Enquanto a neblina cobria a cidade de Porto Alegre, naquele primeiro sábado de tempo firme, dia 08 de junho, o som de violinos, violoncelos, violas, contrabaixos e flauta emanava da casa 45 da rua Gonçalo de Carvalho. Era dia de ensaio da Camerata Jovens Talentos da Casa da Música. Um grupo de câmara formado por 16 jovens entre 10 e 16 anos que, desde maio, leva conforto e leveza a abrigos da Capital.  

O projeto Circuito de Música nos Abrigos surgiu como uma forma de reação da entidade diante da tragédia climática do Estado. O objetivo era dar continuidade aos trabalhos, bem como incentivar a prática musical pelos estudantes depois do período sem ensaios. “A gente, enquanto setor cultural, não pode parar. Ao mesmo tempo queríamos proporcionar aos nossos jovens essa experiência de fazer algo em prol de alguém”, explica a cantora lírica e diretora artística da Casa, Angela Diel.  

O projeto teve início em 21 de maio e já percorreu oito abrigos de Porto Alegre. “Foi uma experiência bem marcante, porque lá onde eu moro não alagou, e com a visita aos abrigos começou a cair a ficha de quão real era aquilo que eu só via pelas telas”, relata a violinista Morgana Damian, de 19 anos. 

Morgana é uma das violinistas da Camerata. A relação com o instrumento começou aos oito anos, mas foi somente na pandemia que ela passou a se dedicar à prática musical. (Foto: Alana Schneider/Beta Redação)

Os jovens músicos contam que ao longo das apresentações, o nervosismo foi dando lugar a satisfação de levar um pouco de alegria em meio a dor de quem perdeu tudo com a enchente. “Nos sentimos desafiados com o projeto, pois depois de semanas sem ensaios, chegar e já tocar junto dá um certo medo. Mas, enfrentamos isso como grupo e conseguimos levar a nossa música às pessoas”, conta a violoncelista Maria Fernanda Tavares, de 19 anos. Para a jovem, que está no primeiro semestre de Licenciatura em Música, participar do Circuito foi a certeza de estar trilhando a carreira certa.  

No sábado de ensaio da Camerata, o repertório tinha o Andante Festivo, de Jean Sibelius, a Sinfonia 27 de Mozart e o bom humor do professor Tácio Vieira, que com a mesma habilidade de ensinar, arrancava sorrisos. 

Tácio repassa com os estudantes a forma correta de posição dos dedos sobre as cordas. (Foto: Alana Schneider/Beta Redação)

Assim como a preocupação de encontrar a sintonia entre os instrumentos, o grupo também tem o cuidado na seleção das músicas de cada apresentação nos abrigos. “A gente leva um repertório mais limpo, canções mais suaves para não deixar as pessoas tensas, nem ansiosas. Queremos dar conforto e gerar um sentimento mais agradável”, detalha o adolescente Miguel Gomes de Moraes, de 12 anos. 

Para além do cunho recreativo, o Circuito tem uma proposta didática de aproximar as pessoas da arte. “Elas aprendem a ver o que um é violino, uma viola ou violoncelo, coisas que talvez elas não tenham acesso”, ressalta Angela. Ela reforça que os abrigos podem agendar as visitas da entidade pelo Instagram @casadamusicapoa. 

Os jovens da Camerata são acompanhados pelo professor e maestro Tácio Vieira, que enxerga o projeto como uma oportunidade de reafirmar o valor da arte na sociedade e tornar os estudantes multiplicadores culturais.  

“Enquanto artista, a gente para e pensa: que importância tem isso? As pessoas querem água, comida, querem voltar para suas casas e eu vim aqui trazer música? Mas então, percebemos que a arte também gera conforto, porque alimentar a alma é tão importante quanto alimentar o estômago”, afirma o músico, que diz encontrar no Circuito relevância naquilo que faz.  

Por meio da música, grupo da Camerata faz trabalho voluntário em abrigos da Capital (Foto: Casa da Música/Divulgação)

Sem tempo para pessimismo 

Iniciativas como a do Circuito de Música nos Abrigos, ajudam não somente a levar um pouco de esperança e ânimo àqueles que perderam tudo, mas também a manter vivo o próprio setor cultural. 

“A gente precisa captar novos alunos, trazer os antigos de volta e pagar nossos professores que contam com essa renda. Não dá tempo de ficar pessimista. Temos que erguer a cabeça, ver possíveis editais e auxílios e seguir o trabalho”, relata Angela. Cantora lírica, ela também precisou reagendar várias apresentações.  

Assim como todo setor, a Casa da Música interrompeu as atividades, em maio, devido às chuvas. A entidade não sofreu danos em suas estruturas físicas, mas foi impactada com a desistência de alunos. E agora trabalha para ajudar a comunidade. “Realizaremos uma série de recitais beneficentes ao longo dos próximos meses, direcionando um recital para cada professor e aluno afetado pelas enchentes”, comenta. O primeiro evento será realizado dia 29/06 em prol da professora de violino Bruna Christ. O recital ocorrerá na Casa da Música com a pianista Cristina Capparelli.

Um espaço de incentivo à música  

A Casa da Música nasceu, justamente, do propósito de promover a cultura e ser um espaço para o ensaio e o ensino musical. Conforme Angela, responsável pela criação da entidade há 15 anos, havia uma carência de locais que atendessem a necessidade dos artistas, em Porto Alegre. “A gente oferece, hoje, locação de salas para ensaios, para aulas ou também para fazer um recital. E temos todos os instrumentos”, esclarece. 

Detalhes do ensaio da Camerata (Foto: Alana Schneider/Beta Redação) 

Em 2017, Angela criou também a Associação Amigos Casa da Música (AACAMUS), uma entidade sem fins lucrativos, que tem o objetivo de oferecer aulas gratuitas para alunos de escolas públicas de Porto Alegre e trabalhar a formação de novos artistas da música clássica.  

“Damos oportunidade a todas as crianças que querem aprender um instrumento, seja para seguir como carreira, como um hobby ou só para crescimento pessoal”. Ela explica que as crianças e os jovens podem escolher a modalidade de acordo com as vagas. 

Atualmente, mais de 160 estudantes são atendidos pela Casa. Destes, 16 formam a Camerata Jovens Talentos. O professor Tácio Vieira explica que o projeto tem uma agenda pedagógica de ensaios aos sábados e apresentações mensais em locais públicos, voltada à prática instrumental. Em paralelo, o grupo atende a solicitações de patrocinadores.  

“Arte e cultura nos transformam em seres civilizatórios, são elas que nos tiram da condição de animal e nos tornam humano. Acredito que é nosso dever [artistas] multiplicar essa ideia e conscientizar as pessoas”, afirma.