*Por Juan Pablo
Fundada em 1946, a Escola São Judas Tadeu encerrou suas atividades após enfrentar uma grave crise financeira agravada durante a pandemia. A falência de uma instituição que atravessou gerações na zona norte de Porto Alegre em oito décadas vai além do encerramento de uma empresa. O impacto atinge a comunidade escolar, provocando desemprego, mudanças na vida dos estudantes e incertezas para centenas de famílias.
Segundo a diretora e administradora da escola, Adriana Mierczynski, o processo de recuperação judicial começou após dificuldades financeiras se intensificarem nos últimos anos. “Entre os principais fatores estão a queda no número de matrículas, aumento da inadimplência e os altos custos de manutenção da instituição”, diz. A administração afirma que toda a comunidade escolar foi informada sobre a situação com transparência desde o início do processo.
Apesar disso, o fechamento impactou diretamente alunos, famílias e funcionários. Muitos precisaram buscar novas vagas em outras escolas às pressas. “Acabei tendo dificuldades para transferir o meu filho rapidamente e adaptar à nova rotina escolar”, conta Nara Rosane Santos, mãe de um ex-aluno do terceiro ano do ensino médio.
Ex-funcionários relatam problemas antes do encerramento definitivo das atividades. “Já existiam atrasos salariais, indicando que a crise vinha acontecendo de forma gradual”, afirma Ivanise Rodrigues, que era professora na escola. “A administração, professores e funcionários foram comunicados sobre as demissões e receberam pagamentos ou acordos conforme o andamento da recuperação judicial”.
Bruno Aidar, que era gerente financeiro da escola há anos, aponta que o caso não é isolado. A crise econômica e a falta de valorização da educação privada afetou outras instituições de ensino privado no país. Segundo o Censo Escolar 2021, o número de estudantes matriculados em escolas particulares no Brasil caiu 10% entre 2021 e 2019, período que inclui a pandemia de Covid-19, quando a situação da São Judas Tadeu se agravou. Em 2020, no auge da crise sanitária, um levantamento do Sindicato do Ensino Privado no Estado (Sinepe) projetou cerca de 5,7 mil matrículas dos ensinos Médio e Fundamental canceladas, o que representava 2,5% do total no RS. As taxas de inadimplência no setor chegavam a quase 20% em maio de 2020, contra 15% no mesmo período do ano anterior.
Instituição histórica
A instituição, criada com o objetivo de ensinar filhos de imigrantes da zona norte de Porto Alegre, era administrada por uma família de mulheres e se tornou referência educacional na região ao longo das décadas. Durante as imigrações europeias causadas pelas guerras e crises econômicas do século XX, muitos imigrantes alemães, poloneses e húngaros chegaram ao Brasil. Em Porto Alegre, o bairro Cristo Redentor se desenvolveu com indústrias, comércios e instituições, formando uma comunidade operária em expansão, que recebeu muitos desses imigrantes.
Foi nesse contexto que Elisa Verinha Romak Alves criou o colégio São Judas Tadeu, inicialmente voltado para atender filhos de trabalhadores e moradores do entorno. Com apoio do Ministério da Educação e de lideranças como Leonel Brizola, a escola implantou o curso ginasial em 29 de novembro de 1957. A instituição também criou cursos técnicos, biblioteca e bolsas de estudo, tornando-se referência educacional na comunidade. A história é registrada no livro “Instituição Educacional São Judas Tadeu: uma história de fé, ciência e educação”, de Ana Paula Soares e Márcia Cristina Roque, publicado em 2016.
O colégio passou por diferentes sedes até chegar à Rua Dom Diogo de Souza, terreno que agora aguarda um novo empreendimento depois de marcar gerações como um símbolo da história e do desenvolvimento da zona norte da capital gaúcha.
