Em 2013, Débora Salvi se mudou de Carlos Barbosa para Porto Alegre, iniciou sua graduação em História e sua produção de conteúdo para as mídias digitais. Anos depois, tornou-se reconhecida pelo seu username nas redes @Deborista e ganhou fama ao discorrer sobre seus eventos cotidianos, pesquisa acadêmica, posicionamento político e ativismo online em até 140 caracteres no antigo Twitter (atualmente X, com limite de 280 caracteres) com muito humor. Hoje, Débora conta com cerca de 90 mil seguidores, entre X e Instagram, é mestra em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e atua como pesquisadora, influenciadora, comunicadora, roteirista e redatora.
Seu currículo conta com a criação do podcast A Trivialista e atuação comoâncora do Além da Fortuna do AMC e do Que Amanhã é Esse da Unisinos. Trabalhou com marcas como Coca-Cola, Spotify, Magazine Luiza, Droga Raia, Polar, entre outras. Durante dois anos foi a produtora de conteúdo do Valori Gastronomia, café com a premissa da valorização do alimento e do trabalhador e, atualmente, é redatora e produtora d’O Clube, agência de comunicação, marketing e produção audiovisual esportiva.
Além disso, talvez pelo seu sotaque, pelas suas observações nas redes sociais ou por sua presença no cenário cultural, Deborista é considerada – pelas gerações mais jovens – um ícone de Porto Alegre, chegando até mesmo a ter um xis em sua homenagem na clássica lancheria Kriskus. Nesta entrevista, ela fala sobre carreira, política, humor e o caminho até viver de escrita.

Quando você se deu conta de que as redes sociais deixaram de ser apenas um hobbie e se tornaram um trabalho? Como foi quando você se percebeu uma “influencer”?
Em 2020, no começo do ano, minha bolsa de mestrado ia terminar e eu comecei a procurar emprego fora da academia, mas não consegui absolutamente nenhum. As pessoas que moravam comigo, aqui em Porto Alegre, iam se mudar para São Paulo e eu falei “cara, vou ter que voltar a morar no interior, com meus pais. Preciso acabar a dissertação. Não consigo emprego”. E aí, eu voltei a morar com meus pais em Carlos Barbosa e veio a pandemia um mês depois. Aquela situação de lockdown, o Big Brother bombando muito… Bom, eu tinha tempo pra falar besteira como se não fosse amanhã, né? E as marcas começaram a olhar muito para a internet. Houve um investimento muito grande em pequenos influenciadores. E eu comecei a ganhar grana com isso.
Recentemente, você falou nos seus stories sobre perceber os tweets como um exercício de escrita. Como foi iniciar dessa forma, até se tornar a redatora e roteirista de hoje?
Em umas férias que passei no Uruguai, conheci o Marco Gonçalves, um dos roteiristas do Lady Night, e pensei “esse é o cara mais engraçado que eu vi na minha vida”. Um tempo depois, ele abriu um curso muitíssimo incrível de improviso, que eu resolvi fazer. O Marco falava “todos os dias vocês precisam escrever alguma coisa. Pode ser uma frase, pode ser um poema, pode ser um texto, qualquer coisa, todos os dias”. Eu sentava e não conseguia escrever. Pegava o caderninho, a caneta e não conseguia. Largava, entrava no Twitter e tuitava o 17º tweet do dia. Assim, percebi que já escrevi o tempo todo. Criei minha conta em 2009 como um diário. Hoje vejo que sempre pratiquei escrita ali. Além disso, leio muito e conheci muita gente da área pela internet. Muita gente fala “ai, queria colocar no currículo que eu sei twittar bem”. Tá aí, então coloca. Não é todo mundo que consegue escrever de forma clara e simples uma ideia em 140 caracteres.
Como é seu processo criativo e de escrita? Você tem rituais?
