Instalada no 4º Distrito, dentro das instalações do Instituto Caldeira, um hub de inovação que abriga cerca de 130 escritórios, a TAG Livros viu parte de sua história ser levada pelas águas do Guaíba na enchente que atingiu Porto Alegre. Em maio, 69 dos escritórios do Caldeira, instalados no primeiro pavimento, foram tomados pela água, que permaneceu lá por 28 dias.  

Uma das empresas neste espaço é a TAG Livros, um clube de livros por assinatura que promete uma “experiência literária dentro de uma caixinha”. A “caixinha”, no caso, são os envios mensais que são feitos para os assinantes, com uma edição exclusiva, revista com conteúdo complementar, marcador de página, box colecionável e um mimo literário. Em 2024, a TAG completa 10 anos. 

Desde que as águas baixaram, o Instituto Caldeira já conseguiu fazer a limpeza de parte de seu espaço e reabrir as portas de forma também parcial. No local, os impactos estão estimados em R$ 35 milhões, conforme informa Pedro Valério, diretor-executivo do Caldeira. “A gente tem trabalhado com essas empresas e organizações constituindo um plano de retomada […] e o que a gente tem feito é realocado todas as empresas do primeiro andar para o segundo e o terceiro pavimento. Com isso, conseguimos, de forma ainda improvisada, atender a demanda dessas organizações”, diz. 

Rafaela Pechansky, que trabalha na TAG Livros há quase seis anos e atualmente exerce a função de publisher, afirma que a limpeza do local já foi feita, mas que as salas ainda estão danificadas. Por isso, estão temporariamente trabalhando nos andares superiores. A empresa perdeu, além de trabalhos de arte que haviam sido pintados especialmente para servirem como capas do clube, também livros autografados. De resto, houve prejuízos com todo material de escritório, entre cadeiras, mesas e notebooks. O custo estimado gira em torno de R$ 200 mil, segundo Rafaela. A previsão de reabertura é para a segunda quinzena de agosto.

Intistuto Caldeira alagado, com livros da TAG boiando em meio as águas. (Foto: Divulgação/Instagram)

Mais de 100 mil livros foram perdidos na enchente no Rio Grande do Sul, segundo publicação da TAG Livros em rede social, mas a empresa não contabiliza estragos em sua produção, responsável por enviar obras para milhares de assinantes todos os meses. “O nosso estoque fica todo em São Paulo, então somente as entregas para o Rio Grande do Sul foram afetadas, mas já estamos num processo de normalização”, assegura Rafaela.  

Rede de solidariedade 

Mesmo prejudicados pela enchente, tanto o Instituto Caldeira quanto a TAG Livros participaram de ações para auxiliar pessoas que também estavam passando por essa situação. Foi o caso dos estudantes do Geração Caldeira, um programa que aproxima e insere jovens no mercado de trabalho, cujas famílias que foram atingidas receberam apoio. A iniciativa é denominada De Volta Para Casa e, ao todo, ajudou mais de mil famílias. “A gente começou trabalhando com a possibilidade de atender 30 jovens. Superamos essa expectativa, ampliamos para 60, e agora a gente está concluindo com 100 famílias de 100 jovens dos nossos programas educacionais, que estão sendo atendidos e amparados a partir desse programa”, informa Pedro Valério. Cada um recebe de R$ 5 mil a R$ 6 mil, em um cartão pré-pago, para auxiliar em um “enxoval” para a casa.  

Já a TAG fez um esforço coletivo para ajudar funcionários que perderam tudo, passando por associados do clube e até escritores gaúchos que tiveram livros promovidos pela empresa. As ações foram desde fazer vaquinha via pix a dispensar funcionários por tempo indeterminado para trabalho nos abrigos. O site da empresa também vendeu livros que tiveram todo o lucro voltado para os autores afetados. Uma dessas autoras foi Julia Dantas, publicada pelo clube há alguns meses.  

Um projeto de reintrodução à leitura também está sendo apoiado pela TAG. “O trabalho está sendo feito em conjunto com Secretaria de Cultura do Estado. Estamos mobilizando as editoras de todo o Brasil, nossos grandes parceiros, que estão nos ajudando com importantes e volumosas doações para reconstruir as bibliotecas dos municípios. A TAG doou 10 mil livros, e a expectativa é que a gente alcance, junto com os parceiros, 30 mil livros doados”, detalha Rafaela Pechansky.  

Kit da TAG, na modalidade Inédito, de maio de 2024. (Foto: Reprodução/TAG Livros)

O sentimento é de orgulho, segundo a publisher. “[Essas ações] são muito importantes, porque fica um recado de que estamos numa empresa com propósito, que tem um direcionamento ético correto. Quando falamos que ‘a literatura transforma o mundo para melhor’, num momento como esse percebemos que essa não é só uma frase bonita, algo da boca para fora, mas sim algo que está fixado em nosso DNA como instituição. O orgulho que os funcionários sentem em trabalhar na TAG aumentou ainda mais com essas ações e posicionamentos, bem como o respeito que sentimos pelas lideranças da empresa”, aponta.  

Em rede social, o co-fundador e CEO da TAG, Gustavo Lembert, escreveu sobre os 10 anos da empresa. Desde 2014, foram 3,6 milhões de livros enviados para mais de 280 mil assinantes. “Comemorar este aniversário, especialmente enquanto vejo a postura da TAG para ajudar as vítimas das enchentes e a reconstrução de bibliotecas destruídas ao redor do RS, mesmo que nossa sede também tenha sido devastada, me faz acreditar ainda mais no poder da leitura para (re)construir comunidades. Que venham os próximos 10!”, publicou. 

Futuro da cidade 

O diretor-executivo do Instituto Caldeira, Pedro Valério, menciona a união dos poderes público e privado como possibilidade para trazer a mudança para o 4º Distrito, na capital do estado. E, por meio disso, trabalhar para encontrar soluções urbanas e iniciativas que contribuam para que não se volte a viver isso novamente. “Nós passamos por um momento de tristeza profunda, de luto, de indignação. Mas temos, de fato, olhado para essa circunstância toda que a gente está vivendo agora como uma oportunidade, de tentar realmente endereçar soluções para problemas que a gente já enfrentava. Sabendo do quão extraordinárias foram as chuvas de maio, mas entendendo que a partir dela a gente pode construir uma avenida de transformação para resolver um problema que já existia na região” diz.