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Rombo no Hospital Centenário e denúncias ampliam crise na saúde de São Leopoldo

Dívida milionária, falhas administrativas e relatos de caos no atendimento levam caso ao Ministério Público

A escalada da crise no Hospital Centenário, em São Leopoldo, expõe um cenário que ultrapassa números e planilhas e revela um sistema de saúde pressionado por falhas administrativas, denúncias recorrentes e disputas políticas. Com uma dívida que saltou de R$ 27 milhões em 2024 para R$ 49,8 milhões ao final de 2025, um aumento de quase 85% em apenas um ano, o caso reúne suspeitas sobre a transparência das contas, inconsistências operacionais e possíveis prejuízos no acesso a recursos públicos.

A formalização de uma denúncia por parte da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) no município marca um ponto de inflexão nesse processo. Segundo os vereadores Fábio Bernardo, Karina Camillo e Anderson Etter, a iniciativa não surgiu de forma isolada, mas foi construída a partir de uma sequência de problemas acumulados ao longo de 2025.

por Amábile Correa / Beta Redação

A denúncia foi inicialmente apresentada ao Conselho Municipal de Saúde e, na sequência, encaminhada ao Ministério Público. O documento também aponta uma discrepância entre o custo mensal informado pela gestão, de cerca de R$ 10,5 milhões, e estimativas que indicam um gasto real próximo de R$ 15 milhões, gerando um déficit mensal de aproximadamente R$ 4,5 milhões.

De acordo com Fábio Bernardo, os primeiros sinais vieram de denúncias sobre situações dentro do hospital, como falta de profissionais, escassez de materiais e episódios classificados como graves, incluindo relatos de violência obstétrica e outras falhas no atendimento. Esse quadro se agravou com o atraso no pagamento de trabalhadores terceirizados, que chegaram a ficar até 90 dias sem receber, e com o rompimento de contratos com empresas prestadoras de serviço. “É difícil manter qualquer estrutura funcionando quando os profissionais não recebem em dia”, afirma. Ele também destaca que o acúmulo de problemas não foi pontual, mas contínuo: “Tudo isso começou com denúncias ainda no ano passado e foi se agravando, até chegar numa situação que exige apuração mais profunda.”

A situação ganhou contornos ainda mais preocupantes quando, no início de 2026, o hospital deixou de atender temporariamente determinados casos, como o de gestantes, que passaram a ser encaminhadas ao Hospital Getúlio Vargas, em Sapucaia do Sul. Embora acordos entre instituições de saúde sejam comuns dentro da lógica regionalizada do sistema, os vereadores questionam a ausência de formalização desses encaminhamentos. “A gestão não funciona através de recados”, explica Bernardo ao apontar a falta de transparência nos processos. “Não se trata de ser contra a regionalização, mas de garantir que tudo esteja devidamente oficializado e documentado.”

por Amábile Correa / Beta Redação

Outro elemento que chamou a atenção da bancada foi a forma como a própria direção do hospital apresentou os dados financeiros. Durante uma prestação de contas, o aumento da dívida foi apresentado como parte de um “case de sucesso”, o que gerou estranhamento. “Como se considera sucesso ampliar uma dívida dessa magnitude em tão pouco tempo?”, questiona o vereador. Para ele, o dado revela um problema estrutural: “Se não está aumentando o serviço prestado e está aumentando o gasto, tem um problema de gestão que precisa ser enfrentado.”

A análise dos parlamentares aponta para uma combinação de fatores que ajudam a explicar o crescimento do déficit. Entre eles, o uso recorrente de contratos emergenciais, que tendem a ser mais caros do que processos licitatórios tradicionais, e possíveis falhas de gestão interna. “Quando tu faz contratos emergenciais de forma recorrente, tu perde a possibilidade de comparar valores e isso encarece o serviço”, afirma Bernardo. “Houve uma ampliação significativa desse tipo de contratação ao longo de 2025, o que acende um alerta importante.”

Além disso, foi levantada a hipótese de problemas técnicos no faturamento dos serviços prestados, que poderiam impedir o repasse de recursos estaduais e federais, tornando a produção do hospital “invisível” para outras esferas de financiamento. Para os vereadores, essa falha, se confirmada, compromete diretamente a sustentabilidade financeira da instituição.

Vereadores descrevem cenário de “caos”

O financiamento da saúde pública no Brasil é compartilhado entre União, estados e municípios, mas os vereadores também criticam a baixa participação do governo estadual no custeio do hospital. Anderson Etter destacou que chegou a propor uma moção de repúdio pelo não cumprimento do investimento mínimo constitucional em saúde. “Não há uma cobrança enérgica do Poder Público Municipal em relação ao governo do Estado”, relata. “Isso acaba agravando ainda mais a situação de municípios como São Leopoldo, que já têm uma demanda elevada.”