Depende da demanda. Hoje, eu trabalho só com escrita, basicamente. De modo geral, primeiro eu leio tudo, anoto tudo e faço um mapeamento de ideias, para encontrar o fio condutor do conteúdo que a gente vai criar. Uma coisa que o Marco falava no curso e eu coloco para minha equipe é isso: fala todas as ideias possíveis. Pode ser horrível, maluca, delirante, mas escreve ela porque talvez no próximo material que tu vai escrever ela sirva. Eu tenho cadernos, blocos imensos escritos de ideias nada a ver, que eu fui fragmentando e colocando em outros projetos. Então, se a gente vai viver da escrita, a gente tem que ser o máximo livre na nossa mente. A gente tem que ao máximo exercer a nossa liberdade de criação, porque é isso que a gente faz.
Você fala de Porto Alegre, mostra Porto Alegre e está muito presente na cena cultural, seja através de shows, festas ou gastronomia. Como você define essa cena hoje?
Eu sempre quis morar aqui. Meu pai dizia: “você não queria estudar na UFRGS, queria mesmo era morar em Porto Alegre”. E é verdade. É uma cidade grande, mas também provinciana. Tem nichos. Eu frequento mais o circuito de shows, gastronomia, cultura alternativa. Porto Alegre é muito autoral, tem coisas que só existem aqui. Mesmo com problemas, inclusive políticos e recentes tragédias como enchentes, a cidade se reconstrói. Culturalmente, está num momento muito interessante.
Nesses 13 anos atuando no meio digital, com surgimento de novas redes sociais, algoritmos, Inteligência Artifical, etc. Quais foram as principais mudanças para você?
Com o tempo, eu parei de expor muito a minha vida pessoal. Antes era mais íntimo, a gente postava tudo da nossa vida. Hoje eu aplico uma separação, entre quem eu sou na vida pessoal e nas redes sociais. Para mim, a principal mudança foi enxergar como a internet pode ser utilizada para o mal e buscar me proteger disso.
O que a formação em História te permite enxergar nas redes que muita gente ainda não percebeu?
Rigor. Eu tenho muito cuidado com pesquisa e embasamento. Isso às vezes é um desafio na publicidade, que é mais rápida, mas também é um diferencial. E também consciência social. Isso orienta o que eu escrevo e o que eu escolho não escrever.
Você deixa muito claro nas suas redes seu posicionamento político. Como você lida com a tensão entre produzir conteúdo crítico e, ao mesmo tempo, trabalhar com marcas?
No começo da pandemia, que teve esse boom de investimento de marcas e influenciadores e tava uma grande deprê, em relação a questão política e de saúde, Não tinha como ir pra rua, não tinha como se manifestar. Então, eu ganhei muitos trabalhos, porque eu só falava coisas engraçadas de cultura pop. Quando houve a primeira eleição pós pandemia, eu me engajei muito politicamente, como sempre fiz. Eu vou te dizer que guardei uma grana antes disso, porque eu previa que ia acontecer alguma coisa. Quando eu entrei nesse momento de campanha, de apoio visível e explícito, fiquei um ano depois sem fazer publi. Aí, eu tive dois pensamentos: ou eu paro de falar de política, ou eu saio dessa vida de publicidade mais explícita também – e foi meio isso que eu fiz. Aos poucos, eu comecei a tentar migrar para uma carreira mais sólida e fora da câmera. Por exemplo, esse ano é ano político e eu vou me engajar de novo e espero que eu possa falar o que eu quiser, sem depender financeiramente das marcas.
Você considera seu senso de humor como uma característica natural ou algo que foi desenvolvido ao longo do tempo?
Muito vem da minha família e da cultura do interior. Eu consumia muita TV aberta, cultura popular, e cresci ouvindo piadas. Depois fui lendo autores mais ácidos, como Machado de Assis. Hoje, meu objetivo profissional é trabalhar com humor, escrever esquete. Mas no Rio Grande do Sul isso ainda é um mercado difícil.

Entre historiadora, pesquisadora, influencer, redatora e comunicadora, como você lida com esse mix profissional?
Eu penso que meu trabalho é escrever. E isso abre muitas possibilidades: pesquisa acadêmica, roteiro, publicidade, conteúdo digital. Enquanto minha formação também me permite escrever conteúdo publicitário com mais embasamento, pela minha formação. O mundo pede isso hoje: abre o leque, sem preconceito. Quanto mais formas de escrita tu domina, melhor.
*Foto: Will Anacleto
