No Rio Grande do Sul, a esgrima ainda é um esporte para classe média-alta. 

A esgrima é um esporte de duelos, onde atletas utilizam armas brancas classificadas como florete, espada e sabre para competir. Seu surgimento nos leva à pré-história, quando o homem, pela primeira vez, segurou um pedaço de madeira para atacar e se defender de inimigos e animais desconhecidos.  

 No Brasil, a esgrima foi implementada durante o período imperial devido ao interesse de Dom Pedro ll na modalidade. Em 1858, é estabelecida a esgrima nos cursos de Infantaria e Cavalaria da Escola Militar de Realengo, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, ocorre a fundação da primeira escola de esgrima, no Batalhão de Caçadores de São Paulo.  

Um esporte tão antigo e, ainda assim, pouco conhecido. Atualmente é baixa sua oferta para os jovens devido ao seu elevado custo, seja com equipamentos, aulas ou competições. No Rio Grande do Sul, apenas 2 clubes oferecem o esporte de maneira profissional. São eles: Grêmio Naútico União e Lindóia Tênis Clube, ambos localizados em Porto Alegre. 

O treinador que veio de Cuba 

O responsável técnico pela esgrima no Lindóia é o professor Juan Ramon Velásquez Fernandez. Cubano que vive no Brasil a mais de 25 anos, tem cinco décadas dedicados ao esporte. Velásquez foi técnico da seleção cubana por 20 anos. Também, foi árbitro internacional da modalidade. E, desde 1998, atua como professor de esgrima no Brasil. 

Durante sua carreira ele já viajou pelos cinco continentes, teve contato com os melhores centros esportivos do mundo e é considerado um dos principais técnicos esgrimista da América. 

“Dediquei minha vida inteira à esgrima, comecei um pouco tarde e vi que não ia conseguir ser atleta, mas desde cedo percebi que tinha o dom, então comecei a me dedicar como técnico e tive destaque”,

afirmou o treinador.

Velásquez, como é conhecido pelos seus alunos, ainda conta que sua equipe cubana de sabre ganhou quatro Panamericanos, além de ter disputado seis Olímpiadas. Sua melhor posição nos Jogos Olímpicos foi em 1976, em Montreal, Canadá, onde ficou na quinta colocação.  

Velásquez afirma que nasceu para a esgrima. (Foto: Dominik Machado) 

Os alunos prodígios do Lindóia 

Dois alunos do professor Velásquez vêm se destacando em competições nacionais, é o caso de Felipe Medeiros e Eduarda Nehrke. No último Campeonato Brasileiro, disputado em setembro de 2023, em Curitiba, Felipe acabou ficando na sexta colocação do sabre individual e em segundo lugar em equipe. Enquanto, Eduarda ficou em quinto lugar do sabre individual, e em segundo lugar em equipe da mesma competição.  

Os dois esgrimistas relataram a mesma dificuldade: a falta de investimento no esporte. Hoje, os atletas mais bem colocados, como é o caso deles, recebem um auxílio do Governo Federal chamado Bolsa-Atleta. No entanto, o valor da bolsa varia conforme a idade e posição no ranking do campeonato brasileiro. Os dois representantes do Lindóia, ambos com 18 anos, estão incluídos na categoria juvenil (de 17 a 19 anos). O valor recebido, cerca de um salário-mínimo, é considerado insuficiente, pois ajuda somente a cobrir gastos com os equipamentos para a prática do esporte.  

Felipe contou que todo investimento, também, foi realizado por ele e sua família. “Acredito que a esgrima é um esporte com pouca visibilidade, ninguém vê falarem, por isso, não há patrocínios”, complementa. Já para Eduarda, o alto investimento necessário faz com que a esgrima não tenha muitos participantes, devido ao alto custo dos equipamentos, viagens e das aulas. “Muitas pessoas acabam desistindo”, conclui. 

Eduarda Nehrke e Felipe Medeiros fazem dupla sempre nos treinamentos. (Foto: Dominik Machado) 

Sobre as principais definições e modalidades  

A definição técnica de esgrima é: a arte de manusear o florete, o sabre e a espada. Armas “brancas” usadas para ataques, defesa e contra-ataque. É importante definir que arma branca, é todo instrumento vulnerante, de ataque ou defesa que possa ser utilizado agressivamente, cuja utilização normal é outra. Sendo assim, a esgrima é o único esporte de combate com armas “brancas” em que não é permitido contato corporal.   

