Tomar um café enquanto escolhe um livro. Comprar flores no mesmo lugar em que se faz uma pausa no meio da correria do Centro Histórico. Descobrir uma exposição de arte enquanto degusta uma taça de vinho. Em Porto Alegre, negócios que unem diferentes experiências em um único espaço vêm ganhando força e transformando o modo como as pessoas consomem.
As chamadas lojas híbridas surgiram como tendência nos últimos anos e, aos poucos, deixaram de ser novidade para se tornarem um modelo cada vez mais comum no varejo. O conceito pode até gerar confusão: muita gente associa “loja híbrida” aos estabelecimentos que atuam tanto no presencial quanto no online. Embora essa também seja uma definição possível, aqui estamos falando de outro tipo de híbrido, aquele em que diferentes serviços, produtos e propostas convivem no mesmo ambiente.
É o café que também é livraria. A floricultura que vira cafeteria. O espaço de arte que divide paredes com vinhos, livros e encontros. Mais do que vender produtos, esses lugares parecem apostar em algo menos palpável: permanência. Em tempos de compras rápidas, delivery e consumo acelerado, eles tentam convencer o cliente a ficar mais alguns minutos, ou quem sabe, algumas horas.
Para desacelerar
Quem entra na loja Universos encontra livros espalhados pelas estantes, mesas convidativas, obras de arte nas paredes e o cheiro de café recém-passado no ar. Mas o espaço nasceu muito antes da inauguração oficial: começou como lembrança.
A idealizadora Rosi D’Agostin costumava frequentar, na França dos anos 1980, uma pequena livraria com café. Décadas depois, percebeu que ainda carregava consigo a sensação daquele lugar: o acolhimento silencioso, quase cinematográfico, de quem encontra refúgio no meio da cidade. Foi dessa memória afetiva que surgiu a Universos.
A ideia inicial era unir livraria e cafeteria, mas o projeto cresceu junto com as paixões da fundadora. Vieram então a adega, o espaço para arte e as parcerias com artistas que hoje ocupam as paredes da casa. Para completar a experiência, a cafeteria ganhou a assinatura da Jean Pierre Pâtisserie et Boulangerie.
O resultado é um ambiente pensado para desacelerar. “A casa foi projetada para que as pessoas se sintam acolhidas e se encantem com nossos livros, cafés, artes e vinhos”, resume a equipe.
Desde que abriu as portas, em setembro do ano passado, a percepção dos clientes confirma uma mudança de comportamento: as pessoas parecem procurar lugares multifuncionais, capazes de reunir diferentes experiências em um único endereço. E não apenas pela praticidade.
Segundo a proprietária da Universos, muitos frequentadores relatam justamente isso: chegam em busca de uma coisa e acabam encontrando outras pelo caminho. Um livro inesperado, uma conversa, um vinho, uma pausa.
Florescer

Se a Universos nasceu de uma memória da França, a Benjuá nasceu da reinvenção. Durante a pandemia, a bióloga e empreendedora por trás do negócio perdeu o emprego e decidiu começar uma floricultura online dentro do próprio apartamento. Na época, em meio ao isolamento, as pessoas buscavam plantas para tornar a casa mais aconchegante, cenário de lives, home office e longos dias entre quatro paredes.
O que começou no virtual, cresceu. Com o aumento da procura e o desejo dos clientes de conhecer os arranjos pessoalmente, surgiu a ideia da loja física. Foi no ano passado que Simone Mirapalhete decidiu tirar o projeto do papel e abrir um espaço no Centro Histórico de Porto Alegre. Mas ela queria mais do que uma floricultura.
Apaixonada pelo universo dos cafés especiais, enxergou ali a oportunidade de criar um ambiente que unisse flores, café e uma pausa. Um lugar para desacelerar em meio à correria do centro da cidade. “Queríamos que as pessoas pudessem parar um pouco no tempo”, conta a idealizadora e proprietária da Benjuá.
Hoje, o espaço mistura cafeteria, floricultura, cursos criativos e encontros. Quem chega pelas flores descobre cafés especiais. Quem entra para tomar um café encontra arranjos, plantas e oficinas de terrários, kokedamas (técnica japonesa) e guirlandas.
O espaço também carrega outro propósito importante: fortalecer redes femininas de empreendedorismo. A equipe é formada apenas por mulheres, e muitos dos produtos vendidos na cafeteria — como brigadeiros, macarons e pães de mel — vêm de parcerias com outras empreendedoras.
A proposta vai além da estética instagramável. A Benjuá aposta em sustentabilidade, reaproveitamento de resíduos orgânicos, compostagem e experiências presenciais em um momento em que quase tudo acontece pelas telas. “Empreender não é fácil. Mas a gente vai com medo mesmo”, diz a fundadora.
Por fim, o que une tantos negócios híbridos é a coragem de transformar paixões pessoais em espaços de convivência. Lugares onde consumir acaba sendo quase um detalhe, porque o que fica mesmo é a experiência.
