Em meio às transformações que estão acontecendo no jornalismo, marcadas pela reconfiguração dos modelos tradicionais e pelo crescimento de iniciativas independentes, novos caminhos estão sendo traçados por profissionais que apostam na autonomia e na reinvenção da profissão. Nesse cenário, o jornalista e diretor executivo do Nonada Jornalismo, Rafael Glória se destaca por sua atuação. O Nonada nasceu no ambiente digital e se consolidou como uma alternativa no campo do jornalismo cultural.
O avanço de iniciativas independentes revela uma mudança estrutural na forma de produzir e consumir informação. Para Glória, esse movimento amplia vozes, propõe novos formatos e desafia os profissionais a repensarem seu papel no mercado. Nesta entrevista, ele comenta os desafios, as possibilidades e o futuro do jornalismo fora dos grandes veículos.
O jornalismo hoje está em crise ou em transformação?
O jornalismo sempre esteve em crise, de certa forma. Essa é uma história constante, com crises tecnológicas, de confiança e de formatos ao longo do tempo. Dá até para contar a história do jornalismo a partir dessas rupturas. O que acontece agora é que isso está mais intenso. Com a internet e as redes sociais, essas mudanças ficam mais visíveis e aceleradas. Eu vejo isso como uma oportunidade, especialmente para o jornalismo que nasce no ambiente digital.
Trabalhar fora dos grandes veículos é mais liberdade ou mais risco?
Eu acho que pode ser os dois. No meu caso, sempre foi mais uma escolha pela liberdade. Nunca tive tanto interesse em trabalhar em grandes veículos, tive algumas experiências mais pontuais, como freelancer, mas sempre quis ter autonomia, principalmente editorial. No jornalismo independente, existe mais espaço para criação, para desenvolver um olhar próprio e construir algo mais autoral. No caso do Nonada, por exemplo, a gente criou uma forma específica de olhar a cultura, com liberdade para escolher pautas e caminhos. Por outro lado, não é simples. Até conseguir sustentar isso, leva tempo. No nosso caso, demorou cerca de dez anos para que a gente pudesse viver dele de forma mais estruturada. Durante muito tempo, foi um trabalho paralelo.
Existe espaço para jornalistas fora da mídia tradicional?
Sim, hoje existe mais espaço do que antes. Antigamente, o caminho era muito mais linear: você começava em um veículo tradicional e, a partir dali, construía sua trajetória. Hoje isso mudou. Existem iniciativas independentes que funcionam também como espaços de formação. No Rio Grande do Sul, talvez ainda seja menor do que em centros como São Paulo e Rio de Janeiro, mas já há iniciativas importantes. Veículos independentes têm aberto espaço para estudantes e jovens jornalistas crescerem, começando como estagiários e assumindo outras funções ao longo do tempo. Além disso, esses espaços permitem experimentar outras formas de fazer jornalismo, com mais tempo para apuração, troca e aprofundamento. Nem tudo precisa seguir a lógica do hard news, com prazos curtos. Em algumas áreas, como a cultura, isso se torna ainda mais evidente.
O que te levou a apostar em uma iniciativa independente?
Isso começou ainda na época da faculdade. Eu estava estudando jornalismo e desenvolvendo uma pesquisa sobre jornalismo cultural. Na época, percebia que faltavam espaços para reportagens mais aprofundadas. O Nonada surgiu um pouco dessa inquietação, dessa vontade de criar um espaço próprio para produzir esse tipo de conteúdo. No início, era algo bastante idealista. Era mais sobre ter um lugar para escrever e experimentar. Com o tempo, foi crescendo, outras pessoas foram se envolvendo e ele acabou se tornando parte da minha trajetória profissional e pessoal. Deixou de ser só uma ideia e virou uma escolha de vida.
Como tu defines o Nonada Jornalismo?
É um espaço de aprofundamento sobre cultura, que busca olhar não apenas para o produto final, mas para os processos e para as pessoas envolvidas.
Qual é o principal diferencial do Nonada?
A gente aposta muito na profundidade e em uma visão ampliada de cultura. Ao longo do tempo, fomos deixando de lado uma abordagem mais tradicional, centrada apenas em produtos culturais, como filmes, peças ou livros, para olhar também para os processos. Quem produz? Quais são as condições de trabalho? Que memórias estão envolvidas? Que diversidade aparece nesses contextos? Isso inclui pensar a cadeia produtiva da cultura, os trabalhadores e seus direitos, a formação e os contextos sociais. É uma forma de expandir o conceito de cultura e, consequentemente, o próprio jornalismo cultural.
O que é mais difícil de sustentar nesse modelo?
A questão financeira é, sem dúvida, um dos principais desafios. Além disso, existe uma dificuldade grande em aprender a gerir tudo. Quando eu fiz jornalismo, não havia essa preocupação com gestão, com entender o veículo como um negócio. E isso é fundamental. A gente teve que aprender na prática a lidar com finanças, organização institucional, captação de recursos. Trabalhar com editais, escrever projetos, buscar apoio.
E o que é mais recompensador nesse modelo?
Acho que é ver o impacto do trabalho e o envolvimento das pessoas. Quem participa do Nonana geralmente se sente motivado, engajado, percebe sentido no que está fazendo. Isso é muito importante. Também é um trabalho que não entra no automático, sempre existem novos projetos, novas ideias, novas formas de atuação. Isso mantém o processo vivo e estimulante. Ao longo do tempo, ver que a iniciativa se sustenta, cresce e continua relevante também é muito recompensador. Dá energia para seguir, mesmo com as dificuldades.
O que mais te preocupa no jornalismo hoje?
Uma das coisas que me preocupa é o impacto da inteligência artificial, principalmente em relação à escrita. O jornalismo sempre teve na escrita uma de suas bases, na capacidade de narrar, de descrever, de construir sentido. Existe um risco de perdermos esse cuidado e esse prazer de escrever, deixando tudo automatizado. A inteligência artificial pode ajudar em várias etapas, como pesquisa, organização de informações, planejamento. Mas é preciso cuidado para que isso não substitua a construção autoral do texto. A escrita também é uma forma de pensamento, e perder isso pode afetar a própria qualidade do jornalismo.
Vale a pena insistir na carreira hoje?
Vale, mas com uma visão mais ampla. O jornalismo não pode estar isolado. Ele faz parte de um campo maior, que é a comunicação, e dialoga com várias outras áreas. É importante estar aberto a isso, buscar outras formas de conhecimento, entender tecnologia, cultura, história. Essa capacidade de transitar entre áreas é cada vez mais importante. Ao mesmo tempo, é fundamental manter a base, como a leitura e a formação crítica.
Que conselho tu darias para quem está começando?
Eu diria para não se fechar apenas no jornalismo. Buscar outras áreas, outros conhecimentos, ampliar o repertório. E, principalmente, ler. Não dá para escrever ou interpretar o mundo sem leitura. O jornalista precisa estar em movimento, acompanhando o que acontece, se atualizando constantemente. Essa capacidade de adaptação é essencial, especialmente em um cenário de mudanças tão rápidas como o atual.
