Natural de São Leopoldo, Silvia Maria de Mello chegou ao Reino Unido para cuidar de duas crianças brasileiras enquanto estudava. O plano inicial era passar um ano na Inglaterra, estudar inglês e voltar ao Brasil. Dezoito anos depois, ela trabalha no Castelo de Windsor, uma residência da família real.
Antes mesmo da abertura dos portões ao público, Silvia já está em atividade preparando o ambiente que será cenário para turistas e membros da realeza. A trajetória, que começou de forma despretensiosa, levou a leopoldense a um dos lugares mais simbólicos do Reino Unido.
Ao longo dos anos, ela passou a fazer parte de momentos significativos dentro do castelo, o que a aproximou a eventos históricos, como a transição da monarquia para o reinado de Charles III. Sua história é marcada por mudanças inesperadas e escolhas que redefiniram completamente seu caminho. O plano inicial deu lugar a uma vivência que atravessa culturas e fronteiras. Para ela, a principal lição é que, muitas vezes, os caminhos mais improváveis são justamente os que levam mais longe.
Na entrevista a seguir, Silvia narra essa jornada.
Como começou tua trajetória na Inglaterra?
Eu vim para cuidar de duas meninas, filhas de uma amiga, quase irmã, e estudar inglês. A ideia era ficar só um ano, voltar para o Brasil e dar aula em curso de inglês. Mas aí a vida foi acontecendo. Renovei o visto, conheci meu marido e acabei ficando. Hoje, faz 5 anos que trabalho com a parte de Housekeeping, diretamente ligado ao rei. E a gente faz um pouco de tudo. Esse é o lado bom de ser brasileiro: a gente aprende a se virar nos 30.
Tu imaginavas que um dia trabalharia no Castelo de Windsor?
Nunca. Eu visitava o castelo quase todo final de semana porque a entrada era gratuita, mas jamais pensei que trabalharia lá. A ideia era pegar experiência e voltar ao Brasil para dar aula de inglês.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar no castelo?
Deus tem um plano, e se o plano A não funcionar, tente o B. Uma amiga minha viu um anúncio da vaga no Facebook e me enviou. Eu achei que só podia ser uma piada, ou até um golpe, mas resolvi entrar no site. Era uma vaga oficial da Royal Household. Apliquei, fiz entrevista duas semanas depois e consegui o emprego.
Qual é a tua função hoje?
Eu trabalho no housekeeping do Castelo de Windsor. Das 7h às 10h cuidamos do State Apartent, que é a parte de visitação. As visitas terminam às 16h e os turistas deixam muita sujeira. Das 10h30 até às 13h ficamos responsáveis pela acomodação do staff. Quando o rei tá no castelo, o pessoal de Londres vem para acompanhar.
Como foi trabalhar durante a mudança da rainha para o rei Charles III?
Foi muito marcante. Depois que a rainha faleceu e o rei assumiu, ele veio nos conhecer e conversar com os funcionários. Estávamos lá e foi muito engraçado, porque ele apertou nossa mão e perguntou onde cada uma de nós morávamos. Minha colega foi antes de mim e falou que morava em Slough. O rei olhou pra ela e disse “Que lugar?”. Graças a Deus ela foi antes de mim porque eu não ia admitir que também morava em Slough depois dessa reação. Falei que morava em Windsor mesmo.
Como foi o choque cultural ao chegar na Inglaterra?
Comparando os brasileiros com os ingleses, somos muito coração. Gostamos do abraço, do beijo. Somos espontâneos. O inglês é mais contido. Pede desculpa pra tudo e tem que cuidar com o que tu fala porque pode ser ruim. A barreira cultural é mais linguística, porque no Brasil aprendemos o inglês americano, e quando chegamos aqui, por mais que tu consiga falar e ler, é mais difícil no começo. Uma vez fui no cabeleleiro porque queria pintar o cabelo. Cheguei lá e pedi: “I would like to paint my hair”. O cara me olhou e não entendeu nada o que eu estava falando, porque não era paint, era color.
O que essa trajetória te ensinou?
Que tu nunca deve duvidar de nada. Quando eu ia imaginar, dando aula em colégios no Brasil, sendo uma simples professora, que eu ia parar na Inglaterra e ter a experiência que tenho. A gente realmente não sabe o que esperar. Ganhei duas filhas do coração, porque não tive filho. Conheci o Phillipe e o tempo que tivemos juntos foi muito bom. A vida realmente é uma caixa de surpresas. Tudo pode acontecer. Claro, só não fiquei rica ainda.
O que tu dirias para a Silvia do passado?
Eu diria: acredita em ti e não dá tanta importância para o que os outros falam. Minha mãe sempre dizia: se não pagam tuas contas, não tem que dar opinião sobre tua vida. E eu aprendi da forma mais dura.
