Abigail Pereira é vereadora de Porto Alegre, ativista sindical e líder do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) na Câmara. Com mais de 40 anos de trajetória política, é reconhecida pela luta em garantir melhores direitos para as mulheres. “Um mantra pra nós é de que uma cidade que é boa para as mulheres, é boa para todas as pessoas”, ressalta.  

Na política, Biga já foi secretária estadual do Turismo (de 2011 a 2014) e concorreu a vice-governadora (2014, na chapa do petista Tarso Genro) e a senadora (em 2018). Em casa, filha única entre 10 irmãos homens, conta que sempre questionava o porquê do tratamento diferente entre ela e os irmãos.  

Em entrevista realizada no dia 22 de abril, Biga comenta com orgulho sua trajetória e os conhecimentos e experiências adquiridas nos poderes Legislativo e Executivo. Confira os principais pontos da entrevista. 

Seu ativismo começou desde cedo, já na família com 10 irmãos homens. Como tu começou a questionar a diferença nos tratamentos?  

O meu crescimento de infância, de menina, eu questionava o porquê de ter um tratamento diferenciado, uma educação diferenciada, por que os meninos podiam ficar até tarde na rua e eu tinha hora para voltar? Por que que eu tinha que ajudar nas tarefas domésticas e os meninos não eram chamados para essas tarefas? Tudo isso fez parte da minha infância, de o tempo todo questionar. 

Quando começou seu interesse pela política?  

Quando eu ingresso no mercado de trabalho eu me aproximo de muitas mulheres, algumas, em geral, mais velhas do que eu, mas que traziam o debate de um crescente número de violência. Na época me chamou muito a atenção isso, e eu trabalhava com uma mulher que era advogada de família e que tinha todo um acúmulo já na questão dos direitos das mulheres. Tinha uma cartilha editada, eu morava em Caxias do Sul, e essa mulher se chamava Rachel Grazziotin. Digamos que ela foi a responsável pela minha conscientização e minha entrada no debate da política.  


Como foi lançar a UBM (União Brasileira de Mulheres) e como aconteceu esse movimento?  

Nessa época, anos 80, essa advogada propôs que nós criássemos uma união de mulheres, e o foco principal era o enfrentamento à violência. Então nós fundamos essa entidade e passamos a atuar, fazer esse debate, e na época teve um caso muito famoso, que foi uma moça, se chamava Cristina, e, quando rompeu o relacionamento, o namorado ateou fogo nela. Ela teve boa parte do rosto e do corpo queimado, e aí o Nick Lauda, piloto famoso que tinha sido queimado, que tinha passado por essa situação, deu um macacão para ela, que tapava todo o rosto e o corpo, era um macacão para protegê-la de toda aquela situação. Ela foi referência e ela acabou indo para várias cidades fazer palestras e falar sobre o que ela passou por romper um relacionamento. E nós a levamos em Caxias do Sul e fizemos uma palestra com ela. Em seguida disso, nós passamos a denunciar a situação das mulheres que iam denunciar violência doméstica e eram revitimizadas, porque elas tinham apanhado e tinham que relatar na delegacia para um homem o que elas tinham passado. Então elas se revitimizavam, porque este homem que estava do outro lado da mesa tratava com discriminação, indagando “o que tu fez pra merecer isso?”. 

Na época, quais foram as maiores dificuldades?  

Não existiam delegadas, não existiam. Não existia concurso público para mulheres delegadas. Era concurso público para homens, e só existiam homens delegados. Uma vez eu vim pra Porto Alegre discutir com o chefe de Polícia e ele dizia “Ai, as mulheres podem se apaixonar pelos advogados”, e que isso seria um impedimento para elas estarem nessa carreira. Enfim, nós temos muitas manifestações, muitas passeatas, muitas vindas ao Palácio, para discutir com o chefe de Polícia, com o secretário de Segurança. Depois de muita luta, nós conseguimos que se abrisse um concurso para mulheres delegadas, e se instituiu no Rio Grande do Sul. As primeiras delegacias foram Porto Alegre, Canoas e Caxias. Foram as 3 primeiras delegacias das mulheres. Diga-se de passagem, que não cresceu muito, porque se lá na fundação foram três, hoje a gente tem pouquíssimas, 23 parece. 
 
