Até onde vai o limite entre a informação e a estratégia na comunicação pública? Para debater o lado jornalístico da assessoria de imprensa política, conversamos com a estudante de Jornalismo, Pâmela Atkinson, de 31 anos.
Pâmela esteve recentemente no centro de um dos cenários mais complexos da região: comandou a comunicação e garantiu a eleição de Fábio Bernardo (PT), o primeiro vereador assumidamente gay da história de São Leopoldo, uma cidade atualmente governada pela extrema-direita. Nesta entrevista, além dos bastidores da campanha, ela analisa os desafios gerais da profissão, o combate à desinformação no dia a dia dos mandatos e como o faro jornalístico é fundamental para aproximar a política real do cidadão.
Como surgiu o seu interesse pelo jornalismo político e pela assessoria de imprensa?
Acho que acabou sendo um caminho natural. Escolhi o jornalismo ainda adolescente e o interesse pela política esteve presente desde cedo também. Tive ajuda do destino e me apaixonei por trabalhar com isso pelo caminho. Começando com estágios e agora estando diretamente como assessora de imprensa do mandato de um vereador.
Qual é o maior desafio em traduzir o “politiquês” dos bastidores para uma linguagem acessível ao cidadão comum?
Acho que o maior desafio é resumir as informações. Pegar um relatório, por exemplo, e tirar aquilo que é mais importante nele, o que é significativo para a vida das pessoas, e explanar. Lidamos com muitos documentos longos, com explicações jurídicas e em linguagem culta e formal. O desafio é transformar esses textos que, pelo rigor da língua, excluem, e transformar em uma linguagem que inclua. Que faça todas as pessoas, independentemente de classe, território ou escolaridade, entenderem e se verem naquela política, como ela afeta diretamente sua vida.
Como a sua formação em jornalismo ajuda a equilibrar o lado institucional do mandato com o interesse público?
O imediatismo sempre fica para depois. Tudo acontece muito rápido e ao mesmo tempo e ainda existe uma pressão para se estar acompanhando e se manifestando sobre os diversos assuntos que tangem a sociedade. E é natural que seja assim, mas o compromisso com a informação completa e verdadeira vem sempre antes. Toda informação é verificada com cautela antes de qualquer coisa.
Qual foi a maior virada de chave ou o momento mais crítico durante a campanha eleitoral do Fabio?
Os últimos dias de campanha foram os mais tensos. É a reta final, então tudo precisa funcionar: revimos métricas e estratégias para os últimos conteúdos e agendas. É um período de ansiedade, então é preciso dosar todos esses sentimentos, e essa é a parte mais difícil.
No cenário político atual, qual o peso real das redes sociais em comparação com o corpo a corpo tradicional nas ruas?
Quando falamos em mandatos municipais, creio que as redes sociais são quase tão importantes quanto, mas não superam o contato direto com a comunidade. As pessoas buscam na política quem ouça e acolha suas demandas. Uma resposta no direct não tem o mesmo impacto na relação com o cidadão do que uma visita aos bairros, por exemplo.
Agora pensando em mandatos estaduais ou federais, as redes impactam tanto quanto ou ainda mais na relação com o eleitor.
Qual foi a principal estratégia de comunicação que vocês adotaram para garantir a vitória nas urnas?
Desde o início o principal ponto foi manter toda a comunicação de campanha alinhada com quem o Fábio é no dia a dia. Sem seguir roteiros ou fórmulas mágicas, entregamos a humanidade dele. Fábio é assistente social, trabalha em uma rede da assistência há mais de 36 anos e tem um forte trabalho construído ao lado das organizações da sociedade civil de proteção à infância e juventude.
O ambiente político costuma ser muito rígido, engessado. Fomos por outro caminho: mostrando a coletividade do mandato, uma política que não precisa ser “de guerra” para ser combativa.
Como funciona a rotina diária de uma assessoria de imprensa dentro da Câmara de Vereadores?
É uma rotina muito dinâmica. Os dias de sessões ordinárias e plenárias são voltados para isso. É quando as comissões da Casa se reúnem para a discussão dos projetos em tramitação. A bancada do partido também se encontra sempre nestes dias para debater estratégias e analisar as tramitações na Câmara. Nos demais dias ficam as agendas externas: reuniões, visitas, fiscalizações, entrevistas… Entre as agendas, fica a administração de textos, envios à imprensa, criação de conteúdo e gerenciamento de redes sociais.
