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Tema-enredo das escolas de samba é a demonstração de que Carnaval é o ano todo

Enredistas Fábio Castilhos e Éder de Barros explicam como é feita a pesquisa do que é retratado anualmente na avenida

Muito antes de o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira entrar na avenida e da construção das alegorias, o Carnaval já começou dentro das escolas de samba. Mais do que isso, antes de entoar “Pode chover (nem tô)/ Pode raiar (o sol)/ Que meu arco-íris nunca para de brilhar/ Vermelho é força/ É mais que paixão/Imperadores do meu coração” ou “Brilha, brilhou o lindo azul deste mar./ Cara pintada para incentivar./ Vista a camisa, meu samba vai te levar./ O mosquiteiro está no ar./”, o trabalho já é árduo. É no processo de criação dos enredos que nasce o fio condutor pelo qual toda a bandeira da escola deve passar. Uma etapa que mistura pesquisa, memória, inquietação e olhar atento ao mundo.

Baterias e tambores participam da sinfônica da Imperadores do Samba – JOÃO PEDRO MENDOZA/BETA REDAÇÃO

Enquanto as escolas se preparam para mais um desfile, os enredos seguem sendo uma das principais ferramentas de identidade do Carnaval. São eles que o unem o discurso da escola, as alas, fantasias, samba e comunidade em torno de uma só narrativa.

Em Porto Alegre, onde o Carnaval busca se reencontrar após seguidas dificuldades estruturais e afastamento do público, os enredos também ajudam a contar a própria história da cidade e de suas comunidades. Para Fábio Castilhos, atualmente na Imperadores do Samba, o trabalho do chamado “temista” (ou “enredista”, como ele prefere definir) vai muito além de escolher um assunto para o desfile.

“Quem escreve um enredo, pesquisa, conecta histórias, símbolos e emoções. É um processo de construção narrativa”, explica.

Portas bandeiras da Imperadores do samba se fase presenta na sinfônica que ocorreu no dia 09/05 – JOÃO PEDRO MENDOZA/BETA REDAÇÃO

A relação de Fábio com o Carnaval começou ainda na infância, acompanhando a mãe nas tradicionais filas para compra de ingressos dos desfiles da Capital. Foi ali que ele percebeu que o Carnaval começava muito antes do glamour da avenida. Professor, ele encontrou nos enredos uma forma de transformar pesquisa e reflexão em “emoção coletiva”. Desde 2012, quando participou da construção de um enredo sobre o senador Paulo Paim (PT-RS), passou a atuar mais diretamente no desenvolvimento temático da escola.

O processo, segundo ele, começa geralmente a partir de uma proposta da direção ou do carnavalesco responsável. Depois disso, inicia-se uma etapa intensa de pesquisa em livros, documentos, entrevistas e referências culturais. “Nem todo tema interessante funciona como enredo. É preciso pensar se aquilo pode virar narrativa, desfile e emoção para o público”, afirma.

Essa combinação entre pesquisa, repertório e criatividade também define o trabalho de Éder de Barros, atualmente responsável pelo enredo da Escola Bambas da Orgia.

Presente no Carnaval desde os anos 1980, Éder começou a escrever enredos após participar de um concurso da agremiação Acadêmicos de Gravataí, em 2011. Depois, passou por diferentes escolas da Capital e região metropolitana. Para ele, criar um enredo é transformar uma pesquisa “dura” em linguagem carnavalesca. “Tu pesquisa em livros, internet, entrevistas… Depois, precisa carnavalizar isso. Cada enredo pede uma forma diferente de conexão com a escola e com a avenida”, conta.

Camisa personalizada da Imperadores do Samba usada pela escola no carnaval – JOÃO PEDRO MENDOZA/BETA REDAÇÃO

INTERCULTURALIDADE

Além da construção narrativa, os enredos também ajudam a preservar referências culturais profundamente ligadas ao samba e às matrizes africanas, que são corriqueiramente levados à avenida como enredo. Ambos os escritores destacam que o Carnaval carrega, em sua essência, elementos de ancestralidade, resistência e expressão popular.

“O Carnaval é diaspórico. A religião é uma opção destas manifestações, mas a relação é muito maior, além do cunho religioso”, observa Éder.

Já Fábio lembra que a presença afro-brasileira aparece no toque da bateria, nos símbolos e na própria estrutura cultural das escolas.

“A força da percussão, por exemplo, já carrega profundamente nossa matriz africana. Por isso, vejo essa relação como algo natural: o carnaval também é espaço de memória, resistência e expressão cultural”, pontua.

Reis e rainhas de bateria, se apresentam junto a sinfônica, dentro da escola do Imperadores do Samba –

CARNAVAL 2027

Como 2026 já está chegando na segunda metade, pode-se considerar que o Carnaval 2027 está logo ali. Nos dias 19 e 20 de fevereiro, as escolas do grupo Prata e Ouro levam ao Complexo Cultural do Porto Seco (R. Ariovaldo Alves Paz, bairro Santa Rosa de Lima) toda a construção pensada ao longo do ano anterior. Algumas escolas, como a Bambas da Orgia, já divulgaram qual será o fio condutor.

O tema desenvolvido por Éder na Bambas nasce justamente de uma discussão social contemporânea: a misoginia e o aumento dos casos de feminicídio. Segundo ele, durante a pesquisa, uma palavra começou a aparecer repetidamente nos relatos analisados: silêncio. Foi daí que surgiu o enredo “Do silêncio que ecoa, ergue-se um grito de Bambas. Basta à misoginia”.

“O enredo fala sobre violência, mas também exalta mulheres e aquelas que romperam esse silêncio”, explica.

Mestres de bateria regente a sinfônica na primeira entrega dos instrumentos da Imperadores do Samba – JOÃO PEDRO MENDOZA/BETA REDAÇÃO

Já a Imperadores do Samba anunciará o tema-enredo em 3 de junho, às 21h. Fábio Castilhos participa diretamente da construção ao lado de Pedro Linhares, mas descarta spoilers.

“De mim? Nem pensar.”

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