A filantropia comunitária vem ganhando espaço no Brasil por meio de iniciativas que conectam recursos locais às necessidades dos territórios. Um dos principais impulsionadores desse movimento é o IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, organização da sociedade civil fundada em 1999 com a missão de inspirar, apoiar e ampliar o investimento social privado e seu impacto no país. Em parceria com a Charles Stewart Mott Foundation, o instituto criou, em 2021, o programa Transformando Territórios, voltado ao desenvolvimento das chamadas Fundações e Institutos Comunitários (FICs).
Com sede em Flint, nos Estados Unidos, a Mott Foundation foi fundada em 1926 e possui mais de US$3,2 bilhões em ativos destinados a projetos nas áreas de sociedade civil, educação, meio ambiente e desenvolvimento comunitário. A organização já apoiou iniciativas em mais de 60 países, consolidando-se como uma das principais financiadoras globais da filantropia comunitária. No Rio Grande do Sul, esse movimento se materializa por meio da Fundação Gerações, criada em 2008 em Porto Alegre com a missão de fortalecer a sociedade gaúcha por meio do fomento a iniciativas e projetos de impacto social.
Na entrevista a seguir, Felipe Insunza Groba, gerente de projetos do IDIS e líder do programa Transformando Territórios fala sobre os desafios, aprendizados e perspectivas desse ecossistema. A entrevista contou com a participação de Nick Deychakiwsky, gestor de programas sênior da iniciativa Common Ground, da Mott Foundation.
Como surgiu o programa Transformando Territórios?
O IDIS sempre trabalhou com a pauta da filantropia comunitária, especialmente com fundações e institutos comunitários do terceiro setor. Era um tema recorrente para nós: existem cerca de 2 mil fundações comunitárias no mundo, cerca de 400 no Canadá, 400 na Alemanha, 800 nos Estados Unidos e, até pouco tempo atrás, apenas três no Brasil. Como o IDIS atua para fomentar a filantropia e ampliar o número de organizações e pessoas engajadas em doações e projetos de impacto, esse era um desejo antigo da instituição. Buscando parceiros para fortalecer esse modelo, encontramos a Mott Foundation, que completou 100 anos recentemente. A fundação foi criada por um dos fundadores da General Motors, a Chevrolet aqui no Brasil, que tinha forte ligação com Flint, Michigan. Desde o início, eles apoiam a comunidade local e a fundação comunitária de Flint. Com base nessa experiência, passaram décadas fomentando esse modelo em vários países, criando um ecossistema na Romênia e apoiando iniciativas no leste europeu, África e, mais recentemente, na América Latina. O México já possui esse modelo consolidado há cerca de 20 anos. No Brasil, o IDIS se tornou o parceiro responsável por fomentar a criação dessas organizações, que a gente chama carinhosamente de FICs (Fundações e Institutos Comunitários). Quando iniciamos o programa, entre 2020 e 2021, existiam apenas três FICs no país. Hoje, após cinco anos de trabalho com o programa Transformando Territórios, já são 15 organizações. Uma delas é a Fundação Gerações, que já existia e passou a se reconhecer nesse modelo, fortalecendo sua proposta de valor para a região. Estamos aqui, inclusive, aproveitando a visita da Mott Foundation para engajar empresários, filantropos e a sociedade civil na importância desse modelo.
Existe algum diferencial das FICs do Brasil que possam ser levadas para o internacional?
O modelo americano surgiu há mais de 100 anos com foco na criação de grandes endowments, grandes fundos patrimoniais formados por doadores. Ou seja, nasceu muito com a cabeça dos doadores. Na América Latina, o modelo nasce diferente. Não temos a mesma disponibilidade de recursos, então as organizações já surgem ouvindo financiadores, investidores e a comunidade. Isso gera algo muito interessante: desde o começo, as fundações consideram todas as vozes do território, lideranças, diversidade, causas e necessidades locais. Esse modelo latino-americano já está sendo sistematizado em manuais criados por vários países. Existe um movimento internacional para compartilhar esse conhecimento.
Como funciona a escolha das FICs contempladas?
Trabalhamos por ciclos. Algumas organizações são criadas do zero; outras, como a Fundação Gerações, já existiam e passam por uma transformação. O primeiro critério é a legitimidade. As lideranças precisam ser reconhecidas e representativas do território, pois a FIC vai captar recursos e falar em nome da comunidade. Outro ponto importante é a atuação multicausa. A causa da FIC é o território. Diferente de ONGs que atuam em uma causa específica, a fundação comunitária precisa estar aberta às diversas necessidades locais e ter diversidade de vozes e saberes em sua governança.
Quais mudanças já são visíveis nos territórios?
O caso gaúcho é muito interessante. A Fundação Gerações executava projetos de formação de lideranças, como o Programa Dux. Com o programa, ampliou sua atuação e criou o Fundo Comunitário Porto de Todos para canalizar recursos para projetos sociais e negócios de impacto. Quando ocorreram as enchentes, houve uma mobilização nacional. A fundação ocupou um lugar legítimo para apoiar organizações locais invisibilizadas, ajudando-as a se reerguer. Depois disso, diversificou sua captação e recebeu apoio do Center for Disaster Philanthropy, lançando edital de geração de renda para mulheres periféricas. Isso mostra como uma fundação comunitária pode atuar em diferentes necessidades ao longo do tempo.
Como funciona a captação de recursos?
O IDIS capta recursos com a Mott Foundation, filantropos e organizações. Cada FIC desenvolve suas próprias estratégias, eventos, editais, conversas diretas, venda de produtos, bancos comunitários. O mais importante é diversificar as fontes para garantir independência e legitimidade.
Há planos de expansão?
Nos últimos dois anos, trabalhamos muito a comunicação estratégica, e fazemos tudo isso em paralelo, pensando em como essas FICs amadurecem institucionalmente e, ao mesmo tempo, se comunicam melhor para que o ecossistema nacional entenda e reconheça essas organizações. Neste próximo ciclo, vamos continuar fazendo tudo o que já vínhamos fazendo, mas queremos expandir para novas regiões onde ainda não estamos presentes. Temos um desejo muito grande de estar em outros estados do Brasil, ajudar a criar novas fundações comunitárias ou apoiar a conversão de organizações já existentes. Provavelmente, na segunda metade do ano, faremos um esforço deliberado e intencional para buscar novas organizações, porque o Brasil é muito grande. Pensamos especialmente em estados do Centro-Oeste, mais estados do Nordeste e outras regiões, eventualmente também no Sul. As necessidades e os potenciais sociais são imensos. Vamos fazer esse esforço de identificar onde faz sentido criar uma nova FIC, onde existem lideranças que entendem a importância do modelo, onde já existem apoiadores e pessoas que possam se engajar.
*Na foto, Felipe Insunza Groba (de branco, à direita) acompanha visitas a entidades no RS (Crédito: Isabelle Rieger)
