Sobre a tradicional loja Salem, na avenida Protásio Alves, a mais extensa de Porto Alegre, vive, há décadas, um grande conhecido da população gaúcha. Ex-governador e ex-senador da República, Pedro Simon aguardava a entrevista em sua poltrona bege, acompanhando as últimas notícias da política brasileira na televisão, antenado na GloboNews.
A sala onde estava reúne sinais de diferentes momentos da vida do ex-governador. Sobre a mesa de centro, um pequeno sino utilizado para chamar a cuidadora permanece ao alcance da mão. Nas paredes, quadros, pinturas e lembranças acumuladas ao longo de décadas de vida pública dividem espaço com estatuetas e objetos decorativos. No sofá ao fundo, um gato acompanha a movimentação da casa com a tranquilidade de quem parece ocupar aquele espaço com tanto pertencimento quanto o próprio morador.
Aos 96 anos, Simon utiliza uma cadeira de rodas para se locomover e já não mantém a rotina intensa de compromissos públicos que marcou boa parte de sua trajetória. Ainda assim, continua por dentro dos movimentos políticos do Rio Grande do Sul e do Brasil. É isso que ocupa boa parte de seus pensamentos e de suas respostas. Principalmente, sendo este um ano eleitoral.
Espontaneamente, em diversos momentos da entrevista, Simon retornou ao mesmo assunto – eleições – como se, mesmo afastado do palanque, a política seguisse viva no sangue do caxiense, que nasceu em 1930.
Quando Simon nasceu, Getúlio Vargas ainda governava o Rio Grande do Sul. Ao longo da vida, testemunhou o Estado Novo, a redemocratização de 1945, o suicídio de Vargas, a ascensão de João Goulart, com quem diz ter tido “uma boa convivência”, o golpe militar de 1964, a Constituinte de 1988 e a consolidação da Nova República. Poucos políticos brasileiros atravessaram tantos capítulos da história nacional ocupando posições de protagonismo.
Entre os nomes citados pelo ex-governador nos mais de 40 minutos de conversa, nenhum apareceu tantas vezes quanto o do atual vice-governador do Estado, Gabriel Souza, de 42 anos, pré-candidato do MDB ao Palácio Piratini. Simon o definiu como “um gurizinho, mas competente, capaz e responsável”, demonstrando plena confiança em sua candidatura. Mais do que uma preferência eleitoral, o apoio parece refletir uma preocupação mais ampla com os rumos do partido ao qual dedicou praticamente toda a sua vida pública.
Simon demonstra acompanhar atentamente a construção da candidatura emedebista. “Eu tenho conversado com ele, com a equipe dele. Tenho ajudado um pouco. Tenho trazido apoio para ele. Acho que ele vai fazer uma bonita campanha”, afirma.

A relação de Simon com o MDB ultrapassa uma simples filiação partidária e se confunde com a própria história da legenda e da redemocratização do Brasil. Vereador de Caxias do Sul e deputado estadual pelo PTB, entrou para o MDB com a implantação do bipartidarismo, por meio do Ato Institucional 2, de 1965. Depois disso, foi senador por quatro mandatos, ministro da Agricultura no governo de José Sarney e governador do Rio Grande do Sul, integrando a geração que transformou o MDB no principal partido de oposição ao regime militar.
Ao recordar este período sombrio da história brasileira, Simon demonstra um sentimento que mistura orgulho e responsabilidade histórica. Para ele, a principal conquista de sua geração política não foi uma eleição ou um governo, mas a resistência ao regime militar e a reconstrução das instituições democráticas. “O MDB derrubou essa ditadura. Nós, do MDB, derrubamos a ditadura”, afirma. Em seguida, relembra a eleição da Assembleia Nacional Constituinte e a elaboração da Constituição de 1988, que considera uma das grandes realizações daquele período.
“Fizemos uma Constituição muito boa, muito boa. E atravessamos uma fase dura. Terminamos com a tortura”, diz. Simon descreve aqueles anos como “talvez as fases mais tristes da história do Brasil”, marcadas por perseguições, conflitos e sucessivas crises políticas.
