É necessário desnaturalizar o tratamento destinado as mulheres no esporte. Pare e observe, quantos esportes femininos você acompanhou pela televisão aberta? Agora pense nos jogos disputados por times masculinos. Há uma grande desigualdade nos números de transmissões e que é visível na área esportiva, principalmente na seleção das modalidades por gêneros.

É a partir da percepção da presença massiva masculina e da invisibilidade das coberturas femininas no esporte futebol, que a então professora de Educação Física, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Silvana Vilodre Goellner, 61 anos, inicia sua pesquisa sobre mulheres no esporte e suas histórias. Atualmente, aposentada pela UFRGS, atua como professora visitante no programa de pós-graduação, na Universidade Federal de Pelotas.

No lançamento da Frente Parlamentar em Defesa do Futebol Feminino, Silvana entre as deputadas Bruna Rodrigues e Daiana Santos, ambas do PCdoB. (Fonte: Arquivo pessoal)

“Eu olhava para esse campo e não identificava a presença das mulheres, a história é toda narrada pelos homens e a partir da visibilidade dos homens e eu comecei a me perguntar onde estavam as mulheres que certamente estavam em algum lugar. Então essa invisibilidade da história oficial do esporte e da educação física me fez buscar estas mulheres, procurar onde estavam, quem eram, como elas se inseriram no esporte?” – Questiona Silvana. 

Pesquisadora e ativista, a professora contou que tem uma vasta experiência na produção da pesquisa sobre a história do esporte, sobretudo com a participação de mulheres nesse campo. Isso se tornou um tema recorrente em sua trajetória acadêmica e até hoje atua com as questões de gênero e sexualidade no campo da educação física. No áudio, a seguir, Silvana expõem um pouco de sua militância, como chegou ao tema do futebol de mulheres e de sua relação orgânica com elas e o trabalho de resgate de histórias e de memórias das jogadoras.

A representatividade do esporte na televisão aberta

A diretora adjunta do Grêmio Futebol Feminino Profissional, Karina Balestra, 42 anos, afirma que a desigualdade está presente no campo do esporte. Como ex-atleta, Karina tem longa vivencia na área e diz que a desigualdade existe sim e que ficam evidentes nas questões de remuneração salarial, desde o início da sua carreira.  “Hoje está mais em evidência que todos os jogos da Série A1 são televisionados, porém nem todos em TV aberta, mas já evoluiu muito e está claro que precisam de mais visibilidade”, completa.

A ex-atleta Karina atuou pelo Grêmio, e agora é diretora adjunta da equipe. (Foto: Arquivo pessoal)

O limite fica evidente no exemplo a seguir. O Campeonato Brasileiro Feminino, que teve início no mês de março, não terá toda sua transmissão contemplada pela TV aberta. Somente as finais e as quartas de final que serão transmitidas pela TV Globo. Em uma matéria publicada pela CNN Brasil, é informado que os jogos serão transmitidos pela Sport TV, pela TV Brasil e pelo canais dos próprios clubes esportivos. 

“Por muito tempo a tv aberta não deu destaque ao futebol feminino por entender que não dava lucro, não gerava patrocínio, não gerava público, um discurso que o futebol de mulheres não era interessante,” comenta Silvana. Ela explica ainda que esse processo era lento, mas que essa nova realidade já se modificou. Aos poucos essa modalidade vai se alterando para algo rentável e isso gera um interesse político maior. 

“Por um lado é interessante, porque faz com que haja visibilidade, aumento, mas esse produto rentável ele tem que ser pensado dentro de uma lógica que não é só muitas vezes estar sentado dentro dos clubes de camisa, ou os grandes públicos ou na próprio seleção brasileira. O futebol de mulheres é muito mais do que isso, a seleção é apenas a ponta do iceberg. São inúmeras mulheres que jogam futebol, praticam futebol, amam futebol, e estão em torno do futebol que não se resume ao nicho de mercado que são os grandes clubes, ou ainda a seleção brasileira,” aponta Silvana.

ONU Mulher

O documento “Igualdade de Gênero e Inclusão das Mulheres: mapeamento das organizações esportivas nacionais e internacionais“, desenvolvido pela Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, ONU Mulher, junto com o Comitê Olímpico Internacional (COI), lançaram um material onde é destacado um panorama sobre as políticas de igualdade de gênero. O texto, divulgado em março de 2023, traz dados sobre a participação de mulheres em cargos de liderança nas principais federações internacionais, além do mapeamento das políticas normativas que foram adotadas por organizações para debater essa igualdade.

É citado, também, no documento, que uma das iniciativas da Igualdade de Gênero, tem como objetivo incluir um número mínimo de 30% de mulheres no cargos de governança, em equipes de gestão, técnica e administrativa, além das comissões e conselhos.

De acordo com dados apresentados ao longo do material, apenas duas Confederações Brasileiras Olímpicas têm mulheres no cargo máximo da gestão esportiva. Outro dado que merece destaque é sobre os cargos de vice-presidência em entidades, o que totaliza apenas 11 Confederações com mulheres ocupando a vaga. Nos cargos de liderança em gestão, que somam aproximadamente 41% das Confederações Brasileiras, apenas uma mulher está em um quadro de liderança. Somente 10 Confederações desenvolvem políticas ou ações direcionadas para a mulher no esporte. 

Será que a lei serve para todas?

