino esteve longe de ser simples. Ao longo dos anos, ele dividiu espaço entre a música e outras profissões. Tentava viver dessa paixão, mas não conseguia devido à desvalorização da profissão. Entrou para a área de vendas. Vendeu em farmácias, lojas de roupas e concessionárias de carros. Chegou a se formar como técnico em segurança do trabalho e até cursou por um tempo Medicina na Argentina. Independentemente do lugar, as palavras que ouvia eram as mesmas: “Cara, o que você está fazendo aqui? Não tem nada a ver. Teu negócio é a música.”

O período na Argentina acabou antes dos seis anos que dura um curso de Medicina no país. Longe da família, separado da sua primeira esposa, lidando com depressão, Leandro decidiu voltar ao Rio Grande do Sul, mas ainda longe da sua cidade natal, mais especificamente em Novo Hamburgo. Trouxe consigo poucas roupas, uma caixa de som, alguns CDs gravados de forma independente e o violino, que a essa altura já era algo inseparável.
A partir dali, seu cotidiano começou a ser vivido pelo andar dos trilhos. Utilizando o trem, Leandro percorreu de Canoas a Novo Hamburgo, mas também passou pelas cidades fora dos trilhos como Gravataí. Batia de casa em casa. Entrava em lojas, pedia autorização para tocar uma música e se apresentava aos proprietários. Foram seis anos repetindo o mesmo roteiro, de domingo a domingo. Leandro não recebia cachê por essas apresentações. Na verdade, apostava na divulgação e na venda dos CDs autorais que produzia. Em vez de oferecer os discos diretamente, preferia conquistar o público pela música: “Eu vou encantar o cliente. Pelo encantamento ele vai querer comprar”, explica.
A recepção nem sempre era positiva. Segurando as lágrimas, Leandro relembra um momento marcante. Certa vez, enquanto tocava em frente a uma agência bancária em Sapucaia do Sul, um homem o chamava de vagabundo e o mandava achar um emprego de verdade. Para Leandro, a rejeição sempre será a maior dificuldade que os artistas vão enfrentar no Brasil. Entretanto, a persistência sempre fala mais alto.
O violinista também recorda de uma conversa com um mágico experiente do mercado de festas na região. Ao descobrir quanto Leandro cobrava por uma apresentação, o profissional foi direto: o violinista estava desvalorizando o próprio trabalho. O comentário fez com que ele pensasse na forma como enxergava a própria carreira. Não era apenas a sociedade que subestimava os músicos; ele também fazia isso consigo mesmo. A partir dali, passou a reconhecer o valor da própria arte.
Leandro acreditava finalmente ter encontrado a estabilidade. No lado profissional, casamentos, formaturas e eventos corporativos passaram a ocupar a agenda do músico que havia transformado o violino em profissão. No lado pessoal, ele encontrou outro amor, dessa vez não feito de madeira, era Carla. Foi nesse período que a trajetória construída ao longo de mais de 20 anos encontrou seu maior obstáculo.
O tiro exigiu cirurgias delicadas. O projétil atingiu uma região do cérebro responsável por funções importantes, como fala e movimentação. O braço que durante anos conduziu o arco sobre as cordas estava imóvel, assim como todo o lado direito do seu corpo. Em um cenário comum, um mês seria impossível para uma alta. Nesse período, riscos e incertezas tomavam conta de Carla. Porém, ela lembra: “Desde o primeiro momento eu entendi que a gente iria passar por um processo, mas que a gente poderia sair vitorioso se eu concentrasse a atenção não nas limitações, mas nos pequenos avanços.” Em 10 de julho de 2023, 32 dias após a internação, Leandro saiu pelas portas do Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPSC).
Nos meses seguintes, foi melhorando pouco a pouco. Ele ainda realizava sessões de fisioterapia que o acompanham até hoje. Ainda encontrava dificuldades para executar alguns movimentos. Lembrar sequências simples ou organizar pensamentos era difícil. Porém, a memória musical seguia firme. O casal se emociona ao recordar de um momento vivido por eles pouco tempo depois de voltarem para casa. Ainda sem conseguir mexer totalmente o lado direito, Leandro pediu o violino. Carla atendeu o pedido, mas ele não conseguia tocar sozinho. Cabia um improviso na apresentação. Enquanto ele posicionava os dedos sobre as cordas, ela produzia as notas puxando-as com a mão. Juntos, executaram uma versão simples de Brilha, Brilha, Estrelinha, uma das primeiras músicas ensinadas a crianças que iniciam seus estudos no instrumento.
Para Carla, o violino também exerceu um papel fundamental nessa recuperação. Um dos tratamentos que Leandro realizava era a musicoterapia, uma prática que utiliza elementos musicais para estimular funções cognitivas e motoras. No caso do violinista, o contato com a paixão que o acompanhava desde os quatro anos era um estímulo. “O violino é parte dele, sabe? Voltar a tocar era importante pelos movimentos, mas principalmente para ele reencontrar sua paixão”, comenta Carla.
Hoje, dias após o atentado completar três anos, as apresentações já tornaram-se parte da rotina do casal novamente. Carla assumiu uma função que vai além da vida de casal. Enquanto Leandro lida com o espetáculo artístico, ela cuida da parte técnica, da logística e dos detalhes que tornam cada apresentação única. Para a dupla, existe uma responsabilidade em participar de momentos que ficarão marcados para sempre na memória de outras pessoas. Por isso, mesmo após todos esses anos e de sobreviver a um tiro na cabeça, uma festa de 15 anos ainda deixa Leandro ansioso.
O primeiro encontro entre Leandro e o violino aconteceu ao som de Titanic. O reencontro veio décadas depois, naquela gravação de sábado de manhã, que o violinista classificou como horrível. Ele deu play no vídeo algumas vezes durante a tarde em que conversamos. Mesmo após quatro ou cinco assistidas, continuava rindo da própria execução. Nos olhos, o riso perdia espaço. Seja no Leandro do vídeo ou no de carne e osso em minha frente, o olhar continha lágrimas. Não era pelas notas desafinadas ou pelo movimento impreciso do arco, mas pela lembrança do que ficou para trás. Para quem quase perdeu o violino para o silêncio, tocar mal nunca pareceu tão bonito.
