Graziella Sanco de Lima Isoppo é uma empresária gaúcha reconhecida por sua atuação no setor empresarial de Gravataí (RS). Empreendedora, psicóloga, líder empresarial e presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Gravataí (Acigra), ela é sócia e diretora das empresas Mega Palco, há 30 anos no ramo de eventos, e Mopo, voltada à construção modular. Atua principalmente com o desenvolvimento de equipes, formação de lideranças e gestão de pessoas e resultados. Casada com Rodrigo Isoppo, é mãe de Isadora e Marina, avó da Maria.
Associada da Acigra desde 2011, Graziella integra a diretoria há mais de cinco anos, já foi vice-presidente de eventos, foi eleita presidente para o biênio 2024-2025 e posteriormente reeleita, dando continuidade à gestão, sendo a segunda mulher a presidir a entidade. Nesta entrevista, fala sobre o papel da liderança feminina no ambiente empresarial. Confira os principais trechos:
Na sua trajetória, quais foram os principais desafios que você enfrentou por ser mulher em posições de liderança?
Eu acabo tendo dificuldade de nomear desafios, porque eu entendo que a minha vida já foi tão boa e tão mais simples do que as mulheres que vieram antes de mim. Entendo que vim andando numa estrada relativamente asfaltada. Talvez seja o fato de eu nunca ter tratado e nunca ter vivido em um ambiente onde ser uma mulher é uma limitação. Bem pelo contrário, eu entendo que são réguas postas diferentes. Quando a gente fala de homens e fala de mulheres, essa régua, ela é inerente, talvez mal posicionada ou ainda não da forma que deveria ser. Mas eu entendo que a nossa maior energia, ela pode e deve ser colocada nos resultados. Realmente almejo um tempo em que a questão de gênero não esteja tão fortemente em pauta, porque aqui nós estamos falando de desafios de liderança empresarial. A competência de alguém não é gênero, é resultado.
Você acredita que ainda existe diferença na forma como homens e mulheres são vistos no ambiente empresarial? Como isso impacta a liderança feminina?
Eu entendo que sim, existe diferença. E você vai me ver, não raro, falando sobre uma questão de viés e de percepção. O primeiro ponto é que existe uma diferença que talvez seja uma diferença injusta e não deveria existir. Então, é aquela, é uma diferença que denigre um, em contrapartida, o outro. Agora, que a diferença existe e que ela sempre vai existir, isso também é um fato. E eu acho que isso nos fortalece mais do que qualquer coisa, porque eu não sou um homem e eu não quero ser um homem, e eu não busco ter as minhas competências masculinizadas. Eu acho que isso é um grande perigo também no mundo das mulheres. Por muito tempo, por conta de uma necessidade de disputa e de espaço, talvez nós tenhamos sido induzidas a ser masculinizadas demais.
Quais características você considera essenciais em uma mulher líder hoje?
É intencionalidade. Mulher nasceu com uma aptidão maior do que os homens em termos de percepção de ambiente, em consideração de variáveis. Então, talvez nós possamos, sim, por vezes, perder a intencionalidade. Eu te diria que essa é uma característica fundamental que nós mulheres devemos ter atenção. Entender que nós, sim, devemos ser intencionais, que é uma característica, se a gente for buscar em base, ela é a maior, ela é inata, especialmente a homens.
Como a sua formação em psicologia influencia o seu estilo de liderança?
Se eu levar em consideração que eu entrei em uma graduação de psicologia com 17 anos e concluí a minha última pós-graduação específica na área da psicologia com 29, posso dizer que a minha formação intelectual numa janela de tempo muito importante no desenvolvimento me habilitou a um pensar lógico dentro da psicologia. Então isso é bem interessante, inclusive porque eu não sei pensar de outra forma.
Você se considera uma líder mais estratégica, emocional ou equilibrada? Por quê?
Eu sou estratégica. A emoção é uma leitura de cenário, é uma percepção do que está acontecendo. A emoção certamente, é uma das formas humanas mais genuínas de fazer acontecer. Então, assim, a emoção é algo genial e que inclusive eu entendo que a gente, progrediria muito no momento que a sociedade realmente se dedicasse principalmente o pai e a mãe, ensinar a emoção. E trazendo daí verdadeiramente para o meu mundo pensando toda a minha caminhada, liderança na terapia. Precisa ter essa postura de enxergar métrica, enxergar resultado, enxergar possibilidade. E não é raro, ter tomada de decisões desfavoráveis, às vezes, ou pelo menos que não agrada a todos. De fato, liderança não é sobre agradar, é sobre você ter realmente base em saber que você está conduzindo um processo, acreditando, de forma muito de verdade, acho que esse é o termo, que vai dar certo lá na frente, mas às vezes, realmente, você tem que botar alguém embaixo do braço e dizer que vamos fazer desse jeito e ponto final. Sim, às vezes um pouco de cara feia faz parte, mas acho que é a questão de um amadurecimento, onde estamos emocionalmente, tu estás estável e as pessoas acreditam e confiam nessa estabilidade.
Qual foi o momento mais decisivo da sua carreira como líder e o que ele te ensinou?
Um momento muito decisivo na minha vida, e não só da minha, mas do planeta, em termos de empreender, sem dúvida, foi no meio da pandemia. Quem se propõe a planejar, a estimar, a estudar mercado, o que aconteceu nesse período é simplesmente contra e ilógico a tudo que é proposto. Então foi realmente um momento muito desafiador e decisivo na minha vida. Porque eu sempre fui bastante controladora, bastante metódica e entendendo que estava no controle das coisas. Eu levei um enorme de um tombo, por que não, nós não controlávamos absolutamente nada, e cada dia caía um problema novo na cabeça. Foi momento muito decisivo e uma mudança, inclusive de estratégia empresarial, porque lá nós tomamos a decisão, prática de nunca mais ter uma única empresa. A gente aprende na dor muitas coisas. Um ponto de virada na minha vida, é que eu não tinha o controle de tudo, por mais que eu tivesse planejado muita coisa.
Que conselho você daria para jovens mulheres que desejam empreender ou assumir cargos de liderança?
O conselho é não esperar grande validação para começar. Estar sempre muito atenta à comunicação que o mundo traz e, por vezes, colocar certas barreiras e certos entraves que não necessariamente eles vão existir, então realmente existe uma consistência e uma competência crítica que nós vivemos em um mundo, onde nós temos a disposição, muita informação, muito conteúdo e também muitas ideias.
Como instituições como a Acigra podem contribuir para fortalecer a presença feminina no empreendedorismo?
Eu entendo que a Acigra deve receber a honra que merece. Eu sou a segunda presidente mulher na instituição, a Ana Cristina Pastro foi a primeira e nós temos um ambiente muito salutar, um fortalecimento de presença feminina muito forte e um cuidado em não criar antagonismo, ou seja, de não estabelecer nenhum tipo de cabo de guerra em relação a gêneros, mas sim uma base de crescimento em construção. Vejo ambientes mistos como ambientes inteligentes, como ambientes mais produtivos, mais sustentáveis. Então, de verdade, pra mim, é quando você vive em um bom ambiente misto, a régua fica mais alta pra todo mundo, porque cada um pode apresentar, desenvolver e demonstrar as suas maiores e melhores competências.