Como um grande nome da Bancada Feminista no RS, como tu vê os avanços para nós, mulheres?  

Em seguida, a gente passou a discutir a necessidade dessas mulheres terem um local que as abrigassem, por que como elas iriam denunciar o agressor e voltar pra casa? Sofreriam mais agressões ainda. Então nós identificamos duas casas no Rio Grande do Sul, uma em Porto Alegre, que é a Viva Maria, e uma em Bento Gonçalves. A gente foi visitar essas casas, foi indagar e debater isso. E nesse ínterim, a Rachel Grazziotin faleceu, e aí quando a gente institui a casa, por decreto do prefeito, ele criou uma comissão que criasse o estatuto da casa e o regimento da casa. Eu era uma das integrantes, nós éramos em três. Fizemos o estatuto da casa – fui eu, Geci Prates e Maria dos Santos – e a denominamos Viva Rachel.   

Neste momento, também dos anos 80, acontecia o debate sobre uma nova Constituição, e nós criamos o Lobby do Batom. As mulheres, digamos, nós fomos o segmento que mais conquistou, na Constituição de 88. Nós tínhamos uma organização muito potente de todos os movimentos feministas, os movimentos de mulheres. Eu fui, na oportunidade, três vezes a Brasília e sempre para ir a gente fazia mil e uma coisas, de debate de atividades. Inclusive arrecadando finanças para poder fazer o nosso deslocamento e ir até Brasília. Aí eu fui de ônibus e lá a gente participou de vários eventos de comissões de debates, participei pelo Lobby do Batom e nós conseguimos derrubar o quarto poder, nós conseguimos avançar inteiro na Constituição de que homens e mulheres são iguais. 

 
Qual ainda é o maior desafio?  

O meu mandato é um mandato dirigido às mulheres. As nossas pautas, nossos projetos, é a primeira vez que isso acontece na Câmara Municipal. Nunca teve uma parlamentar que tivesse esse direcionamento, né?  Então nós temos um slogan, que é um mantra para nós, de que uma cidade que é boa para as mulheres, é boa para todas as pessoas. Porque as nossas pautas são pautas humanas, então nós temos nos focado com isso de buscar, de termos mais mulheres na política, das nossas pautas de verdade ganharem visibilidade. Porque o trabalho da mulher, ao longo da civilização humana, tem sido silenciado. As mulheres têm sido silenciadas e invisibilizadas, nas artes, na cultura, na história, na vida acadêmica e no trabalho. Enfim, nós mulheres temos uma trajetória de invisibilidade e de silenciamento. Então cabe às pessoas que ocupam algum lugar de poder, algum espaço, ajudar a dar visibilidade para essas pautas. 

Lançamento de campanha contra assédio moral, no dia 15 de abril de 2024 (Foto: Júlia Urias/CMPA)

Você já atuou em diferentes áreas da política. Nos conta qual a diferença de trabalhar no Legislativo e no Executivo? 

Digamos que o nome já diz: no Executivo se executa. Então tu faz mais entregas, tu tem um espaço mais institucional em que tu é coordenadora de despesas, tem uma equipe maior de trabalho e realiza mais coisas. Mas que tem aquele direcionamento, eu tenho… acho que é do meu estilo essa coisa de buscar alguns mantras. Assim como hoje o nosso [mantra] é que a cidade que é boa para as mulheres é boa para todas as pessoas, quando eu era da área do Turismo, em cada cidade que eu ia o prefeito dizia assim para mim: “Secretária, me ajuda a fazer da minha cidade uma Gramado”. E aí eu vou te dar uma dica e que era para mim um mantra também, uma cidade só é boa para o turista se ela é boa para quem mora nessa cidade, para quem vive nessa cidade. 