Ainda assim, avalia que a resistência do MDB foi decisiva para a redemocratização do país. “A história do MDB é uma história bonita. É uma história de luta, é uma história de resistência. O MDB foi o partido que resistiu à ditadura. E nós resistimos até hoje”, fala.
“Nós resistimos”, “nós lutamos”, “nós reconstruímos”. O pronome aparece repetidamente, como se ainda estivesse sentado nas reuniões partidárias que ajudaram a organizar a oposição ao regime militar.
Ao conectar passado e presente, Simon demonstra enxergar a política atual a partir dessa experiência histórica. Por isso, ao final da reflexão, volta ao tema que atravessa toda a conversa: a defesa da normalidade democrática. “Acho que, se Deus quiser, nós vamos ter uma boa eleição. Se Deus quiser, o período que vem é um período de normalidade.”
Católico e devoto de São Francisco de Assis, como quem cita Deus em diversos momentos, Simon relembra os companheiros de caminhada daquela época. Os nomes surgem rapidamente: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Miguel Arraes, Franco Montoro e Mário Covas aparecem, mais de uma vez, como referências políticas e de amizade. Simon é um dos poucos remanescentes daquele grupo que ainda acompanha ativamente o debate público.
Entre os políticos gaúchos, a trajetória de Simon costuma ser lembrada tanto por aliados quanto por adversários. Ex-governador do Estado e um dos principais nomes do MDB gaúcho nas últimas décadas, Germano Rigotto, pré-candidato ao Senado, afirma que sua própria trajetória política foi construída sob influência direta de Simon.
“O Simon sempre foi uma espécie de guia, um orientador, um conselheiro, uma pessoa que sempre me incentivou muito”, afirma. Rigotto lembra que, desde os tempos em que iniciou sua vida pública como vereador em Caxias do Sul, encontrava em Simon uma referência política e pessoal. “Foi sempre um homem verdadeiro, corajoso, digno e ético”, diz.
Para Rigotto, a principal marca deixada por Simon foi a coerência. “Ele sempre teve posições muito firmes. Podia contrariar interesses de setores do próprio partido, mas mantinha aquilo que acreditava. Por isso foi um grande líder e um farol dentro do MDB.”

A memória do ex-governador impressiona. Mesmo quando algumas datas se confundem, os personagens permanecem vivos. O mesmo ocorre ao falar dos adversários. Leonel Brizola, o maior deles. “O Brizola foi um grande adversário. Fez muita coisa errada que nos atrapalhou”, comenta, afirmando que não combateu ninguém por ser “um homem de paz e de diálogo”.
Novamente, retoma: “E acho que, graças a Deus, essa fase – de combates políticos – está passando. Essa vai ser uma eleição normal. Quem ganha, ganha. Terá uma posse tranquila, não terão radicalizações. E, se isso acontecer, nós estamos no caminho certo. No caminho da normalidade democrática.”
Ex-governador e histórico dirigente do PT gaúcho, Tarso Genro foi adversário político do emedebista durante décadas, mas guarda lembranças positivas da convivência entre ambos. “Era uma figura de extraordinário relevo para a convocação da Assembleia Nacional Constituinte”, afirma. “Conversava, discutia, debatia e às vezes se opunha, mas sempre de uma maneira respeitosa e altiva”, complementa o petista.
Tarso recorda especialmente um episódio ocorrido durante a gestão de Olívio Dutra na prefeitura de Porto Alegre, quando era vice-prefeito. Segundo ele, uma importante intervenção no sistema de transporte coletivo da capital só foi possível graças ao apoio do então governador Pedro Simon. “Ele me perguntou se tínhamos certeza do que estávamos fazendo. Quando respondi que sim, determinou o apoio da Brigada Militar. Aquilo foi decisivo para o sucesso da operação”, relembra.
Tarso ressalta que a relação entre ambos passou por divergências importantes nos últimos anos, especialmente após a aproximação de Simon com setores da direita brasileira. Ainda assim, considera que esse período não apaga a relevância histórica do ex-governador na luta pela redemocratização e que será “julgado pela história”.
