Existem artistas que passam a vida aperfeiçoando uma técnica. Outras dedicam décadas à preservação de uma tradição. Cadica Costa escolheu um caminho mais raro: transformar diferentes universos culturais em uma linguagem própria. Bailarina, coreógrafa, pesquisadora, professora e criadora de um dos trabalhos mais originais da dança no Rio Grande do Sul, ela construiu uma trajetória marcada pelo encontro entre identidades, ritmos e modos de sentir o corpo.
A relação de Cláudia Pereira da Costa com a dança começou ainda na infância, em Alegrete, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Entre aulas de balé, apresentações e festivais, ela descobriu cedo que a arte não era apenas uma atividade extracurricular, mas uma necessidade. Mesmo diante das dificuldades que enfrentou durante a formação do balé clássico, nunca conseguiu se afastar completamente da dança. Parava por um período, mas sempre retornava. Havia algo mais forte que qualquer obstáculo: a sensação de pertencimento que encontrava na música e no movimento.
Formada em balé aos 19 anos, ela também transitou por outros caminhos. Estudou Administração e mais tarde Publicidade e Propaganda, pela Unisinos, mas a dança permaneceu como eixo central de sua vida. Em Porto Alegre, integrou grupos ligados à cultura tradicionalista, participou de espetáculos folclóricos e aprofundou sua relação com a música gaúcha, uma paixão que carregava desde os tempos de primeira prenda em Alegrete.
Ao mesmo tempo, um novo fascínio surgia. A descoberta da dança espanhola e, posteriormente, do flamenco abriu horizontes artísticos que mudariam sua trajetória. O que começou como encantamento transformou-se em pesquisa, estudo e dedicação intensa. O flamenco oferecia algo que a atraía profundamente: a potência expressiva, a força do sapateado e o protagonismo feminino presente na linguagem artística.

As lembranças também são compartilhadas pela colega de profissão Alessandra Forte, que hoje se dedica à dança do ventre, mas que já deu aulas de danças espanholas. Ela lembra que Cadica ia aos ensaios após o nascimento da primeira filha, Emily, e que muitas vezes precisava pausar o ensaio em função do período de aleitamento materno. Mesmo assim, ela persistiu. Atualmente, Emily tem se dedicado profissionalmente à arte, assim como a mãe.
Durante anos, os dois universos coexistiram dentro dela. De um lado, a tradição gaúcha. Do outro, a paixão flamenca. Até que, no final da década de 1990, essas referências começaram a dialogar de forma mais consciente. Foi então que nasceu o trabalho que se tornaria sua assinatura artística.
A fusão entre flamenco e cultura gaúcha surgiu inicialmente a partir da observação. Cadica percebeu semelhanças que iam além da estética. Durante viagens e estudos, identificou paralelos entre a Andaluzia, no sul da Espanha, e o Rio Grande do Sul, no sul do Brasil. Os cavalos, as festas populares, o orgulho pela terra, a valorização das tradições e a forte presença da música na construção da identidade coletiva pareciam aproximar dois territórios separados por um oceano.
A pesquisa também avançou para aspectos técnicos. Ela passou a comparar ritmos, estruturas musicais e possibilidades coreográficas. Descobriu diálogos entre o sapateado flamenco, a chula, o malambo e diversas manifestações da cultura do pampa. Aos poucos, criou uma linguagem que não reproduzia simplesmente dois estilos lado a lado, mas construía algo novo a partir deles.
O resultado foi um trabalho pioneiro, reconhecido ao longo dos anos por sua originalidade. A fusão desenvolvida por Cadica transformou-se em espetáculo, companhia de dança, pesquisa acadêmica e livro. Em Baile Flamenco: Identidade Gaúcha, publicado a partir de seus estudos de pós-graduação, ela registra parte desse percurso e reflete sobre os encontros culturais que deram origem à sua proposta artística.
Mais do que aproximar tradições, a coreógrafa também propôs novos olhares sobre a figura feminina. Em suas criações, a mulher gaúcha ganha protagonismo, força e autonomia, dialogando com a expressividade característica do flamenco. É uma leitura contemporânea da tradição, sem abandonar suas raízes.
Paralelamente à pesquisa artística, Cadica passou a se interessar cada vez mais pelos efeitos da dança sobre o desenvolvimento humano. Influenciada por estudos em Programação Neurolinguística, neurociência, dança-terapia e, mais recentemente, pela graduação em Psicologia, desenvolveu a metodologia chamada Transfordance. O trabalho parte da ideia de que corpo e mente formam um sistema integrado e que o movimento pode ser um instrumento de transformação emocional, criativa e relacional.
Essa visão amplia o papel da dança para além do palco. Para Cadica, dançar é também uma forma de cuidado, presença e autoconhecimento. É um espaço de escuta do corpo e de construção de bem-estar.

Hoje, todas essas experiências convergem para a Casa Cadica (Rua General Caldwell, nº 866 – Menino Deus, Porto Alegre). Mais do que uma escola, o espaço funciona como um ponto de encontro entre arte, formação, criação e convivência. Depois das transformações provocadas pela pandemia, o projeto assumiu um formato mais colaborativo, reunindo diferentes profissionais e iniciativas ligadas à dança e às artes, como é o caso da cia La Negra, comandada por Ana Medeiros, ex-aluna e atual parceira de Cadica. Juntas, elas reconstruíram a formação do espaço para que não houvesse mais a figura de uma “chefia”.
A Casa Cadica abriga aulas de flamenco, projetos de fusão cultural, atividades formativas e propostas voltadas ao desenvolvimento humano. É também um reflexo da própria trajetória de sua criadora: um lugar construído com afeto, memória e reinvenção constante. Até mesmo a sonoridade é de tamanha intensidade. Durante a entrevista, o som do tablado flamenco e dos “olés” eram presentes.
É um local que, assim como toda a história de Cadica Costa, carrega a essência da hospitalidade. Uma casa onde tradição e inovação convivem sem conflito. Onde a arte se transforma em comunidade. E onde a dança continua sendo, acima de tudo, uma forma de encontro com os outros e consigo.
“Meus alunos são meus amigos. A arte acaba unindo as pessoas”, afirma.
