Muito do que a maioria acredita lembrar da infância vem, na verdade, de memórias compartilhadas por outras pessoas. Nosso cérebro tende a apagar ou até reinventar lembranças. De lendas urbanas do nosso folclore a percepções sobre o mundo, aquilo que nos é transmitido por meio da oralidade muitas vezes é esquecido ou reformulado como uma forma de proteção. Para algumas pessoas, porém, esse processo não acontece com tanta facilidade, e suas memórias insistem em permanecer intactas, deixando estática qualquer possibilidade de seguir em frente. É o caso de Rafael, protagonista de Nada Floresceu em 99 (Dom Mordaz, 2026), HQ de Djeison Hoerlle e Eduardo Ribas, que apresenta, por meio do roteiro e das ilustrações dos dois artistas, uma história sobre amadurecimento e as cicatrizes que a infância insiste em deixar nos adultos.
A narrativa acompanha dois momentos distintos da vida de Rafael. De um lado, a vida adulta, marcada por decisões importantes e pela sensação de que o passado ainda exerce grande influência sobre o presente. De outro, somos levados à história principal: a infância do personagem, aos 11 anos, na primavera de 1999, em uma pequena cidade gaúcha ligada ao setor calçadista, que naquele período vivia um processo de declínio industrial.
É nesse cenário que somos apresentados ao desaparecimento de Gustavo, amigo de Rafael. Convencido de que o responsável pelo sumiço foi o folclórico Velho do Saco, Rafael parte em busca do garoto na companhia de seus colegas Tales e Marina, cada um com uma personalidade distinta e, consequentemente, conflitante, mas que acabam se entendendo, como costuma acontecer nas amizades infantis. Enquanto as autoridades não levam a sério a lenda, as crianças seguem determinadas a encontrar o amigo, partindo em busca da casa do Velho.
A partir dessa jornada, a HQ constrói algo mais profundo dentro da história de Rafael: o processo gradual em que o “brilho da infância” começa a dar lugar à consciência do mundo ao seu redor. Ao atravessarem diferentes espaços da vizinhança, as crianças entram em contato, pouco a pouco, com realidades que até então estavam distantes de suas experiências. Os quadrinhos, assim como outras expressões culturais, têm a capacidade de representar questões complexas da vida em sociedade por meio de histórias próximas e lúdicas.
Em NF99, essa característica aparece por meio de elementos comuns da infância. Ao longo da narrativa, o reconhecimento visual que leitores de gerações próximas à de Rafael podem experimentar ajuda a construir essa sensação de proximidade com a própria infância. As casas cercadas por árvores, os cães latindo nas ruas, as brincadeiras no carrinho de mão, as salas de aula rabiscadas e até mesmo o modelo Ford Ka “baratinha” dirigido por Rafael quando adulto compõem um ambiente cotidiano que aproxima o leitor da narrativa. Parte crucial das memórias e das histórias em quadrinhos, a narrativa visual de NF99 tem grande importância na construção da atmosfera nostálgica e real da história, permitindo que o leitor acompanhe o amadurecimento e as descobertas de Rafael.
Os diálogos também contribuem para essa construção. Entre conversas simples de crianças surgem reflexões existenciais sobre a passagem do tempo, relações familiares disfuncionais e a dificuldade que muitas vezes temos de lidar com nossos próprios sentimentos. Entre esses elementos está a figura do Velho do Saco, personagem popular no imaginário popular brasileiro, principalmente das crianças. Usado por adultos para assustar crianças “arteiras”, o mito aparece inicialmente como um desconhecido perigoso. No entanto, conforme a narrativa avança, a figura ganha humanidade importante para a questão central do trauma de Rafael.
Se perguntarmos por que tantas gerações conhecem a história do Velho do Saco, mesmo sendo um personagem sem identidade definida, talvez possamos encontrar uma pista do retrato social do ambiente. Quando o mito ganha forma, ele deixa de ser apenas uma lenda e se transforma na realidade social de pessoas que vivem à margem, muitas vezes em condições precárias, vagando pelas ruas em busca de restos — que, para elas, significam muito mais.

É a partir da descoberta da verdadeira identidade da lenda que se encerra a busca pelo amigo desaparecido. Nesse momento, a história constrói sua virada: o instante em que a infância começa a perder parte do brilho para o protagonista. O novo olhar para o mundo real marca uma mudança na forma como Rafael enxerga aquilo que o cerca. No presente, agora adulto, ele parece ainda carregado por essa memória. O passado é uma cicatriz aberta. A narrativa, então, parece levantar a questão central: o que fazemos com as lembranças que moldaram quem somos? Elas, sem dúvida, são importantes. Apenas precisamos escolher como encará-las.
Às vezes, é necessário revisitar os lugares e acontecimentos que nos transformaram para, só então, sermos capazes de seguir em frente. Rafael faz exatamente isso: retorna ao passado que o formou para aprender a continuar. E, de certa forma, o olhar de Gustavo, seja o garoto de 1999 ou o do presente, parece ajudá-lo a entender estas memórias sob uma nova perspectiva.

