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Outsiders nas urnas o troca de elites?

Empresários, influenciadores digitais, policiais e celebridades passaram a ocupar espaço cada vez maior nas disputas eleitorais

A ideia de renovação política vem ganhando força em eleições pelo mundo. Para parte do eleitorado, a chegada de novos nomes representa a possibilidade de mudança diante da desconfiança nas instituições políticas tradicionais. Nesse cenário, empresários, influenciadores digitais, comunicadores, policiais e celebridades passaram a ocupar espaço cada vez maior nas disputas eleitorais, impulsionando o fenômeno dos chamados “outsiders” — candidatos que se apresentam como figuras “de fora” da política tradicional. 

Nos Estados Unidos, o empresário e ex-apresentador de televisão Donald Trump venceu as eleições presidenciais de 2016 com um discurso antissistema e contrário às elites políticas tradicionais. Na Ucrânia, o ator Volodymyr Zelenskyy chegou à presidência após ganhar fama interpretando um presidente fictício em uma série de televisão. Já na Itália, o humorista Beppe Grillo liderou o movimento político Movimento 5 Stelle, baseado na crítica aos partidos tradicionais. 

Embora o termo “outsider” tenha sido importado do inglês e popularizado pela imprensa para definir candidatos que se apresentam como “fora da política tradicional”, pesquisadores apontam que o conceito ainda não possui uma definição oficial ou consensual na Ciência Política brasileira. Estudos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) afirmam que a expressão é usada de maneira ampla e muitas vezes imprecisa, reunindo desde empresários e celebridades até políticos experientes que apenas adotam um discurso antissistema. Para a cientista política Roberta Picussa, o outsider é “um conceito em construção”, marcado mais pela imagem pública de renovação do que necessariamente pela ausência de trajetória política. 

Crise de confiança 

No Brasil, Associação Brasileira de Ciência Política defende a ideia de que o crescimento dessas candidaturas está ligado à crise de confiança nas instituições, intensificada após as manifestações de 2013 e os escândalos de corrupção da última década. Ao mesmo tempo, o avanço das redes sociais ampliou a capacidade de comunicação direta entre candidatos e eleitores, favorecendo figuras públicas já conhecidas no ambiente digital. 

Estudos recentes do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem) mostram que os chamados “outsiders” brasileiros são bastante heterogêneos, mas têm em comum o discurso anti-establishment e a pouca ligação com partidos tradicionais. Uma pesquisa que analisou candidaturas presidenciais entre 2002 e 2022 identificou que muitos desses candidatos surgem em momentos de desgaste institucional e polarização política, utilizando capital midiático, empresarial ou digital para conquistar eleitores desiludidos com a política tradicional. 

Para o professor de Ciências Políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Fabiano Engelmann, no entanto, o fenômeno outsider não representa uma ruptura inédita na política brasileira. “Essas candidaturas não representam nenhuma renovação política, só a repetição do que sempre ocorre nas eleições”, afirma. Segundo ele, o diferencial atual está no uso estratégico das redes sociais, que ampliaram o alcance de candidatos que se apresentam como “antissistema”, e buscam aproximação com eleitores sem forte identificação partidária. 

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que empresários continuam entre os grupos mais presentes nas eleições brasileiras. Nas eleições municipais de 2024, mais de 34 mil candidatos declararam a profissão de empresário, o equivalente a 7,6% das candidaturas registradas no país. Entre os prefeitos eleitos no primeiro turno, empresários representaram quase 15% dos vencedores, ficando atrás apenas dos políticos que já ocupavam cargos públicos. 

Além disso, de acordo com o TSE, candidaturas ligadas às forças de segurança também cresceram nos últimos anos. Em comparação com 2018, houve aumento de 27% nas candidaturas de profissionais da segurança pública. Foi a primeira vez, desde o início do registro de profissões em 1998, que policiais militares passaram a figurar entre as ocupações mais frequentes entre candidatos. Para Engelmann, esse crescimento revela a centralidade da segurança pública no debate político brasileiro, especialmente entre eleitores mais afetados pela violência cotidiana. 

Grupos privilegiados 

Apesar do discurso de renovação, especialistas afirmam que muitos outsiders continuam pertencendo a grupos privilegiados. Em vez de políticos tradicionais, entram em cena empresários, influenciadores, apresentadores de televisão e figuras públicas com forte capital econômico, midiático ou digital. Assim, embora exista mudança nos perfis dos candidatos, o acesso ao poder continua concentrado em pessoas que já possuem visibilidade, recursos financeiros ou influência social. Um candidato pode ser considerado “novo” em determinado cargo mesmo já tendo ocupado funções públicas anteriormente, como vereador, prefeito ou deputado. Nesse contexto, o conceito de outsider muitas vezes funciona mais como estratégia de comunicação do que como transformação efetiva das estruturas políticas. 

Na avaliação de Engelmann, o discurso antissistema tende a enfraquecer quando esses candidatos chegam ao poder. “Ou ele joga o jogo ou desaparece”, resume o cientista político ao explicar que, para governar e aprovar mudanças, é necessário negociar com partidos, formar alianças e unir forças políticas já estabelecidas. 

O avanço dessas candidaturas levanta questionamentos sobre os rumos da democracia brasileira. Embora a presença de novos atores possa indicar maior abertura do sistema político, especialistas alertam que a troca de figuras tradicionais por novos rostos não garante, necessariamente, mudanças profundas nas estruturas de poder existentes. 

*Foto: Isac Nobrega/Presidência da República

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