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Entre livros e histórias: a trajetória de Vera Hoffmann

Da contabilidade à contação de histórias, Vera Hoffmann transformou a paixão pelas histórias em um projeto de incentivo à leitura e descobriu, na literatura, o lugar onde sempre pertenceu.

Aos 74 anos, a pedagoga, escritora e contadora de histórias Vera Hoffmann relata que percorreu uma trajetória marcada por experiências que a levaram por diferentes caminhos antes de encontrar seu lugar entre as histórias e livros.

Fruto de uma família que sempre valorizou muito os estudos, ela não pôde ingressar imediatamente na escola por exigências de idade mínima na época. Para que não ficasse atrasada comparada às outras crianças, os pais decidiram alfabetizá-la em casa.

Quando chegou à escola, já sabia ler, impressionando a professora e a direção. Vera relembra o episódio como um exemplo da importância de valorizar o que as crianças aprendem antes mesmo de iniciar os estudos. Para ela, cada criança chega à sala de aula trazendo conhecimentos que merecem ser reconhecidos e estimulados.

Vera cresceu encantada pelas histórias contadas pelo avô, ele estava sempre com um livro nas mãos. “Eu achava que era dali que ele tirava as histórias. Tinha histórias que ele contava trocentas vezes e eu queria sempre ouvir mais”, recorda.

As noites em família eram marcadas por momentos ao redor da mesa, ouvindo contos que prendiam a atenção de todos. “Era bem comum a gente ficar depois da janta ao redor da mesa e ouvir várias histórias. Inclusive histórias de assombração. Depois eu morria de medo, mas não queria perder nenhuma”, conta, atribuindo à família o estímulo de seu interesse pelas narrativas.

Apesar disso, quando chegou o momento de escolher uma profissão, ouviu do pai um conselho que a afastou temporariamente do seu verdadeiro sonho. Em uma época em que ensinar era uma carreira pouco valorizada, ele insistiu para que a filha seguisse outro caminho. Tornou-se contadora, trabalhou na área, mas nunca se encontrou naquela profissão. “Não tinha nada a ver comigo”, relembra. A mudança veio apenas aos 40 anos. Com três filhas e uma vida já construída, decidiu voltar a estudar e ingressar na Pedagogia.

Nas salas de aula, encontrou seu lugar, trabalhando principalmente com alfabetização, transformava a hora da história em um momento para despertar o prazer pela leitura.

Em 2007, começou a trabalhar na biblioteca de uma escola em uma comunidade com muitas dificuldades sociais e percebeu que poderia fazer mais para incentivar a leitura. Foi então que criou o projeto Sacola Ambulante. A ideia era levar livros para a casa das crianças e aproximar as famílias do hábito de ler. Com doações, campanhas e muita dedicação, ela organizou sacolas com livros, revistas, jornais e poesias, que eram emprestadas e circulavam pela comunidade.

O projeto começou a chamar atenção e ganhou destaque. Uma reportagem exibida pelo SBT mostrou os resultados da iniciativa e ajudou a levar o trabalho de Vera para ainda mais pessoas. Ao mesmo tempo, ela passou a investir cada vez mais na contação de histórias, participando de cursos, oficinas e festivais. No início, para vencer a timidez, usava fantasias e interpretava personagens. Com o passar do tempo, descobriu que seu maior talento não estava nos figurinos, mas na forma como contava suas histórias.

Um dos momentos decisivos de sua trajetória aconteceu em 2017, durante um festival de contadores de histórias em Balneário Camboriú. O encontro lhe apresentou profissionais de diferentes regiões do país e abriu portas para novos festivais, apresentações e experiências. Ali, ela compreendeu que sua voz também tinha lugar naquele universo.

O colega de profissão e revisor de textos de Vera, Elenilto Saldanha destaca a qualidade da autora: “Não poderia ser uma experiência melhor. A escrita da Vera é excelente. Chama a atenção a qualidade, a delicadeza e a sensibilidade da sua escrita.”

“A Vera é uma joia rara no mundo dos livros. Além de talentosa, é muito dinâmica, gentil e solidária. Reconhece e valoriza o trabalho dos colegas, estabelece pontes e parcerias. Tanto agradece quanto prestigia com alegria e sinceridade. É uma grande mulher e uma querida amiga. A Vera é uma pessoa que ilumina o mundo, que semeia o bem com o coração aberto e, por isso, colhe e compartilha bons frutos”, destaca.

Mas falar de Vera Hoffmann apenas como professora, escritora e contadora de histórias seria contar só uma parte de quem ela é. Por trás da profissional reconhecida existe uma mulher que sempre foi muito tímida e, aos poucos, descobriu que não precisava se esconder atrás de fantasias.

Vera Hoffmann, aos 74 anos, com boneca de história autoral “A Lagoa Encantada” / Imagem: Lara Zarth

Mãe de três filhas e avó de quatro netos, celebra cada conquista cercada pelo apoio daqueles que acompanham sua trajetória de perto. A professora e amiga Angela Dillenburg, que a conheceu durante os anos que trabalharam juntas no Colégio Sinodal, conta que a dedicação à família sempre fez parte da sua vida. Segundo ela, Vera sempre foi uma mãe e avó muito presente, com um jeito peculiar de educar as filhas. Para Angela, esse cuidado pode ser visto na trajetória das filhas, que seguiram seus próprios caminhos e se realizaram tanto na vida profissional quanto na familiar.

Mesmo após Vera deixar a escola para atuar na rede municipal de São Leopoldo, a amizade entre as duas permaneceu. Angela foi professora de piano de uma das filhas de Vera e chegou a tocar teclado no casamento de outra. Com o passar dos anos, elas voltaram a se encontrar em eventos ligados à educação. “Sempre que nos reencontramos parece que nunca nos separamos”, conta.

Para Angela, a capacidade de ouvir as pessoas é uma das características mais marcantes da amiga. “Em cada história de vida contada por nós, há uma ouvinte atenta, captando”, relata.

Suas histórias são muito mais do que um trabalho para ela. Fazem parte da sua vida e da forma como ela se relaciona com as pessoas. Talvez seja por isso que tanta gente se identifica com o que ela faz. Antes de ser escritora, professora e contadora de histórias, Vera é alguém que aprendeu desde pequena a ouvir, guardar lembranças e compartilhar histórias que continuam vivas na memória de quem as escuta.

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