Usamos cookies para melhorar sua experiência, personalizar conteúdo e exibir anúncios. Também utilizamos cookies de terceiros, como Google Adsense, Google Analytics e YouTube. Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies. Veja nossa Política de Privacidade.

Quem canta, reza duas vezes

Entre giras, tambores e rezas, os pontos cantados seguem fortalecendo a cultura e a espiritualidade afro-brasileira
Gira festiva de exu na casa de Umbanda de Ogum e Oxum em São Leopoldo/ Amábile Correa

Passando pela frente de um terreiro, somos chamados pelos sons dos tambores e pelas músicas que contam uma antiga história, refletindo o passado do nosso país. Entrando com o pé direito no local, sento-me no banco, que, por sinal, está lotado. A imagem à frente impressiona: abraços, risos, choros, gritos de devoção, paz e muita música. O ritmo envolve curiosos, religiosos e até mesmo quem está nas proximidades da casa.

Nas casas de Umbanda, os pontos cantados são fundamentos importantes para a união, harmonização e espiritualidade, reunindo a comunidade em uma única vibração. O ritmo percorre a história da umbanda há muito tempo, mais especificamente desde sua fundação em 1908, pelo médium brasileiro Zélio de Moraes (1891 – 1975), na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro.

O ritmo inicial que acompanha as rezas musicadas começou apenas com as palmas, mas, com o tempo, os terreiros passaram a utilizar diferentes instrumentos para complementar as giras. Tambores, agês, afoxés, tantãs e outros instrumentos de percussão ajudam na ativação da corrente mediúnica que inicia os trabalhos realizados durante as sessões.

Na gira, os pontos cantados nos envolvem todos os presentes em uma mesma energia. História, emoção e aprendizado são algumas das palavras que conseguem resumir o significado de estar diante de uma força que percorre o cotidiano de diversas pessoas.

Vibração, fé e espiritualidade

Os pontos cantados são rezas feitas pelos terreiros para diferentes finalidades. Cantar na Umbanda é um dos meios utilizados pelos praticantes para se conectarem com Deus, os Orixás, a natureza e com as energias sagradas.

As palmas e os instrumentos musicais ajudam no fortalecimento do campo vibracional que protege e acolhe os terreiros. Para a Mãe Águida Pires, os pontos são os pilares fundamentais das giras. “Esses cantos atuam através de ondas vibratórias nos terreiros e nas esferas espirituais e naturais do planeta. Portanto, eles sustentam e mantêm as energias que serão necessárias durante as giras”, explica.

A harmonização feita pelos religiosos da casa vai além da criação de um escudo protetor. Ela também ajuda a contar lendas de diferentes entidades através dos cantos, acessando a ancestralidade e conduzindo essa energia para os consulentes. Para o jornalista William Martins, cantar os pontos desperta uma grande conexão com diferentes Orixás. “Escutar um ponto que fale das minhas entidades é muito forte. Não tem nem como descrever. É muito espiritual, é algo transcendente”, relata.

Foto/Amábile Correa

Quando um ponto cantado é tocado, ele modifica toda a energia de um ambiente. Segundo o Pai Alexandre D’Ogum, os pontos são partículas espirituais que criam uma malha protetora no local, fazendo com que as pessoas se sintonizem com sua espiritualidade e ancestralidade. “Tudo se modifica no terreiro a partir de determinados pontos cantados, que vibram para o auxílio e evolução daquele médium que está trabalhando com a entidade”, explica Alexandre.

Aprender os pontos cantados em um terreiro ajuda na compreensão do significado, história e identidade das entidades espirituais cultuadas. Para a Mãe Águida, cantar os pontos é uma forma de celebrar a cultura, dentro e fora dos terreiros. “As pessoas cantam em bares, ruas, carnavais e em suas próprias residências. Cantar é, portanto, um movimento religioso e cultural”.

Um ponto de identificação

Os pontos são formas de conectar o passado com o presente, de ressignificar as letras cantadas em esperança e ensinamento no dia a dia. Pietra Balbueno comenta que é muito comum cantar os pontos em qualquer lugar. “Não há nada que eu faça sem antes cantar um ponto. Ao cantar, eu me sinto fortalecida, encorajada. É um dos fatores que alimentam a minha potência como mulher negra, me sinto pronta para qualquer circunstância”, afirma.

O aprendizado transmitido a partir dos pontos conecta as pessoas à espiritualidade dentro e fora dos terreiros. Porém, a energia que eles possuem é acessada sempre que necessário pelos religiosos que, a partir do canto, buscam um aprendizado para suas vidas. “Muito daquilo que é cantado durante as giras passa a fazer sentido para a espiritualidade e para a vida em um geral”, complementa William.

Para o Pai Alexandre D’Ogum, os pontos cantados funcionam como uma espécie de “portal”, que revela a história dos antigos povos com as atuais manifestações culturais que são feitas dentro e fora dos terreiros. A partir da roda que é feita e da música que se é cantada é possível trazer o real significado da cultura afro-brasileira. “Essa mistura, esse suingue é a força. Então, com toda certeza, os pontos cantados são pontos culturais da nossa ancestralidade”, afirma D’Ogum.

