Catástrofe climática que assolou o Rio Grande do Sul impactou a infraestrutura dos espaços culturais e o trabalho dos artistas


Mais do que característica humana, a cultura é elemento essencial e singular em todas as sociedades. É a forma que nos expressamos, cultivamos e nos conectamos. O desastre climático enfrentado pelo estado do Rio Grande do Sul, além de todos os danos causados diretamente às pessoas e seus bens, impactou profundamente os espaços culturais, seus acervos e trouxe à tona o desafio de como entender e retomar a expressão cultural do estado.

Casa de Cultura Mário Quintana foi um dos espaços afetados e luta para conseguir se reconstruir. Foto: Divulgação/ Casa de Cultura.
As marcas de lama que a água deixou nas paredes do prédio histórico, evidenciam a tragédia deste ano. Foto: Divulgação/ Casa de Cultura.

Museus, teatros, bibliotecas e centros culturais sofreram danos extremos e toda a comunidade artística foi impactada. Não só pelos espaços que sempre abrigaram as diversas formas de expressão artística, mas do trabalho dessa classe que foi interrompido sem perspectiva de retomada. Em resposta à crise, a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMCEC) formou um comitê de recuperação dos espaços culturais.

O comitê estabeleceu premissas claras: promover a recuperação inicial dos espaços por meio da limpeza, descarte de itens danificados, sanitização e cuidados com a rede elétrica, tendo como prioridade a segurança das pessoas envolvidas. Paulo César B. do Amaral, membro do comitê, explicou que a escolha dos representantes foi baseada na experiência. “O critério baseou-se na experiência de seus membros em relação a atividades necessárias que decorreram dos problemas causados pelas enchentes,” afirmou.

Os desafios são muitos e variados. Segundo Amaral, “a principal dificuldade é a lentidão das providências, que dependem de diagnósticos realizados por profissionais, como engenheiros, e a escassez de recursos.” Além disso, o fornecimento de matéria prima necessária à reconstrução foi interrompido devido às enchentes, complicando ainda mais a recuperação dos espaços.

A avaliação preliminar dos danos indica perdas estimadas em cerca de três milhões de reais. Medidas a longo prazo estão sendo planejadas, mas a recuperação total dependerá de diagnósticos contínuos e da obtenção de recursos adicionais.

Por outro lado, além dos danos nos ambientes físicos e da perda de bens materiais como cenários, figurinos, livros, equipamentos de luz e som, cadeiras, madeiramento de palco, o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Rio Grande do Sul (SATEDRS), observa que a maioria dos artistas e técnicos que atuam na área tiveram suas agendas previstas para os próximos três meses canceladas.

Campanhas desenvolvidas pelo SATEDRS

O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Rio Grande do Sul não conta com o apoio do comitê de recuperação dos espaços culturais, em virtude de não terem sido procurados pela Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMCEC), e precisou encontrar apoio em grupos culturais e na ajuda da população para receber doações.

Visando apoiar quem precisa de ajuda, o sindicato está fazendo um rastreamento com seus associados por meio de um mapeamento que pode ser preenchido no link: https://forms.gle/UzWa2t4cjxEXXdkT6, .  Os resultados parciais do formulário estão disponíveis no banco de dados da associação e sua divulgação foi realizada em grupos de WhatsApp e em redes da entidade e parceiros como o setor circense, disponível em: https://assocircors.org.br/

Além disso, duas ações para ajudar a classe foram colocadas em prática: “SOS: Classe Artística e Técnica” e “Contrate Um Artista do RS”. A primeira conta com a doação de cestas básicas, colchões, kits de higiene e limpeza e com doações financeiras via pix. A segunda iniciativa, chamada oficialmente “Circula RS”, é realizada através do site Agora Crítica Social, coordenado pela jornalista Michele Rolim.