Para além dos números, a crise se manifesta diretamente no cotidiano de pacientes e trabalhadores. Karina Camillo descreve um cenário de “caos”, com relatos de falta de higienização, escassez de alimentos e dificuldades de acesso ao atendimento. “O povo cobrando, os funcionários sem receber e o governo totalmente perdido”, afirma. Ela reforça que a pressão popular foi determinante: “O número de reclamações, de pessoas procurando, das equipes reclamando… tudo isso nos levou a agir.”

por Amábile Correa / Beta Redação

Casos específicos ilustram a gravidade da situação. Um dos episódios citados envolve a morte de um paciente queimado dentro de uma unidade de pronto atendimento, sem que, segundo os vereadores, tenha havido um desfecho claro ou responsabilização. “Imagina a gravidade de uma situação como essa, quando um cidadão acaba tendo esse tipo de desfecho dentro de uma unidade de saúde”, relata Etter. “Até o presente momento, não houve um esclarecimento que indique responsabilidades ou medidas concretas após o ocorrido.”

Outro relato menciona uma paciente com câncer em estado grave que recorreu às redes sociais para pedir socorro diante da demora no atendimento. Para Camillo, esse tipo de situação evidencia uma gestão reativa: “O que a gente vê é um governo apagando incêndios. O problema continua existindo, mas eles correm para resolver pontualmente quando a denúncia ganha repercussão.”

A crise também é alimentada por gargalos em outras áreas da rede pública, como a atenção básica. A dificuldade de acesso a exames e consultas nas unidades de saúde acaba sobrecarregando a UPA e o próprio hospital, gerando um efeito cascata no sistema. “Quando se deixa de prestar serviço na atenção básica, começa a ter um usuário que não consegue resolver lá na ponta e ele vai acabar na UPA ou no hospital”, explica Fábio. “Quando a base não funciona, tudo estoura lá na ponta.”

Grupo técnico produzirá dossiê aprofundado sobre a situação

Em uma nota direcionada à imprensa, a direção do Hospital Centenário classificou as acusações como um “ataque de cunho político”. A Beta Redação tentou contato buscando maiores esclarecimentos, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. A avaliação de que o ataque seria de cunho político é rechaçada pela bancada do PT, que afirma estar cumprindo seu papel de fiscalização. Para Etter, esse tipo de reação não contribui para a resolução dos problemas. “É uma fala completamente nula, que busca não tratar do problema”, afirma. “Caracterizar como ataque político é uma tentativa de desviar o foco daquilo que realmente importa, que é a situação do hospital.”

Camillo também critica a postura da gestão diante das cobranças. “É um governo que não sabe lidar com a divergência, que transforma qualquer crítica em disputa política”, diz. “Mesmo quando a gente atua de forma propositiva, apresentando soluções ou votando projetos importantes, não há abertura para o diálogo quando apontamos problemas.”

Bernardo reforça a crítica ao relacionamento institucional. “Há uma falta de diálogo e de respeito com a oposição. Nós fomos eleitos como qualquer outro vereador e temos a obrigação de fiscalizar. Quando não se aceita crítica, se perde a oportunidade de corrigir erros e melhorar a gestão.”

Um mês após a formalização da denúncia, os desdobramentos institucionais começam a tomar forma. O Ministério Público deve analisar a denúncia apresentada, enquanto o Conselho Municipal de Saúde também avalia possíveis encaminhamentos. Paralelamente, a bancada criou um grupo técnico formado por advogados, contadores e pessoas com experiência em gestão hospitalar para analisar um conjunto de documentos e contratos da instituição.

A expectativa é que, nos próximos meses, esse grupo apresente um dossiê mais aprofundado sobre a situação financeira e administrativa do hospital, que será encaminhado aos órgãos de controle. “Nós constituímos um grupo técnico que está debruçado sobre esses dados e vai apresentar um conjunto de apontamentos mais detalhados”, explica Etter. “Nosso objetivo é entender as causas desse descalabro e garantir que haja apuração e responsabilização, se necessário.”

por Amábile Correa / Beta Redação

Apesar das incertezas, os vereadores afirmam que a intenção das denúncias é evitar um cenário ainda mais crítico, como a interrupção de serviços essenciais. “A nossa preocupação é justamente evitar que serviços sejam interrompidos e que a população sofra ainda mais”, relata Bernardo. “O objetivo não é criar crise, mas enfrentar uma crise que já existe.”

No centro desse cenário, permanece uma população que depende do sistema público de saúde e que enfrenta, no cotidiano, os reflexos de um sistema sobrecarregado. “A população pode contar com a gente, porque tudo que chegar até nós vai ter encaminhamento”, afirma Camillo. A evolução do caso agora depende tanto das investigações em andamento quanto da capacidade de gestão e articulação entre os diferentes níveis de governo para reverter um quadro que, até aqui, segue em agravamento.

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