Aprender sobre o que são os pontos cantados é procurar conhecer um pouco mais da história de cada divindade, entidade, caboclo, preto velho, exu, pombogira, herês, marinheiros e demais categorias. Cantar os pontos ainda desperta um sentimento de familiaridade, mexendo com o emocional de cada pessoa. Para Pietra, os pontos de Pretos Velhos são como conversar com seus avós. “Através de suas palavras sábias, eles nos acolhem de uma maneira muito íntima”. E esses pontos ainda revelam detalhes sobre o passado brasileiro. “Existem diversos pontos dessas entidades que retratam a escravidão, a sabedoria das folhas e das ervas e nossa ancestralidade. De uma forma indireta, eles também estão falando da minha história ancestral”, complementa Pietra.

Quando a música te busca

Um cenário muito comum no imaginário brasileiro são os sons de tambor e os pontos cantados ressoando pelos diferentes bairros, principalmente à noite. Para o estudante de psicologia Wesley Rosa, essa cena era muito comum na sua vida. Originalmente vindo de uma família cristã, Wesley teve seus primeiros contatos com a umbanda dentro de sua própria casa. “As noites de batucada invadiam meu quarto. A minha família achava aquela expressão religiosa errada, mas para mim, a música servia como anúncio”, conta. 

Ele sequer havia pisado em um terreiro, mas já sentia uma forte conexão com a religião. Entre os ritmos e as músicas, os pontos cantados faziam com que entrasse em um certo transe, onde as letras invadiam e viajavam dentro dele. “Quando criança, me dava a sensação de que era muito mais divertido fazer religião daquela forma. Hoje, sei que o que estava sentindo era a intuição que aquele era o lugar ao qual eu realmente pertencia”, relata.

Além da música, a dança também se tornou uma forma de expressão presente na vida de Wesley. Dançar se tornou uma forma de mergulhar e entender melhor a umbanda. Tanto o canto quanto a dança servem como meios comuns que permitem aos médiuns entrarem num transe. “Desta forma, a dança dentro da macumba não é banal, mas contribui de forma indispensável com o caráter ritualístico e a reconstrução histórica do nosso culto”, explica. 

Foto/Amábile Correa

A dança dentro da umbanda também é entendida como expressão artística, funcionando como uma parte essencial da reconstrução histórico-cultural. Porém, muitos preconceitos, trazidos destes mesmos fatores, ainda atravessam os terreiros. Wesley explica que se expressar a partir da dança é algo que leva tempo e paciência para ser aceita. “A meu ver, devido à cultura brasileira, a umbanda acabou por naturalizar a lógica da performance de gênero. Infelizmente, essas concepções podem causar sofrimento para muitos médiuns que, assim como eu, têm uma performance fora do que se espera ser masculina”, indica Wesley. 

Mesmo possuindo um dos maiores números de terreiros e casas de religiões de matriz africana no país (cerca de 65 mil, segundo o IBGE) o Rio Grande do Sul ainda carrega uma forte marca de intolerância religiosa e de gênero, que, infelizmente, marca esses locais de fé e respeito. Entre cantos e danças, muitos religiosos seguem enfrentando preconceitos no seu cotidiano.

Além das cidades, a natureza também se apresenta como um local de grande importância para a umbanda. “Certa vez, à beira da praia”, conta o Pai Alexandre, “após uma obrigação de mãe Iemanjá, levei as minhas flores após realizar as ações com os meus filhos. Saímos aqui de São Leopoldo e fomos até Tramandaí, a rainha das praias. Eu parei à beira da praia e escutando as ondas do mar me veio um ponto cantado”.

Clareia, clareia mamãe Iemanjá

Clareia, clareia o meu caminhar

Clareia, clareia mamãe Iemanjá

Clareia o meu coração e o meu pensar

Foi tanto que eu lhe pedi na areia branca do mar

Levando flores a ti Rainha sereia do mar

Meu pranto que aqui ficou

Rolou para o fundo do mar

Voltou em forma de amor

Ouvindo seu belo cantar

Cantar, para o Pai Alexandre, se tornou um ato diário e ritualístico. “Posso assim dizer, cantar os pontos cantados é praticamente um ato terapêutico”, complementa.

Por um futuro ancestral

Conhecer e cantar os pontos cantados é uma forma de revisitar a história de diferentes povos que habitaram nosso país. Entender esses pontos transforma-se em um ato de resistência, acolhimento, posicionamento e respeito. Os pontos cantados também possibilitam acessar ensinamentos de cultura, ancestralidade, modos de vida e a relação com a natureza.

Olhar para os pontos cantados e para a cultura das religiões de matriz africana é uma maneira de compreender, não apenas religiosamente, mas também academicamente, a ancestralidade de diferentes povos. “Posso dizer que o futuro são os pontos cantados, pois nos remetem a um saber-viver único. Eles nos levam a campos históricos, a lendas e a histórias que os nossos povos já viveram”, conclui Pai D’Ogum.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também