De autoria do filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, A Sociedade do
Cansaço (2010) é um ensaio pertencente a uma sequência de obras do autor que
examinam as patologias sociais da modernidade [1]. O livro chegou ao Brasil pela Editora Vozes, em 2015.
Como o próprio título sugere, trata-se de uma obra que busca compreender fenômenos
contemporâneos ligados ao esgotamento psíquico, à exploração no mercado de trabalho e
às transformações silenciosas que ocorreram nas formas de controle social ao longo das
últimas décadas.
Diferentemente de análises clássicas que associavam o sofrimento social principalmente à
repressão externa, Han argumenta que vivemos hoje um modelo de sociedade marcado por
um tipo distinto de pressão: uma pressão que já não vem apenas de fora, mas que passa a
ser exercida pelo próprio indivíduo sobre si mesmo.
Da sociedade disciplinar à sociedade do desempenho
Para compreender esse fenômeno, Han retoma a ideia da sociedade disciplinar, conceito
desenvolvido pelo filósofo francês Michel Foucault. Nesse modelo, predominante sobretudo
nos séculos XIX e XX, o poder se organizava por meio de instituições que impunham regras
claras e restrições externas. Escolas, fábricas, quartéis e hospitais funcionavam como
espaços de vigilância e disciplina.
Nesse contexto, o sujeito era constantemente confrontado com limites. O mundo social era
estruturado pelo “não pode”: não pode faltar, não pode errar, não pode sair da norma.
No entanto, segundo Han, esse modelo deu lugar a uma nova lógica social. Em vez de um
sistema baseado na proibição, emerge uma sociedade orientada pelo desempenho.
Nesse novo cenário, o indivíduo já não escuta apenas o “não pode”, mas principalmente o
imperativo do “você pode”. Pode produzir mais, pode empreender, pode se reinventar, pode
superar limites.
À primeira vista, essa mudança parece representar um avanço em termos de liberdade.
Todavia, Han argumenta que ela produz uma forma ainda mais profunda de dominação.
Quando a exigência de produtividade deixa de vir de fora e passa a ser internalizada, o
sujeito já não percebe a exploração. Ele próprio passa a se cobrar constantemente.
Desse modo, o explorado torna-se também explorador, mas de si mesmo.
Além de Michel Foucault, Han também dialoga com outros pensadores importantes
da filosofia contemporânea, como Friedrich Nietzsche e Hannah Arendt, mobilizando
ainda reflexões de caráter humanista e, em alguns momentos, até teológico, como
formas de compreender a sociedade contemporânea. Por isso, o autor também é frequentemente citado em contextos teológicos e por pesquisadores da área, como no Instituto Humanitas Unisinos (IHU), órgão transdisciplinar da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), onde trabalho.
A violência neuronal
É nessa conjuntura que Han introduz um dos principais conceitos do livro: a violência
neuronal.
Segundo o filósofo, as patologias predominantes da sociedade contemporânea já não são
doenças infecciosas, mas doenças psíquicas relacionadas ao excesso de estímulos e
exigências. Depressão, síndrome de burnout, transtornos de ansiedade e hiperatividade
tornam-se cada vez mais comuns.
Ao contrário das doenças imunológicas, que surgem a partir de um “inimigo externo”, essas
novas formas de sofrimento são produzidas pelo próprio funcionamento da sociedade.
O sujeito da sociedade do desempenho acredita estar exercendo sua liberdade quando
trabalha mais, quando se cobra mais e quando tenta constantemente superar seus próprios
limites. Contudo, esse processo acaba levando ao esgotamento.
Nesse sentido, o indivíduo contemporâneo não é mais apenas disciplinado. Ele se torna
autoexplorado, preso a um ciclo permanente de produtividade e autocobrança.
Multitarefa e a perda da contemplação
Outro ponto importante abordado por Han é a transformação da atenção humana. O autor
observa que a cultura contemporânea valoriza cada vez mais a multitarefa, isto é, a
capacidade de realizar várias atividades ao mesmo tempo.
À primeira vista, isso parece representar eficiência. Porém, Han argumenta que esse
comportamento também revela uma forma de regressão.
Segundo ele, a atenção fragmentada impede o desenvolvimento de experiências mais
profundas de concentração e contemplação. A vida passa a ser marcada por estímulos
contínuos, notificações, tarefas simultâneas e interrupções constantes.
Nesse cenário, torna-se cada vez mais difícil manter períodos prolongados de reflexão.
A sociedade do cansaço, assim, não produz apenas trabalhadores exaustos. Ela também
produz indivíduos incapazes de desacelerar.
O sujeito cansado
Ao longo do ensaio, Han descreve a figura do sujeito cansado, símbolo da condição
humana na contemporaneidade.
Esse sujeito vive sob a pressão permanente de se tornar melhor, mais produtivo e mais
eficiente. Ele busca constantemente otimizar sua própria vida, mas raramente encontra
momentos de descanso verdadeiro.
O paradoxo, segundo o autor, é que a liberdade prometida pela sociedade do desempenho
acaba se transformando em uma nova forma de prisão. Sem um limite externo claro, o
indivíduo passa a exigir de si mesmo uma produtividade infinita a qual ele não consegue
suportar.
O resultado é um cansaço profundo que não pode ser resolvido apenas com descanso
físico, pois está ligado à própria estrutura da vida social.
Visão da obra Sociedade do Cansaço
Embora curto — pouco mais de 100 páginas na versão de bolso da Editora Vozes — o livro
apresenta uma reflexão poderosa sobre as transformações muitas vezes despercebidas
que modelam a vida contemporânea, assim como na resenha que conduzi
sobre o filme A Única Saída [2]
Ao deslocar o foco da repressão externa para a autoexploração, Byung-Chul Han oferece
um novo ponto de vista para compreender fenômenos como o burnout, a ansiedade e a
sensação de insuficiência que marca grande parte da sociedade atual, o que também inclui
nós, estudantes e futuros jornalistas.
Portanto, mais do que uma crítica ao excesso de trabalho, o livro propõe uma reflexão mais
extensa sobre o modo como o próprio ideal de desempenho passou a definir a identidade
dos indivíduos e os seus impactos na saúde mental dos colaboradores.
Nesse sentido, Han sugere que a superação da sociedade do cansaço talvez
dependa não apenas de mudanças econômicas ou tecnológicas, mas também de
uma transformação na maneira como compreendemos o valor do tempo, da atenção
e da própria experiência humana. Afinal, vivemos em uma sociedade em ruínas.
Por fim, gostaria de destacar que, embora o livro tenha sido publicado em 2010, suas
reflexões parecem hoje ainda mais atuais, sobretudo diante da expansão da internet e
das novas dinâmicas do mercado de trabalho no cenário pós-pandemia.
Para os interessados no ensaio, a versão e-book da obra está disponível na Amazon por R$ 9,90. Já a versão física costuma custar cerca de R$ 20. O livro possui 136 páginas.
Notas
[1] Além de Sociedade do Cansaço, o autor também explorou questões sociais nos livros Sociedade de Transparência (2012), A Agonia do Eros (2012), A Expulsão do Outro (2022), Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder (2014), etc.
[2] A resenha do filme A Unica Saída pode ser acessada clicando aqui.
