Entre folhas rabiscadas, dados coloridos e campanhas que atravessam madrugadas, existem pessoas que talvez nunca tenham empunhado uma espada, lançado magia ou enfrentado criaturas fantásticas na vida real. No universo do RPG, porém, tudo isso se torna possível através da imaginação.
O RPG de mesa, sigla para “Role-Playing Game”, é frequentemente resumido como um jogo de interpretação. Porém, para quem participa de uma campanha, a definição parece sempre pequena demais. O RPG funciona como uma história construída coletivamente, em que cada jogador assume o papel de um personagem dentro de um universo fictício enquanto um narrador, mais conhecido como “mestre”, conduz os acontecimentos daquele mundo.
Nos últimos anos, o universo RPG deixou de ocupar apenas nichos específicos e passou a ganhar cada vez mais espaço na cultura popular brasileira. O crescimento acompanha a popularização de campanhas pela internet, canais especializados no YouTube e eventos voltados exclusivamente para o hobby. Sistemas brasileiros, como Tormenta RPG e Ordem Paranormal, ampliaram o alcance do gênero no país e ajudaram a consolidar uma comunidade ativa de jogadores.
De acordo com dados divulgados na página StreamCharts, o canal na plataforma de streaming Twitch do criador de conteúdo Cellbit alcançou uma média de 43.845 espectadores simultaneamente durante a exibição de sua série de RPG “Ordem Paranormal: Hexatombe”, em outubro de 2025. Ainda segundo os números disponíveis, a gravação da transmissão, que posteriormente foi publicada no canal oficial de Ordem Paranormal no Youtube, já acumula cerca de 3 milhões de visualizações apenas em seu episódio de estreia, indicando forte engajamento do público.
O crescimento do gênero também acompanha a popularização de outros criadores de conteúdo voltados ao RPG. Entre eles está o canal Mestres de Masmorra, criado por um grupo de amigos com formações em literatura, teatro, audiovisual e tecnologia. A proposta do projeto é transformar as sessões de RPG em experiências narrativas mais imersivas e cinematográficas.
Integrante do canal, Pedro Carbogim fala sobre o jogo com naturalidade de quem mistura literatura e improviso em uma mesma experiência. Mestre em Estudos Literários e professor, ele explica que o maior equívoco de quem nunca jogou RPG é imaginar que os participantes apenas seguem uma narrativa pronta: “As pessoas têm uma ideia muito voltada para o narrador ser quem fala e interpreta tudo, como se os jogadores só acompanhassem. Mas os jogadores contam a história tanto quanto o mestre”.
Carbogim descreve o RPG quase como um exercício de construção humana. Para ele, o personagem precisa existir de maneira convincente dentro daquele universo fictício. “O personagem conta a história através das ações dele”, diz. Talvez seja por isso que tantas pessoas criem vínculos tão fortes com campanhas de RPG. Diferentemente de outras formas de entretenimento, o jogador não só acompanha a história, mas participa dela.

Interação
Segundo informações apresentadas no Dados Crocantes, no Censo RPG de 2025, realizado com a participação de 1.111 jogadores, cerca de 60% dos respondentes afirmaram preferir campanhas presenciais em vez de mesas online. Esse dado evidencia a forte capacidade que o RPG possui de aproximar pessoas e fortalecer vínculos sociais. As campanhas presenciais favorecem interações espontâneas com maior interação e troca de emoções.
Foi esse aspecto coletivo que aproximou o bancário Guilherme Rodrigues do hobby na adolescência. O primeiro contato aconteceu depois de um colega da escola comentar sobre o jogo. Rodrigues pesquisou na internet até encontrar outros jogadores em uma lan house de sua cidade. “Naquela época era difícil encontrar outros jogadores, principalmente em cidades pequenas, então acho que dei muita sorte de conhecer as pessoas certas”, relembra.
Com o tempo, ele passou a ocupar o papel de mestre de mesa, responsável por conduzir as campanhas. “O papel do mestre não é apenas contar o que está acontecendo, mas também apresentar possibilidades e guiar os jogadores para que todos se divirtam”, explica. Além de narrar histórias, o mestre também cria personagens secundários, desafios e mundo inteiros. Algumas campanhas acontecem em universos já conhecidos, como Star Wars, The Witcher ou O Senhor dos Anéis. Outras nascem completamente da imaginação dos jogadores.
Rodrigues, assim como muitos outros mestres de campanhas, cria todos os materiais necessários para o desenvolvimento da sessão. Desde as fichas de personagens até as miniaturas usadas nos jogos, a atenção ao detalhe ajuda construir o mundo em que os jogadores devem se inserir.

Emoções
Apesar do cenário fantástico, o RPG desperta emoções bastante reais. Rodrigues relembra sessões marcadas por discursos improvisados, conflitos emocionais e até jogadores chorando durante a narrativa. Em uma das campanhas que narrou, uma jogadora criou uma forte ligação com uma personagem idosa. Durante um ataque de dragão, a senhora acabou morrendo nos braços da aventureira. “Mesmo sendo um jogo, o sentimento ultrapassa a barreira da ficção”, conta.
Esse aspecto emocional também aparece na visão de Pedro Carbogim sobre o RPG. Para ele, o jogo funciona como um espaço de criação coletiva e expressão individual. “Quando o jogador entende quem é aquele personagem, ele passa a agir e tomar decisões dentro daquele universo como se estivesse vivendo aquela experiência”, afirma.
Enquanto transmissões ao vivo acumulam espectadores na internet e editoras nacionais continuam lançando novos sistemas, mesas de RPG seguem reunindo jogadores. O RPG permanece sustentado por algo simples: pessoas criando histórias juntas.
*Fotos: Laura Driemeier