São três modalidades, isto é, a esgrima pode ser disputada com o uso de três diferentes armas: sabre, espada e florete. 

Sabre: é uma arma leve e rápida. Nesta modalidade, é permitido tocar o adversário com a ponta ou com a lateral da lâmina. A superfície válida para o toque compreende cabeça, tronco e membros superiores do oponente, com exceção das mãos. O sabre mede 0,88m de comprimento e pesa 500 g; 

Espada: nesta modalidade, o esgrimista só pode golpear com a ponta da arma. Além disto, o competidor pode tocar qualquer área do corpo do adversário e os oponentes podem marcar toques simultâneos. A espada mede 0,90m de comprimento e pesa 770 g. 

Florete: esta modalidade é a forma mais tradicional do esporte, sendo também a mais difícil das armas. O objetivo é fazer pontos, exclusivamente, através de golpes com a ponta do florete sobre o tronco do corpo do adversário. O florete pesa 500 g e mede 0,90m de comprimento. 

Em relação às regras do jogo 

O objetivo é tocar seu adversário sem ser tocado. Porém, o número de toques varia conforme a disputa. Se for classificatória, vence quem desferir 15 toques no oponente, ou ficar quatro minutos sem ser atingido. 

 No caso de competições eliminatórias, vence o esgrimista que tocar 15 vezes o adversário, ou ficar nove minutos sem ser atingido. A competição é dividida em três rounds de três minutos cada. A pontuação é registrada de modo eletrônico, pois as roupas usadas pelos esgrimistas possuem sensores que realizam a contagem dos pontos 

As competições são realizadas em uma pista que possui 1,5 a 2 metros de largura e 14 metros de extensão. Há uma linha que divide a pista em dois lados iguais. E, no fundo de cada lado, há uma área (de 1,5 a 2 metros) em que o esgrimista atacado não pode entrar.  

Em relação ao futuro 

Perguntado sobre o futuro da esgrima, o técnico cubano Velásquez acredita que, atualmente, apesar do pouco investimento, existem mais alunos esgrimistas do que antigamente. “É um esporte caro, mas a esgrima mundialmente se desenvolveu muito. Hoje, em uma competição, é possível ter 200, 300 atletas disputando em uma arma”, afirmou o treinador. 

De acordo com a Confederação Brasileira de Esgrima (CBE), o Brasil conta com cerca de 4 mil praticantes de esgrima, destes, 1230 são federados, ou seja, estão aptos a disputar competições nacionais. Em contraponto, possível encontrar a Esgrima em apenas 6 estados brasileiros, segundo a mesma confederação, são eles: Minas Gerais, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.  

Apesar das dificuldades, a esgrima está sobrevivendo. Não é um esporte popular como o futebol, por exemplo, é um esporte com um custo mais elevado para os praticantes, mas que já atravessou vários séculos. Não é à toa que é um dos esportes que esteve presente em todos os Jogos Olímpicos, desde 1896, na primeira Olimpíada da Era Moderna até os dias de hoje.  

 Em 2024, os Jogos Olímpicos ocorrem em Paris, na França, e o Brasil estará muito bem representado por diversos esgrimistas, mas por uma em especial; a campeã mundial de 2019, Nathalie Moellhausen. A brasileira de 37 anos, foi eliminada logo em seu primeiro jogo nas Olímpiadas de Tóquio, ao mesmo tempo ela encarava um combate fora da quadra, o divórcio. 

 Após alguns meses sem competir, mudou de técnico e está se preparando para vir forte na briga pela medalha inédita para o Brasil. Com um começo de ano avassalador, conquistou dois títulos, em Doha e Barcelona. Em entrevista ao Jornal O Globo, em abril, contou que após as Olímpiadas de Paris, irá se aposentar do esporte. Mais um motivo para ficar de olho em Nathalie. 

Nathalie é uma aposta da Confederação Brasileira na busca pela inédita medalha Olímpica (Foto: Divulgação Comitê Olímpico Brasileiro) 

Confira, a seguir, o vídeo com os bastidores do treinamento de esgrima no Lindóia:  

(Vídeo: Dominik Machado)