Carlão sempre gostou de futebol e joga desde bem pequeno

Era 1994, o Brasil jogava contra a Itália pela copa do mundo. Carlão, cinco anos, assistia atentamente aos pênaltis finais com sua família. Ele observava o seu ídolo, Cláudio Taffarel. No pênalti decisivo, o camisa 10 da Itália, Roberto Baggio, que na época era o melhor jogador do time adversário, bateu o pênalti e chutou para fora. Carlão, junto do pai, festejou a vitória do tetra brasileiro. Naquele momento Carlão decidiu que queria ser goleiro. 

Carlos Adiel Deuschle, conhecido como o goleiro Carlão, 34 anos, casado, morador de Dois Irmãos. Atuou por mais de 15 anos como jogador profissional na posição de goleiro. Passou por vários clubes: Aimoré, Novo Hamburgo, São Luís de Ijuí, URT de Minas Gerais, entre outros. Mas na maior parte da carreira, ele jogou no Juventude e no Ypiranga de Erechim. Carlão também fez formação de nível superior, cursou bacharelado e licenciatura em Educação Física, pela Universidade Unopar no sistema semipresencial. O atleta tem pós-graduação em gestão de esporte, futebol e futsal e, atualmente, está cursando voleibol, todos pela Faculdade UniBF, do Paraná. 

Desde criança, Carlão já gostava de futebol. Com oito anos entrou numa escolinha na sua cidade natal, em Morro Reuter, na Serra Gaúcha. No ano seguinte, entrou para um time amador, o União, de Dois Irmãos. Jogou por vários anos, e, com dois anos de atuação no time, teve a primeira experiência e emoção de ser campeão, com apenas 10 anos de idade. “Foi uma das recordações mais bacanas que eu tenho, o primeiro troféu. Ali eu vi que poderia, quem sabe, ser um atleta”, conta Carlos. E destaca o apoio que teve da família e amigos que o incentivaram a jogar e a acreditar que tem potencial. 

Carlão, ainda criança, jogando na escolinha de Morro Reuter. (Fotos: Facebook / Arquivo Pessoal) 
Carlão, aos 10 anos, segurando a taça, jogo pelo time do União de Dois Irmãos. (Fotos: Facebook / Arquivo Pessoal) 

 “Eu quis ser goleiro muito por inspiração do André Doring, que era goleiro do Internacional e também da seleção brasileira. Além do Taffarel, que era um espelho para muitas crianças”, conta. 

Com 16 anos, o União indicou Carlão para o Clube Esportivo Aimoré, porque não tinha mais escola de futebol para sua idade. No mesmo ano, jogou o campeonato gaúcho sub-17 pelo time leopoldense. “Eu fiz um bom campeonato. Joguei contra o Juventude, que, consequentemente, me convidou para ir a Caxias do Sul e jogar com eles”, conta.  

Quando Carlão entrou no Juventude, ainda estava cursando o terceiro ano do ensino médio e teve dificuldades em frequentar as aulas. Jogando a cerca de 65 km da escola, acabou faltando dois meses de aula, mas no final, superou a distância, e conseguiu se formar. “Disseram que se eu não tentasse terminar os estudos, eu nem ficaria no clube. Eles cobram muito, são rigorosos quanto a questão de estudos”, conta. 

Alguns dos clubes que Carlão jogou: Ypiranga, São Luís de Ijuí e Juventude. (Fotos: Facebook / Arquivo Pessoal)

Enquanto Carlão se aperfeiçoava e ganhava reconhecimento em sua trajetória, teve uma noite especial. Jantou com seus ídolos. “Foi uma noite memorável. Todo mundo parava o Taffarel e o André, os dois, que eram meus espelhos, meus goleiros referências, não só para mim, mas foram para milhões de pessoas”, relata o atleta. 

Aos 17 anos, assinou um contrato profissional pelo Juventude, onde jogou por sete anos. “Sair de casa não foi tão fácil, porque estava sempre em casa”, conta Carlão, que era muito apegado à família, principalmente ao irmão Cleiton, a quem considera uma pessoa especial. Seu irmão está no espectro TEA (Transtorno do Espectro Autista). 

Carlão passou pela formação prática de alguns treinadores de goleiro. Um deles era Ed Wilson Oliveira do Nascimento, conhecido como Palmieli, 52 anos. Palmieli foi preparador no começo do Aimoré e, anos depois, indicou Carlão para o Ypiranga de Erechim, mantendo seu treinamento com ele por alguns anos. “Carlão sempre foi um profissional exemplar muito dedicado, sempre querendo aprimorar seus fundamentos até à exaustão”, conta Palmieli. 