Promover uma cidade, se o turista for lá e não encontrar um hotel, uma pousada decente, um restaurante que fica aberto à noite… Precisa qualificar esse destino, essa cidade precisa dar segurança aos turistas. Tem que ter segurança para quem mora nela, essa cidade tem que ter saneamento, e isso é bom para quem mora, então nós fazíamos sempre esse debate com a prefeitura. Mas eu quero te dizer uma outra coisa, como secretária eu poderia ter notado em viajar pelo mundo, viajar pelo Brasil divulgando o nosso Estado, que diga-se de passagem a maioria dos secretários fazem, eu optei por viajar pelo Rio Grande do Sul e conhecer o potencial do Rio Grande do Sul. Então o Executivo é um pouco isso, eu fiz muito, eu qualifiquei muito os nossos destinos. Foi ótimo, eu tenho maior orgulho disso. 

No Parlamento tu escolhe as tuas pautas, tu tem essa autonomia de escolher as pautas, como eu escolhi as mulheres. Eu tenho o livre arbítrio de ir no bairro e pedir providências para aquelas situações concretas, objetivas do povo que altera a vida daquele território. Então eu diria que é mais gostoso nesse sentido, pela nossa ideologia de querer ajudar as pessoas, de fazer da política em um espaço que não é isso que comumente as pessoas sentem. Normalmente as pessoas não gostam, e não gostam com razão. Nós queremos mostrar que tem um outro jeito de fazer política, e esse jeito é acolher as demandas da comunidade. Nesse sentido, a minha energia, o meu tempo, a minha busca de resolver, ela tem mais eficácia, entendeu? Do que eu citei aqui o turismo, foi a pauta que eu estive, mas independente da pauta que eu, ou que tu estiveres no Executivo, tu vai te dirigir para aquele tema no Legislativo. Tu tem uma amplitude maior, então é isso. 

Como vereadora, quais são os assuntos que tu acreditas que tenham maior importância neste momento e que precisem de atenção, em Porto Alegre?  

Considero que os assuntos mais importantes que Porto Alegre clama, que Porto Alegre pede socorro, é a questão da saúde. Estamos com as nossas emergências lotadas e sem atendimento, especialmente para as mulheres gestantes, em que não temos vagas para as crianças na UTI Neonatal.  

E para essas mulheres, consideramos que creche é um tema extremamente importante, pois nosso déficit de vagas de creche em Porto Alegre é gigante. As mulheres querem trabalhar, mas não tem espaço adequado para receber essas crianças. Nós encaminhamos aqui na Câmara, e eu presido a Frente Parlamentar de Economia de Cuidados, onde nós mulheres somos as principais pessoas da sociedade que estamos abarrotadas de trabalho com essa questão dos cuidados. Cuidamos da família e estamos impedidas de trabalhar porque o município não oferece espaço para acolher os nossos idosos, para acolher nossas crianças, e as mulheres estão deixando de estar no mercado de trabalho para cuidar. 

Eu considero que saúde e a educação são os principais problemas e com importância muito grande na cidade. 

Para as eleições municipais deste ano, quais são os planos? A tua intenção é de seguir como vereadora da capital? 

Eu vou me candidatar, estudar para a reeleição como vereadora, porque acredito que nós mulheres trazemos mais humanidade para a política. Nós temos a sensibilidade de entender que essa cidade precisa ser amiga das mulheres, meu mandato tem desde o início pautado esses temas. Desde a iluminação na cidade, de um transporte que nos acolha, que seja de qualidade, que tenha mais ônibus rodando na cidade, respeitando os horários e ônibus com qualidade. O transporte é importante, a educação extremamente importante, a saúde. Outro tema que para nós é extremamente importante é a questão do combate à violência contra a mulher, que a gente possa ter de volta uma Rede Lilás, que a gente possa ter abrigos que acolham as nossas mulheres e que a gente possa fazer um trabalho de educação para que os homens parem de nos bater, parem de nos matar.  

Então, estes são os temas que eu diria os mais importantes hoje, que têm pautado essa necessidade de nós termos mais mulheres na política. E por isso, eu sou pré-candidata à reeleição deste ano.