Vídeos que associam sintomas do cotidiano a possíveis transtornos mentais e prometem respostas rápidas para quem se identifica com eles vêm se popularizando nos últimos anos. O conteúdo, muitas vezes produzido por pessoas sem formação na área e visando apenas o engajamento, pode influenciar a maneira como o público interpreta o próprio comportamento. Uma pesquisa do Instituto Cactus aponta que 45% dos brasileiros relatam sentir que as plataformas digitais impactam negativamente seu bem-estar mental e psicológico, sendo os jovens de 16 a 24 anos o grupo que mais percebe esse impacto.
Para entender os riscos do autodiagnóstico e a maneira correta de buscar uma avaliação profissional, a Beta Redação entrevistou a psicóloga Carolina Fleck. Formada em Psicologia pela Unisinos em 2008, possui especialização em Avaliação Psicológica, Neuropsicologia e Educação Inclusiva e Especial. Com experiência em atendimento clínico e, nos últimos anos, também em avaliações psicológicas e neuropsicológicas, Carolina acompanha de perto situações em que pacientes buscam uma avaliação profissional já acreditando possuir algum transtorno, muitas vezes influenciados por conteúdos encontrados nas redes sociais ou por ferramentas de inteligência artificial.
Confira os principais trechos da entrevista:
O que é o autodiagnóstico?
Geralmente é quando a pessoa conclui que possui um transtorno, a partir de sintomas ou informações que encontrou em algum lugar. Hoje isso acontece muito nas redes sociais, sem uma avaliação profissional. Nós podemos apresentar sintomas durante a vida, mas nem sempre podemos dizer: “Eu tenho falta de atenção, então eu tenho TDAH”. Não podemos afirmar isso sem uma avaliação.
E qual é o papel das redes sociais na popularização do autodiagnóstico?
As redes sociais ajudam bastante nisso. Existe um ponto positivo: a gente pode se informar, tirar dúvidas. Mas a gente vê também essa disseminação do “eu tenho isso”. Principalmente na infância, a gente está vendo muito TDAH e autismo. As pessoas acabam se identificando com determinados sintomas e pensando: “Meu filho tem”. Muitas vezes já chegam ao consultório dizendo isso. Mas aí eu pergunto: tem um laudo? Houve toda uma avaliação? Foram feitos testes? Muitas vezes não existe isso. É “porque eu vi”, “porque eu achei”, “porque tal influenciadora disse que poderia ser”. Então, não é que as redes sociais sejam ruins. Elas facilitam o acesso a esses sintomas e informações.
Qual é o papel dos influenciadores nas redes sociais e como consumir esse conteúdo de maneira responsável?
Acho que, se fosse somente para relatar a própria experiência de vida e informar, tudo bem. Mas muitas vezes existe uma indução para um diagnóstico. Esse é o problema. Se fosse algo mais informativo, que ajudasse e orientasse a procurar um profissional e buscar uma avaliação, não vejo problema. O problema é quando essa exposição já vai conduzindo para um diagnóstico. Aí deixa de ser simplesmente uma informação. Quando tu vai consumir, pesquisa aquela pessoa que está falando. Veja se ela tem formação, se ela realmente pode estar falando sobre aquilo. Acho que isso ajuda a evitar tanta desinformação e esse excesso de informação, que muitas vezes é enviesada.
Como você lida quando um paciente chega ao consultório já acreditando que possui determinado transtorno?
O que eu costumo fazer é orientar e explicar como é feito um diagnóstico, quais profissionais estão aptos a realizar isso e o que esse processo envolve. Muitas vezes, no caso de TDAH e autismo, tem que haver uma bateria de testes. São cerca de oito sessões. Depois, existem outros procedimentos: conversar com pai e mãe, falar com a escola.
Quais são os principais riscos de alguém se autodiagnosticar?
O maior risco que eu vejo é a pessoa interpretar tudo sozinha, sem passar por um profissional e sem ir atrás de ajuda. Inclusive, tive um caso em que a pessoa se diagnosticou sozinha e pesquisou até a medicação. Ela inclusive encontrou uma farmácia que vendia sem receita. Não acho que isso seja muito comum, mas esse é um risco muito alto: a pessoa se automedicar.
É possível que o autodiagnóstico possa ser uma espécie de fuga ou talvez uma forma da pessoa justificar uma dificuldade que ela possui? Você percebe isso entre os jovens?
Sim. Acho que até a busca por laudos cresceu bastante. Às vezes o diagnóstico se torna uma justificativa também para não enfrentar o problema de frente. Acho que isso tem bastante relação principalmente com adolescentes e jovens adultos. Tive alguns exemplos em que eles vêm por conta própria porque acham que têm algum transtorno. Por exemplo: “Eu acho que tenho autismo porque não gosto muito de sair de casa, porque não gosto muito de interagir com muita gente”. Mas, fazendo os testes e conversando nas oito sessões, a gente percebe que não. Às vezes é uma característica da própria pessoa, não um transtorno, nem uma dificuldade que esteja trazendo prejuízos.
Como funciona uma avaliação psicológica ou neuropsicológica e o que acontece quando o paciente não concorda com o resultado?
Às vezes eles contestam. Teve uma menina de 24 anos que acreditava ser autista. Conversei com ela e expliquei que não. Ela quis marcar outra sessão para questionar mais alguns pontos. O que eu costumo fazer é explicar o passo a passo da testagem, tirar as dúvidas e dizer: “Se tu ainda tem essa dúvida, agenda novamente com outro profissional, com o médico ou com o neurologista”. O laudo tem mais ou menos de 15 a 20 páginas. A gente utiliza vários testes; eu aplico cerca de 10 a 12. A gente mensura atenção, personalidade, sintomas de depressão e ansiedade, inteligência. Então não é simplesmente “o que eu achei”. Existem resultados nos testes.
Qual é a diferença entre ter sintomas e realmente ter um diagnóstico? A pessoa pode ter muitos sintomas e não necessariamente ter um transtorno?
Sim. A gente utiliza o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) como uma referência. Mas acho que o principal é quando existe prejuízo e sofrimento. Quando aquilo compromete a vida e o dia a dia da pessoa. O transtorno envolve isso: um prejuízo, um comprometimento e sofrimento para aquela pessoa. Já um sintoma é algo que a gente pode apresentar ao longo da vida e que não necessariamente perdura por tanto tempo. Você pode estar em um momento de maior ansiedade, pode passar por momentos de tristeza ou não conseguir se concentrar porque está vivendo uma situação de estresse. Então é isso: o sofrimento e o prejuízo são fundamentais para avaliar a existência de um transtorno.
Que mensagem você daria para alguém que está passando por essa dúvida ou que talvez já tenha se autodiagnosticado?
Eu diria que se informar sobre o transtorno e sobre os possíveis déficits cognitivos é sempre muito importante e válido. Só que a gente precisa cuidar para não confundir a identificação e o conhecimento sobre esses transtornos e sintomas com o diagnóstico. Redes sociais e inteligência artificial podem ser muito benéficas para a informação. Mas, quando existe sofrimento e prejuízo, é preciso buscar um profissional, porque o diagnóstico é do profissional, do psicólogo. E lembrar que cada caso é um caso.
