Estou aqui há 44 anos, nomeada como Biblioteca Pública Municipal Machado de Assis. Carrego estantes, pó, vozes baixas e histórias emprestadas, mas também histórias comuns que às vezes não são contadas.
Já vi muita gente passar por aqui.
Pessoas que, em suas corridas rotinas, entram apressadas, devolvem um livro e seguem seu caminho. Pessoas que ficam horas, como se aqui fosse o melhor lugar para se estar, e talvez, para algumas, realmente seja. Mas tem pessoas que chegam diferente. Que não estão apenas passando. Que de alguma forma, parece que já são daqui.
Durante anos, aprendi a conviver com um estereótipo antigo: o do silêncio absoluto, da ordem rígida, do lugar onde crianças iam parar quando se comportavam mal. Foi assim que Sabrina Beatriz Martins Andrade, de 36 anos, me encontrava na escola, não aqui, em Novo Hamburgo, mas em uma memória escolar em sua cidade natal.
Sabrina nasceu em Rio Grande, no extremo sul do Rio Grande do Sul, a cidade mais antiga do Estado, famosa pelo seu belo porto. Cresceu filha única até os 12 anos, cercada pelo cuidado dos pais e pela presença constante da mãe, uma amante da leitura. Sabrina tinha o rosto curioso de quem queria entender por que a mãe mergulhava tanto nos livros.
A mãe lia romances de banca — Sabrina, Júlia e Bianca — e foi de um desses volumes que nasceu o nome da filha. Nasceu do hábito de leitura da mãe antes mesmo de saber ler.

Enquanto a casa seguia o ritmo das tarefas domésticas, a mãe voltava sempre ao livro aberto, como quem retornava a um lugar de conforto. A menina observava fascinada: devia haver alguma coisa muito boa ali dentro.
Quando ainda não podia ler os romances, ganhou gibis. Juntas, mãe e filha se aventuravam em sebos, a mãe trocava seus romances, Sabrina trocava seus gibis da Turma da Mônica. Foi assim que a leitura entrou na vida dela: não como obrigação escolar, mas como curiosidade íntima.
Há ironias delicadas na vida: uma menina batizada por causa de livros acabaria se tornando bibliotecária. Mas seu caminho até aqui não foi linear. Seu primeiro desejo de formação foi a psicologia. Entrou para a biblioteconomia sem saber muito o que esperava. Entrou achando que era sobre livros, descobriu que era sobre informação, sobre acesso, sobre o mundo inteiro organizado de formas que a maioria das pessoas nunca para para pensar. Sua trajetória iniciou na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), em 2010, onde se graduou em 2013, doze anos atrás.

Após a formação, veio a busca. Rio Grande tinha poucas ofertas para bibliotecários. Sabrina começou a fazer concursos, e um deles era aqui, em Novo Hamburgo. Em março de 2020, fez a prova, e então o mundo parou. A pandemia chegou e engoliu tudo. A nomeação ficou suspensa por dois anos, mas em 2022, finalmente, o chamado veio. Assim, chegou até mim, assumiu seu cargo e hoje, além de bibliotecária, é minha coordenadora.
Eu me lembro do jeito que ela entrou. Não chegou com aquela postura de quem está vindo para tomar conta. Chegou com a curiosidade de quem quer entender o que tem ali e fazer parte daquilo. E foi construindo, dentro de mim, um lugar que fosse além do que eu sempre fui. Hoje, entre minhas paredes, tem dança, oficinas, encontros culturais. Ela me ensinou que silêncio não é sinônimo de respeito, que a vida também pode acontecer aqui dentro. Que eu posso ser barulhenta de vez em quando.
Sabrina diz que a biblioteca pública é, antes de tudo, um lugar de acesso: acesso gratuito à leitura, à cultura, à convivência. Aqui, entre minhas estantes, Sabrina conheceu pessoas e criou muitos laços. Vi ela transformar atendimento em acolhimento. Tem um jeito de ouvir com o corpo inteiro, como se cada pessoa merecesse alguns minutos de mundo desacelerado.
Fora do trabalho, Sabrina coleciona pequenos rituais de presença: chimarrão, filmes, natureza, incensos e danças. Fez dois anos de dança árabe e recentemente começou aulas de pagode. Gosta de livros conforme a fase que está vivendo. Um dos que mais a marcou foi O Poder do Agora, de Eckhart Tolle, um livro de que ensina como permanecer inteiro dentro do instante.
Seu maior sonho no momento é ser mãe, passar pela maternidade e constituir sua própria família. Isso porque seu sonho anterior se realizou. E foi aí que uma notícia chegou, misturada a orgulho e melancolia.
Sabrina foi aprovada em um concurso federal no IFRS, vai trabalhar em Vacaria, a 208 quilômetros de mim.
Eu a observo arrumar gavetas, revisar documentos, se despedir dos frequentadores que aprenderam seu nome ao longo dos últimos quatro anos. Tem pessoas que chegam e perguntam se é verdade que ela vai embora. Ela confirma com um sorriso, desses sorrisos que guardam mais do que mostram. Bibliotecas costumam guardar despedidas com discrição, a emoção fica escondida entre capas e carimbos.

Sabrina será lembrada por sua humildade, amizade e humanidade. Não apenas como a coordenadora da biblioteca, mas como uma pessoa que escuta, acolhe e tenta manter o coração aberto mesmo quando dói. Durante quatro anos, ela mostrou que um espaço público pode ser também um espaço íntimo, onde alguém te conhece pelo nome, onde você pode sentar sem pressa e sem precisar de motivo.
Seu capítulo entre minhas estantes está terminando, mas ela ainda tem muita caminhada até o final de sua história.
Sabrina ficará marcada em minhas paredes, porque bibliotecas não sobrevivem apenas de acervo. Sobrevivem de vínculos.
E eu aprendi isso com ela.

Agradeço com profunda emoção esse presente lindo realizado pela Mônica Lima.