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A nova natureza de Marina Sena

O que o álbum Coisas Naturais revela sobre o amadurecimento – e os excessos – da cantora
Capa do álbum Coisas Naturais (Foto: Spotify)

Há quase um ano, a cantora mineira Marina Sena lançou o seu terceiro álbum de estúdio, chamado “Coisas Naturais”. A marca registrada da produção foi o resgate às origens musicais dano cantora, buscando trazer, acima de tudo, um canto de sereia que nos levasse de volta para a praia, onde ela iria nos embalar em sua voz chorosa, no ritmo das ondas do mar à noite.

A estreia do álbum trouxe um misto de opiniões no público e na crítica: muitos elogiaram a versatilidade e resgate às referências trazidas, além de elogiar as produções que buscaram estender o alcance de ritmos musicais no catálogo de Marina Sena. Por outro, boa parte do público, acabou se sentindo perdido no meio da mistura que a mineira propôs em criar, criticando que o som estabelecido não soava realmente “natural”.

Porém, uma coisa é certa: Marina Sena conseguiu, novamente, se destacar com mais uma produção musical. Após um ano do lançamento do álbum, queremos saber: o Coisas Naturais trouxe novos ares às produções de MPB atuais ou a produção “morreu” na praia do pop brasileiro?

De volta às raízes

Para produzir o álbum, Marina Sena decidiu se isolar da cidade, buscando refúgio para a sua criatividade em uma fazenda, no interior de São Paulo. A decisão foi feita com o objetivo de conseguir se reconectar consigo mesma e suas primeiras produções. Para isso, a cantora contou com a ajuda do produtor Janluska, além das participações de André Oliva e Matheus Bragança, integrantes da “A Outra Banda da Lua”, no apoio instrumental.

A estratégia adotada buscou “fugir” dos holofotes criados em seu álbum anterior, o “Vício Inerente”, que trouxe uma dinâmica mais pop e urbana, perfeita para a mídia. Pensando na trilogia musical criada por Marina Sena, entendemos que ela fez o seguinte movimento: Começou nos palcos, com o “De Primeira”, apostando em um estilo já conhecido dela, no caso o MPB, ousando em letras mais profundas e sinceras. Após isso, acompanhamos a cantora em uma ronda noturna, com “Vício Inerente”, onde letras mais chicletes e uma produção focada no urbano brasileiro foram os destaques da era. Agora, Marina decide respirar um pouco, entrando em contato com o que ela mais aborda em suas letras: a natureza do mundo, da mulher e dos seus sentimentos.

O álbum marca um amadurecimento não apenas vocal, mas também artístico da cantora. Em entrevistas para diversos sites, Marina afirma que, durante a produção, também buscou cuidar de sua saúde psicológica. Observamos isso com maior clareza nas letras de suas músicas, com uma artista mais segura de si, decidida e cheia de amor. E caso esse sentimento não seja retribuído, o amor volta a ela, que se coloca em primeiro lugar.

Um mar de estilos

Para a produção do Coisas Naturais, Marina Sena não economizou em seu repertório, buscando trazer um pouco de cada coisa, focando em ritmos populares no Brasil e na América Latina. Entre as 13 faixas que compõem o álbum, a cantora percorreu pelo samba, funk, reggae, arrocha, piseiro e, claro, o MPB. Além disso, estilos como reggaeton, tecnobrega, maracatu e rock tropicalista também fizeram parte da produção.

Os estilos escolhidos partem de um vasto repertório que Marina Sena vem construindo desde o início de sua carreira. Neste álbum, a cantora partiu de sua terra natal, Minas Gerais, com influências do Congado, Reisado e Folia de Reis; revisitou Gal Costa, Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Fafá de Belém para criar suas letras; e se inspirou no eletrônico da cantora britânica FKA Twigs, que foi aplicado em produções como “SENSEI” e a faixa-título “Coisas Naturais”.

Os feats, que são as colaborações entre artistas, também foram inseridos no álbum. As participações internacionais aconteceram no pop alternativo “TOKITÔ”, com as cantora ítalo-brasileira Gaia Gozzi e a portuguesa Nenny, e no reggaeton “Doçura”, com o trio espanhol Çantamarta. Essas escolhas marcam a abertura de Marina com o mercado internacional e a inserção de novos ritmos musicais em produções nacionais.

Outro ponto a se destacar está nas escolhas audiovisuais. Desde a capa até os visualizer (vídeo, geralmente em loop, onde a música fica sempre tocando) Marina não economizou em entregar um conteúdo que brilhasse os olhos. Podemos ver isso principalmente nos clipes de “Numa Ilha”, lançado um pouco antes do álbum, e em “Lua Cheia”. A artista desenha um romance só seu, com cores quentes, retratos sensuais e uma noite inesquecível à beira da água, uma vez que visitamos com ela o mar (em Numa Ilha) e o rio (em Lua Cheia) locais onde ela insiste em voltar.

As letras também desenham uma Marina mais madura, decidida de si. Em “Desmitificar”, por exemplo, observamos uma história do início ao fim, onde ela explora o desejo feminino. Somos jogados em uma roda sonora que é fácil de se perder, com ritmos e batidas que ressoam o poder das palavras. O perigo, quando escutamos o álbum, fica na repetição de palavras iguais em boa parte das músicas: “Mar”, “rio”, “beijar” e “entrar” acabam aparecendo diversas vezes, o que pode soar um pouco repetitivo para quem escuta.

A natureza de Marina Sena

Goste ou não, o álbum Coisas Naturais foi, reforçando o contexto, um novo desabrochar da cantora consigo mesma. Desde o começo Marina Sena buscou ir a fundo, explorando uma tropicalidade musical pouco vista hoje em dia.

Explorar diferentes estilos musicais foi o destaque principal do início ao fim do álbum e fica claro que a cantora consegue, cada vez mais, um lugar ao sol da musicalidade brasileira. Se baseando em figuras ilustres, no que vem sendo popular no país e, também, em si mesma, Marina conseguiu, mais uma vez, mexer com as estruturas de como a música pop brasileira atual está.

Porém, é sempre bom lembrar: repetições constantes cansam os ouvidos. Marina Sena pecou em suas letras que pareciam, algumas vezes, repetidas entre todo o álbum. O diabo mora nos detalhes e, devido a isso, podemos retirar alguns pontos de criatividade devido a essa “pequena falha” no momento de escolher as palavras certas.

O álbum Coisas Naturais foge do óbvio e apresenta uma Marina Sena mais experiente, com vocais líricos e uma produção apaixonante. Somos convidados a entrar e revisitar esse mar criado por ela o tempo todo, com um universo musical só dela, que desmitifica, aos poucos, o que é e o que não é música popular brasileira.   

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