A permanência no mesmo endereço durante décadas, enquanto oportunidades de se mudar, inclusive para o Palácio Piratini, surgiam, também ajuda a explicar parte de sua imagem pública.
Simon chegou à região da Protásio Alves ainda jovem e acompanhou a transformação do bairro. Recorda o período em que a rua João Abbott concentrava a vida comercial da região, a chegada dos bondes, o antigo Cinema Ritz e o crescimento gradual da avenida, que se tornaria uma das principais vias da cidade.
Ao contrário de muitos políticos que se afastaram fisicamente dos espaços onde construíram suas carreiras, Simon permaneceu no mesmo lugar. O apartamento da Protásio Alves continuou sendo sua referência.

Essa permanência contribuiu para consolidar uma característica frequentemente associada à sua imagem pública: a proximidade ao povo. Simon costuma dizer que nunca viveu separado das pessoas comuns do bairro. Ao falar sobre sua relação com os moradores da região, não utiliza a linguagem de quem observa a comunidade à distância. Fala como alguém que se considera parte dela.
Hoje, a movimentação é menor. A cadeira de rodas impõe limitações. As reuniões são menos frequentes do que no passado. Ainda assim, a política continua entrando diariamente pela porta do apartamento. Lideranças partidárias, amigos, familiares e antigos companheiros de trajetória seguem visitando o ex-governador.
Ao longo da conversa, Simon também fala sobre a família. Recorda a morte do filho Matheus, aos dez anos de idade, em 1984, durante uma viagem para Rainha do Mar, no litoral gaúcho. Anos depois, em 2021, perderia também outro filho, Tomaz, vítima de um infarto fulminante em um supermercado de Porto Alegre.
As lembranças surgem e os olhos parecem marejados, revelando uma dimensão pouco conhecida de uma figura geralmente associada aos embates da vida pública. Quando menciona os filhos, os netos e a esposa Ivete, o tom da conversa muda. A política deixa de ocupar o centro da narrativa e dá lugar às relações familiares construídas ao longo de décadas.
Ivete entrou na vida de Pedro Simon em 1987, justamente no período em que ele ocupava o Palácio Piratini. A aproximação aconteceu por intermédio de uma sobrinha do então governador. Quase quatro décadas depois, ela ainda descreve a convivência com entusiasmo.
Segundo Ivete, a rotina ao lado de Simon nunca foi marcada pela monotonia. Aos 96 anos, ele continua acompanhando atentamente a política, lendo jornais, assistindo aos noticiários e mantendo contato frequente com lideranças e amigos. O interesse pelos assuntos públicos permanece presente, mas divide espaço com outra característica que ela destaca: o gosto pela convivência.
Reuniões familiares, almoços e jantares com amigos seguem fazendo parte da vida do ex-governador. “Casa cheia é a alegria dele”, resume. A frase ajuda a revelar um traço menos visível para quem conhece apenas o político que passou décadas nos plenários, nos palanques e nos gabinetes.
Entre as lembranças compartilhadas pelo casal, nenhuma ocupa um lugar tão especial quanto o nascimento de Pedro, o Pedrinho, hoje com 32 anos. É a memória afetiva que Ivete escolhe para resumir uma trajetória construída ao longo de 39 anos juntos. Simon completa dizendo que o filho do casal “é um baita de um cara.”
Aos 96 anos, Pedro Simon já não participa diretamente das campanhas como em outros tempos. Mas continua observando a política com atenção. Depois de atravessar a ditadura, a redemocratização, sucessivas crises institucionais e mudanças profundas no sistema partidário brasileiro, mantém uma preocupação que atravessa toda a sua trajetória: a preservação da democracia.
O tema da velhice surge naturalmente ao longo da conversa. Simon fala da cadeira de rodas, das limitações físicas e das transformações que acompanhou ao longo de quase um século. Em determinado momento, resume essa percepção numa frase simples: “A vida é impressionante. Como o tempo passa.”

Um excelente comentário de uma pessoa que foi sempre muito correta em todas as manifestações.