O documentário “Carmen Miranda: Bananas is My Business”, dirigido por Helena Solberg, apresenta a trajetória da cantora e atriz icônica Carmen Miranda, retratando desde a sua ascensão, passando pelo estrelato internacional, até os impactos culturais que envolviam a sua imagem. O filme é um retrato de quem foi Carmen Miranda dentro e fora dos palcos, ao combinar imagens de arquivo, depoimentos de pessoas próximas e cenas encenadas.
Nascida em Portugal, mas criada no Rio de Janeiro, Carmen Miranda começou a sua carreira artística cantando samba em rádios e casas de espetáculo. Logo, tornou-se uma das artistas mais populares do Brasil nos anos 1930. Em 1939, produtores da Broadway a levam para os Estados Unidos e, a partir daí, inicia-se a sua ascensão ao sucesso no teatro musical e, posteriormente, em filmes de Hollywood.
O que parecia ser o início de uma história memorável de ascensão logo se revela, no documentário, como parte de um projeto maior: as intenções norte-americanas estavam mais ligadas ao fortalecimento da Política da Boa Vizinhança, estratégia que buscava fortalecer relações com a América Latina por meio da cultura e da mídia, do que à valorização artística em si. A época em que Carmen emigra para os Estados Unidos coincide com a Segunda Guerra Mundial, momento em que os EUA atuavam para difundir ideais favoráveis, usando o cinema e os musicais para propagar uma visão expansionista. Mesmo que não explicitamente, a imagem de Carmen era construída ligada a um exotismo latino, em contraste com personagens clássicos de personalidades estadunidenses, disciplinadas e civilizadas.
A representação caricata produzida pela indústria hollywoodiana de uma artista com fantasias extravagantes e turbantes chamativos com frutas, fez de Carmen um ícone cultural, mas também limitou a sua atuação artística. No Brasil, parte da imprensa e do público começou a criticá-la por supostamente “americanizar” sua imagem. Enquanto isso, nos Estados Unidos, ela era vista como o retrato da “latina exótica”. Ao decorrer das cenas documentais e das entrevistas, fica cada vez mais evidente a tensão em que Carmen vivia, dividida entre duas culturas e duas expectativas de identidade.
Essa tensão é transmitida ao espectador e torna-se angustiante assistir a uma mulher talentosa, alegre e cheia de vontade de viver se desgastando pela fama e pela dificuldade de se libertar da personagem criada pela indústria.
O filme não é apenas uma biografia: é uma investigação de como a indústria cultural cria mitos e estereótipos ao mostrar Carmen Miranda como uma artista talentosa que alcançou grande sucesso, mas que também pagou um alto preço por sua fama e pela imagem construída sobre ela. Seu falecimento repentino, com a triste ironia de ocorrer logo após sair do palco, deixa um gosto amargo e melancólico. Carmen Miranda merecia mais: mais empatia, mais carinho e mais reconhecimento. Merecia mais tempo para viver, por tudo o que conquistou ao longo de seus 46 anos de vida.
O documentário vale a pena tanto para quem é fã quanto para quem ainda não conhece quem foi Carmen Miranda. A revisita à sua trajetória, com imagens e músicas, traz um sentimento de nostalgia a quem admira a artista. Já para quem ainda não conhece a relevância de Carmen Miranda, a obra de Helena Solberg intercala relatos de quem viveu e trabalhou com Carmen e registros históricos que permitem compreender a complexidade por trás do ícone, convidando o espectador a enxergar Carmen Miranda para além dos estereótipos.
- Carmen Miranda: Bananas is My Business
- Onde assistir: Amazon Prime Vídeo, Claro Tv+ ou Vimeo
- Duração: 1h31min
- Direção: Helena Solberg
- Produção: Aurora Miranda Produções, Copacabana Filmes
- Roteiro: Helena Solberg e David Meyer
- Gênero: Documentário, Biografia