Vários são os critérios que se encaixam na desigualdade entre os gêneros, o que pode incluir a diferença nos investimentos, na oportunidade de emprego, no valor do salário, na visibilidade e na maneira de ser tratada. Em 3 de julho de 2023 foi sancionada a Lei nº14.611/2023, que garante a igualdade salarial entre homens e mulheres, além do estabelecimento de mecanismos de transparência salarial, fiscalização e criação de canais específicos para denúncias.

A pesquisadora Silvana alerta que a lei é direcionada somente para alguns espaços, não abrange todos os campos. “Não foi colocada no âmbito esportivo, então eu acho que a gente tem que projetar e tem que viver com dados da realidade. O fato de existir uma lei, que garanta, já reflete a realidade de uma desigualdade salarial em termos do nosso país e muito mais no campo esportivo.” Silvana ainda afirma que a Lei não deve ser comemorada, pois, como já mencionado, não se aplica a vários e inúmeros setores do esporte. 

Apesar da lei não ser aplicada diretamente ao esporte, o debate sobre os baixos salários das mulheres em relação aos jogadores homens no futebol é uma discussão de longa data. Um ponto que é muito discutido, além da desigualdade, do espaço, de questões estruturais e da visibilidade, é a questão salarial. Assim como apontou Karina Balestra, a desigualdade existe, e no futebol feminino não é diferente. Pouco se alterou de um ano para o outro, pois ainda há uma diferença muito grande. 

Na mesma perspectiva, Silvana explica que ainda tem muito a ser discutido nesse assunto, mas que algumas modalidades têm feito premiações equilibradas, ou similares, mas ainda acaba sendo uma realidade muito distante, do que acontece de verdade no campo do esporte. 

Outro ponto trazido pela professora é como essas mulheres precisam de um incentivo para que possam continuar no meio esportivo. “Não é apenas chegar lá, mas é permanecer e isso tem haver com várias questões, o salário não pode ser o centralizador das discussões de gênero. Para as mulheres, além do salário, outras questões como, por exemplo, a violência, o feminicídio, a segurança e a questão do abuso físico, moral, psicológico e sexual impactam na permanência da atleta. E tem haver também com a estrutura para aquelas que têm filhos, como fazer para que essas crianças possam ter espaços de moradia, educação e lazer.” Acrescenta Silvana.

A seguir, a pesquisadora comenta que a desigualdade é histórica, estrutural e reflete também a desigualdade de gênero que existe em nosso país e a isso se somam outros marcadores sociais.

O que precisa ser pensado para inserção das atletas

A inserção das mulheres ainda precisa ser discutida, principalmente a questão do profissionalismo. Quem aborda essa questão é a professora Silvana, que afirma que o esporte de rendimento, em algumas modalidade, ainda não é uma profissão para muitas mulheres. Hoje, o que deveria ser um fonte de renda acaba se tornando, para uma maioria, apenas uma ocupação. 

Silvana atuou em vários projetos ao lado da Seleção Feminina de Futebol. (Fonte: Arquivo pessoal)

Outras profissões ligadas ao esporte também são destacadas pela pesquisadora: “a grande maioria das mulheres que praticam o esporte competitivo precisam ter outra forma de ganhar dinheiro. Eu não estou falando isso só das atletas, mas das técnicas, gestoras, psicólogas, jornalistas, uma série de ocupações ou de atividades que existem em torno do esporte e que as mulheres são pouco reconhecidas”. No áudio seguinte Silvana comenta sobre as demanda das mulheres e suas responsabilidades.

Editais e políticas públicas

A implementação de políticas públicas e a publicação de editais tem a prerrogativa de poderem contribuir para alterar a situação atual das modalidades femininas. Ações que podem auxiliar na formação de centros de treinamentos para mulheres, local onde as demandas possam ser atendidas de forma específica dentro do campo do esporte. Para Silvana existe a necessidade de um planejamento estratégico, onde os pontos que precisam ser focados dentro das associações e agremiações esportivas, possam minimizar as marcantes desigualdade nesse meio. 

É necessário aproveitar para trazer o tema do futebol feminino nestes próximos anos, para debater com grande público, de agora até 2027, quando acontecerá a Copa do Mundo no Brasil. “Não vai poder esquecer e terá que se ocupar daqui até 2027 de fazer barulho, no sentido de mostrar o quanto as mulheres estão e estiveram no futebol. Fazer com que cresça, digamos assim, o interesse das pessoas,” finaliza Silvana.

Karina também traz, em sua fala, a importância do clubes investirem no futebol feminino, dando mais visibilidade ao esporte. Ela acredita que as escolas também precisam incentivar as meninas e que é necessário mais espaço para que essas jovens possam jogar, onde possam competir em campeonatos estaduais e nacionais. “Precisamos buscar capacitar cada vez mais as mulheres no mercado de trabalho, dando voz, espaço de fala e representatividade” comenta a ex-atleta. 

Além de atuar como diretora adjunta do Grêmio Futebol Feminino, também é Coordenadora do Sindicato dos Atletas Profissionais no Estado do RS – SIAPERGS. (Fonte: Arquivo Pessoal)


“Como atleta conquistei grandes títulos em grandes clubes. Minha trajetória como atleta foi muito vencedora, tanto em clubes, quanto na seleção. Hoje como diretora adjunta fora do campo o trabalho é incansável, sempre buscando o melhor para o futebol feminino,” finaliza Karina Balestra.