Acesso a série C do campeonato Brasileiro em 2015 (Vídeo: Carlos Adiel Deuschle/Arquivo Pessoal)
Copa do Brasil em 2016 (Vídeo: Carlos Adiel Deuschle/Arquivo Pessoal)

Em 2013, Carlão saiu do Juventude e foi por empréstimo para dois clubes, Veranópolis e o Brasil de Farroupilha, para ter mais experiência. E um ano depois, com 25 anos, foi convidado para jogar no Ypiranga, onde atuou por mais quatro anos, perfazendo um total de seis anos no clube. Lá fez uma grande amizade, o atual goleiro do clube Renato Rorig. “Carlão é um grande amigo, me ajudou bastante, vi ele como referência, tenho muito a agradecer ele, pelos ensinamentos que me passou”, conta Renato. Nesse período, com o Ypiranga, participou do jogo que o clube subiu da série D para a série C, sendo outro momento marcante em sua carreira. 

Momento marcante para Carlão, subir da série D para série C. (Foto: Facebook / Arquivo Pessoal)

Carlão conta que uma das vivências que mais gostou foi a identificação que ele teve com a torcida, principalmente nos clubes Juventude e Ypiranga. Os dois clubes foram as sedes de suas maiores conquistas. “De andar na rua, as pessoas te virem, e muitas vezes quererem bater foto, ter esse reconhecimento por uma coisa que eu sempre gostei muito de fazer”, conta. 

Mas, apesar dos momentos bons, também tem os ruins, os momentos de falhas. Em 2019, no Campeonato Gaúcho, contra o Internacional, Carlão levou três gols. “Foi bem difícil, passou em mídia nacional. Aquele gol é citado, é difícil, se torna um momento complicado, que passa na cabeça, até dá vontade de largar tudo. São coisas da vida, principalmente de goleiro, porque tu pode fazer 50 defesas, mas, às vezes, fica marcado por um lance que tu falhou”, explica. Nestes momentos, não faltaram força da família e dos amigos. 

A família sempre presente, sua esposa Angra e enteada Duda. (Foto: Facebook / Arquivo Pessoal)

Carlão já teve o convite do seu ídolo Taffarel para assinar um contrato e ser empresariado pelo ex-goleiro. “Eu não assinei com ele porque eu tinha outro empresário que estava me ajudando e estava cuidando das minhas coisas, não quis romper com ele”, relata Carlos. Seu pai, Edemar Deuschle, na época ficou muito chateado pelo filho não aceitar a proposta. “Eu tenho o contrato guardado comigo até hoje, eu acho que ele deveria ter aceitado”, lamenta Edemar. 

Por volta dos 28 anos, Carlão começa a sentir os entraves que um goleiro sente e muitas vezes não são reconhecidos pela população, as dores lombares. Na busca por respostas, realizou consultas e exames e teve um resultado negativo, a identificação de uma hérnia de disco e com 30 anos já estava tomando muitos remédios. “O atleta judia do corpo, às vezes ultrapassa os limites, que nem comigo. Goleiro sofre muita queda, impacto, rola, deita, pula, levanta”, relata ele. 

E a partir dessas complicações, começou a pensar no futuro, iniciando as pós-graduações, e sempre recebeu o apoio de sua esposa, Angra Fagundes Deuschle. Nesse período, abriu vaga de processo seletivo para professor de educação física e Carlão foi até a prefeitura de Morro Reuter levar a documentação. Lá teve o convite para trabalhar no Departamento de Desporto. Em 2021, com 32 anos, toma a difícil decisão de parar com a carreira profissional no futebol. “Não foi fácil, porque tu leva uma vida inteira no futebol e aí tu vai seguir por um outro caminho”, conta.  

Algumas atividades coordenadas pelo Carlão no Departamento de Desporto: Campeonatos Municipais de Futsal Feminino e Master. (Fotos: Prefeitura Municipal de Morro Reuter / Facebook).
Algumas atividades coordenadas pelo Carlão no Departamento de Desporto: Campeonato de Futsal Masculino. (Fotos: Prefeitura Municipal de Morro Reuter / Facebook).
Algumas atividades coordenadas pelo Carlão no Departamento de Desporto: Campeonato Municipal de Futebol de Campo. (Fotos: Prefeitura Municipal de Morro Reuter / Facebook).
Algumas atividades coordenadas pelo Carlão no Departamento de Desporto: Equipes de Câmbio (3ª idade). (Fotos: Prefeitura Municipal de Morro Reuter / Facebook).

Atualmente Carlos é chefe do Departamento Municipal de Desporto de Morro Reuter, onde é responsável pela organização e realização de ações e atividades de técnicas e prática junto à comunidade. Com o objetivo de promover a inclusão social, crianças e idosos participam das atividades no esporte, na recreação e no lazer.  “A gente tenta melhorar a cada evento, a cada campeonato organizado, seja de futsal, futebol, vôlei, jogos das escolas, a gente sempre está tentando agregar mais coisas para a comunidade”, diz Carlos. 

Hoje em dia, Carlão ainda recebe propostas para voltar a jogar futebol profissional, mas conta que está tranquilo com sua decisão de trabalhar desenvolvendo o desporto de sua cidade. Não parou de jogar, participa de alguns campeonatos de futebol amador, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. 

Momentos de defesa do goleiro Carlão