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“Celebro que outras vozes estão aparecendo, mas não podemos apagar todo o cânone literário”, diz escritor Altair Martins

Altair Teixeira Martins é um escritor e professor brasileiro reconhecido por sua atuação na literatura contemporânea e no ensino de escrita criativa. Aos 51 anos, construiu uma trajetória que une produção literária consistente e dedicação à formação de novos autores. Professor de escrita criativa e de Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Altair também se destaca como autor. Sua escrita costuma explorar temas ligados à subjetividade, ao cotidiano e às relações humanas.

Ao longo da carreira, recebeu importantes reconhecimentos literários, como o Prêmio Açorianos de Literatura, uma das principais distinções culturais do sul do Brasil, e o Prêmio AGES, que valoriza autores do cenário literário gaúcho. O livro “Tango para homens velhos” foi seu último lançamento, publicado em 2025. A obra reúne três peças de teatro, sendo a primeira delas a que dá o título ao livro.

Nesta entrevista, Altair Martins compartilha impressões sobre a cena literária atual e relembra a própria trajetória como escritor.

Quando você percebeu que a literatura deixaria de ser só leitura profissional ou até por diversão, e passaria a ser parte da sua vida, e do seu trabalho? 

Eu acho que bem cedo. Tive a sorte na vida de ser aluno do professor Oliveira Ferreira da Silveira, no Colégio Público de Porto Alegre, o Colégio Cândido Godói, e era fascinante assistir às aulas dele. Terminei o curso técnico em química, mas aí no vestibular eu fui fazer letras. Não tinha um curso de escrita criativa, só existia letras. Então eu optei por fazer letras bacharelado na UFRGS. Por conta da literatura, eu li uma entrevista do Charles Kiefer, escritor, um grande amigo, que dizia que a língua da literatura era francês. Daí eu fui fazer letras-francês, então ali eu percebi que a literatura ia fazer parte da minha vida e fez, e faz.    

O que falta ou o que sobra na cena literária contemporânea? 

 A professora Regina Dalcastagné, mudou a história da literatura brasileira contemporânea. Ela é professora da UnB. Ela fez a pergunta, “Quem é a literatura brasileira?”, e a literatura brasileira é o homem branco. Protagonistas     homens e brancos. Entretanto também acho que a gente está cometendo uma distorção em alguns momentos, que é achar que todo o cânone que foi construído, todo ele foi só por causa do olhar brancocêntrico e machocêntrico. E aí tem coisas assim, sabe? – Refutações a Machado de Assis. Ah, porque o Machado de Assis não falou de negritude. Ele falou de negritude, mas deveria levantar a bandeira, como fez Castro Alves, contra o Império. O Machado de Assis era funcionário do Ministério da Agricultura do Império, conhecia a família real. É necessário ter de se colocar nas circunstâncias daquele momento. Então, acho que hoje tem esse problema, sabe? Os povos originários, afrodescendentes, mulheres, outros gêneros, literatura lésbica, literatura gay. Acho tudo isso positivo, o que não podemos é distorcer e achar que por este momento nós podemos simplesmente apagar tudo. Sem compreender a circunstância que as pessoas viveram naquele momento. Eu celebro o momento atual da literatura, celebro que outras vozes estão aparecendo, mas eu só faço essa ressalva. A gente não pode apagar e achar que simplesmente todo o cânone literário foi construído apenas com base nisso.

Qual é o papel da literatura nestes tempos de excesso de informação? 

Eu gosto muito de um teórico chamado Roger Chartier. É um historiador da cultura, a história da cultura escrita. E ele aponta três problemas da cultura escrita.  Um dos problemas dela era o cerceamento de informações. Na Idade Média, você podia cercear a informação ou até apagar a informação. Depois ele fala de uma outra, naquele período, que era a falta de acesso à informação. E depois, por último, o excesso. Que naquele tempo não tinha.  Hoje nós temos. O acesso. Nós temos muito acesso. E aí entra o terceiro ponto do Roger Chartier. A cegueira branca. Havia uma cegueira. É ruim o termo, né? Porque parece um termo racista. Vou chamar de cegueira escura. Que era a falta de luz na Idade Média. Hoje tem acesso a tudo. Essa é a cegueira branca. A quantidade de informação, a quantidade de livros que nos chegam. O que é uma estratégia que aparece para tu não parar em nenhum lugar. Aí eu acho que é a função da literatura. Ler um romanção. Quando tu lê um romanção, tu põe uma âncora no teu pé.