Qual é o limite entre defender a imagem pública do vereador e manter a transparência das ações do mandato?
São duas coisas que precisam andar juntas. Particularmente, eu não vejo outra forma de defender a imagem pública do vereador senão com transparência nas ações do mandato. Essa é uma parte fundamental da relação com o cidadão.
Como você lida com o gerenciamento de crises e notícias negativas que possam afetar o parlamentar?
Os momentos mais graves que tivemos foram de ataques homofóbicos nas redes do vereador. Os processos tramitam na Justiça.
Mas, fora esses casos criminosos, os ataques costumam seguir um script: são sempre ideológicos. Nestes casos a estratégia é sempre buscar o diálogo em primeiro lugar. São comentários carregados de desinformação, de preconceitos e desconhecimentos. O primeiro passo é sempre argumentar trazendo a verdade.

De que forma o gabinete constrói o relacionamento com a imprensa local para emplacar as pautas do mandato?
Quando iniciamos o mandato, eu tinha pouquíssimo contato com a imprensa e, pessoalmente, foi uma barreira difícil de transpor. O jeito foi “ser caruda”. Chegar nos lugares, identificar os repórteres, me apresentar e pegar o contato. Essa, para mim, foi a parte mais difícil. Com o tempo, se vai conquistando esses espaços para o mandato.
Que conselho você daria para os estudantes de jornalismo que pretendem ingressar na área de assessoria política hoje?
A gente não auxilia na construção política de hoje sem olhar para o ontem. Conhecer a história, o passado, buscar entender como a gente chegou nas conjunturas atuais é muito importante para construir uma assessoria política com compromisso real.
Como é a dinâmica de construir a imagem de um mandato do PT em São Leopoldo sabendo que a prefeitura hoje é gerida por um governo de extrema-direita?
Construímos uma oposição firme e responsável, mas é um desafio diário. A extrema-direita tenta apagar o passado e quando é cobrada por suas responsabilidades no presente se esconde atrás dos discursos ideológicos.
Historicamente, o PT teve muito protagonismo na cidade. Como a comunicação se adapta para deixar de ser a voz do governo e passar a ser a voz da oposição?
Esse foi um processo que fomos aprendendo ao longo do caminho. Existe a ideia de que ser de oposição é mais fácil, mas isso não existe. A oposição precisa ser feita com muita responsabilidade. Todos os quatro vereadores do partido na Câmara já foram secretários no governo Ary Vanazzi, o que os dá experiência para fazer as cobranças e enfrentamentos necessários de forma técnica. Ao longo do mandato, vamos encontrando e ajustando o tom. A Câmara é um lugar de muitos embates que devem ser feitos com firmeza, mas sempre com o compromisso de defender.
Estamos num momento desgastante, em que tudo vira uma “disputa de narrativas”, então é importante cobrar sem fazer a espetacularização da pauta.
De que forma a polarização ideológica nacional respinga no debate público municipal e nas demandas locais que chegam ao gabinete?
Todo assunto que é polêmico em nível nacional chega no debate municipal. Infelizmente, muitas vezes ele vira apenas disputa ideológica, então é difícil avançar. Nestes momentos, trabalhamos principalmente no combate à desinformação. Como quando atacam programas de transferência de renda como o Bolsa Família, uma política de suma importância no município, que atende a milhares de famílias.
O debate político atual costuma ser muito à flor da pele. Qual é a estratégia para blindar o vereador de ataques ideológicos vazios e focar o debate na prestação de serviços da cidade?
Com o Fábio isso é muito tranquilo, ele tem muita responsabilidade com o debate político e não cai nas armadilhas para tirar o foco dos problemas da cidade.
Normalmente, quando há maior cobrança ao governo, os ataques ideológicos se intensificam. Quando o discurso vazio chega, a estratégia é sempre trazer dados e informações. Sem pessoalizar ou atacar, como é o que esperam, justamente para tirar o foco das pautas do município, dos problemas que precisam ser debatidos e solucionados.