“A iniciativa visa incentivar a circulação de espetáculos de artes cênicas gaúchos para outros estados e países, com finalidade de reerguer o setor cultural do RS. Os profissionais registraram seus espetáculos na seção “divulgue” [https://www.agoracriticateatral.com.br/divulgue]. Assim, na seção “circula RS” [https://www.agoracriticateatral.com.br/circula-rs], curadores, prefeituras e programadores interessados na contratação de espetáculos podem consultar as produções disponíveis e fazer contato. Até o momento, cerca de 250 espetáculos já foram inscritos na plataforma”, destaca Michele.

Através da ajuda de grupos parceiros e da população é que o sindicato tem conseguido auxiliar seus associados. “A maior dificuldade é alcançar as pessoas fisicamente. Ainda assim, através das parcerias, conseguimos entregar muitas cestas básicas, ou repassar valores por pix. O apoio da classe está muito bom, mas o apoio que vem do Estado e do Município é muito fraco. Estamos fazendo ações de forma mais independente.” afirma o presidente do SATEDRS, Luciano Fernandes.

Sobre a retomada a um possível normal nas atividades culturais no Rio Grande do Sul, Fernandes é cauteloso: “Esse retorno deve acontecer de forma lenta, pois as cidades que tiveram seus bairros devastados ainda estão lidando com a emergência da assistência social aos desabrigados, questões de limpeza e da recuperação de suas instituições. Além disso. a diminuição da atividade econômica certamente gerará muitos cancelamentos, desistências das matrículas em escolas livres de artes e diminuição na oferta de contratação para o setor, o que, pela menor demanda, vai gerar uma redução nos valores de cachês. Infelizmente, este panorama nos preocupa.”

A história da cultura através de quem ajuda

O espaço cultural Conceito Arte iniciou sua trajetória em 27 de março de 2014, quando um grupo de jovens ocupou um espaço abandonado na Zona Norte de Porto Alegre. A “Casinha”, como é carinhosamente conhecida pela comunidade do bairro Sarandi, se preocupa com a valorização da cultura que é produzida pelos moradores que ali perto vivem. Além disso, também busca estimular a educação popular com iniciativas gratuitas, como oficinas de teatro, capoeira, desenho, escrita criativa, rodas de conversa e saraus, entre outras.

Espaço Cultural Conceito Arte, em Porto Alegre, ficou submerso durante as chuvas. Foto: Divulgação/Conceito Arte.

Segundo sua presidente Priscila Macedo, o ponto alto na trajetória da Conceito Arte foi a parceria com o Coletivo Abrigo no projeto “Viva Elizabeth: diálogos que transformam a vila”, a primeira rota turística de grafite de Porto Alegre, iniciativa que reúne a expressão artística de 36 artistas. Além disso, desde 2017 abriga a Biblioteca Comunitária Girassol, onde há o incentivo ao contato com os livros, com a leitura, a literatura e a escrita, permitindo acesso a cerca de 300 pessoas ao mundo das fábulas, da ficção, da esperança e dos sonhos.

Porém, boa parte do trabalho de 10 anos da Conceito Arte foi levado pela enchente. “Perdemos 70% do acervo de livros da biblioteca, o que sobrou passará por uma análise para saber se terá condição de ser higienizado e usado novamente. Os móveis e objetos foram quase totalmente descartados. Então, precisamos recuperar muitas coisas para retomar nosso trabalho. Nesse momento, precisamos de materiais de construção, mobília, eletrônicos, itens para a cozinha, materiais de escritório, materiais de arte, materiais para a classificação de acervo, entre outros.

Ainda assim, Priscila reitera que “o foco tem sido na ajuda às famílias atingidas. O que conseguimos arrecadar até o momento foi para ajudar as pessoas que frequentam nosso espaço. O restante das doações usaremos na reconstrução. E aí precisaremos pintar, comprar estantes, livros, mesas, computadores, móveis, dentre outras coisas para retornarmos com o nosso espaço.”

As doações para a Conceito Arte podem ser feitas através do PIX: 54.825.701/0001-99 (Associação Social e Cultural Conceito Arte). Para conhecer um pouco mais espaço e suas atividades, basta acessar a rede social: https://www.instagram.com/conceitoartepoa/.