O seu livro reúne  três narrativas distintas.Existe um fio condutor que conecta “Tango  para homens velhos”, “A nuvem vigilante” e “Amém”, ou a proposta é justamente a autonomia entre eles? 

Não, não tinha um fio condutor. Elas foram publicadas juntas, mas criadas separadas. Mas pessoas viram, sim, o fio condutor. Por exemplo, o feminicídio é um dos temas que percorrem. Assim como também a violência contra a mulher. A falta de sentido nas coisas. A falta de imanência de sentido nas coisas. O teatro absurdo serve muito bem pra falar disso. A falta de sentido geral da vivência humana. O nonsense  atravessa todas as peças, mas o nonsense é muito mais o estilo no qual isso se expressa. O “Tango para homens velhos” não tem vigilância, mas o público está meio que olhando, vigilando aquilo. Depois a gente tem “Nuvem vigilante”, em “Amém” o olho que tudo vê,  que parece ser a censura,  o cancelamento, a moralidade. Geralmente quem prega moralidade é a pessoa mais FDP.

Você falou dos temas do feminicídio e da violência  contra a mulher que estão presentes  nas narrativas. E ainda, elas estão em formato de peça de teatro. Por quê?    

O “Tango” nasceu porque nós tínhamos aqui um grupo de teatro  e ficamos com dois atores, eu e um outro colega, e a Gica, que fez doutorado aqui, que era diretora.  Daí era pra escrever uma peça. Eu perguntei para ela assim, “tá, mas a gente vai ter dois homens em cena num período de ascensão da mulher?”. Ela me respondeu: “vai, escreve sobre isso”. Aí veio a ideia, quem são esses dois  caras que estão em cena, né? E me veio a ideia de dois homens que querem espiar e são covardes. Eles vestem essa coisa machocêntrica, mas no fundo eles estão em cena espiando o crime que fizeram. São dois homens que agrediram e assassinaram suas mulheres. Então é uma peça dura, não é uma apologia aos homens, pelo contrário, é uma peça que coloca os homens em cena… Eles vão se esfarrapando, vão se arrebentando em cena, ao ponto de  dançar tango sozinhos. E o formato em peça de teatro eu acredito que dá mais potência para mostrar isso. Além disso, em uma narrativa eu teria que ter lugar de voz, um lugar de fala, eu acho que quem tem que escrever sobre isso em um romance são mulheres. Na “Nuvem vigilante” surge uma personagem que é uma mulher que  se acha uma gambá  desde que ela viu uma fêmea de gambá levando os filhotes e ela carrega umas bolinhas de papel no  marsupial dela na bolsinha e são os filhos que desapareceram.  E aos poucos ela vai revelando que no fundo ela foi vítima de uma violência terrível. Tudo é metafórico. Como apresentar isso se não for em cenas? Eu acho que é o gênero que eu mais me sinto livre. Pena que pouca gente lê teatro. 

Em “Amém”há uma dimensão simbólica ou até espiritual. Essa leitura dialoga com a sua intenção ao escrever essa parte do livro?

A peça surgiu quando estávamos em plena pandemia e eu estava em um grupo de pesquisa onde analisávamos e pesquisávamos dramaturgias contemporâneas, e nós assistíamos peças online para continuar dando trabalho para os atores. Naquele momento eu comecei a escrever uma peça que ainda não sabia o nome. “Amém” é uma ironia a esse discurso forte no Brasil que não é religioso, ele usa o poder da religião, eu respeito a fé das pessoas mas existe uma indústria que usa isso e manipula, e o “Amém” é um pouco disso, dessa ideia de seita que circula entre as pessoas quando elas se fecham no próprio conceito de religião,  dessas tribos que muitas vezes nós vivemos.


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