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“O artista precisa refletir sobre o seu tempo”: os afluentes artísticos de Carlos Rasch

O cantor e ator mistura ativismo regional e musicalidade em sua produção artística

No domingo de 27 de junho, a equipe do Movimento Roessler de preservação ambiental reuniu integrantes e convidados em um piquenique de celebração aos seus 48 anos no Parcão. É neste tipo de evento que podemos encontrar Carlos Rasch, que integra o grupo. O ativismo é apenas uma parte da sua identidade, que se mistura com a sua vertente artística. Carlos entende a importância de cada um destes elementos que habitam dentro de si, e sabe que, ao reunir os dois, consegue aproveitar o melhor de suas duas paixões.

As primeiras notas

Mas nenhuma dessas paixões é recente. Ambas já existiam, apenas floresceram com o tempo. Carlos toca violão desde os oito anos. Depois das aulas de música, começou a tocar na igreja, até ficar fascinado por mais uma face da arte: o teatro. Essa paixão o levou a um bacharelado em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e, mais tarde, o levou aos trabalhos com a companhia de teatro Luz & Cena.

O trabalho artístico, porém, só adicionava mais perguntas à mente de Carlos. As paredes do teatro não pareciam ser suficientes, ele queria descobrir como realmente viviam as pessoas que o assistiam. Mas, principalmente, queria conhecer quem nunca viu suas peças. Por isso, decidiu realizar um mochilão pelo Brasil.

As passagens dos rios

Carlos viajou o país, observando as populações e seus diferentes costumes. Foi então que percebeu uma triste diferença em relação à região que chamava de casa: em geral, as populações ribeirinhas entendiam a importância do rio que as cercava, e lutavam pela sua preservação. Quando olhava para o Rio dos Sinos, que circula por toda a região do Vale dos Sinos, não via o mesmo cuidado.

Ao voltar para o Rio Grande do Sul, entendeu que tinha uma missão muito maior do que imaginava. A partir daí, começou a produzir canções e participar de peças de teatro que falassem sobre a importância do Rio dos Sinos na região e como podemos preservá-lo. E não parou por aí, além de artista, Carlos é comunicador, e utilizou deste talento para se colocar em frente à câmera e ali reivindicar os direitos do Rio. Seu perfil no Instagram já acumula mais de 4 mil seguidores, e mistura ativismo e criatividade em seus vídeos.

Para Carlos, o olhar socioambiental não deveria ser um diferencial, mas sim obrigatório na consciência de cada artista. “O artista precisa refletir sobre o seu tempo”, explica ele, “O que precisa ser feito? A gente tá num momento de mudança climática, de aquecimento global, um rio poluído no quintal de casa… Pensei, é disso que eu tenho que falar”, e foi assim que seu trabalho junto ao rio de fato começou.

Após viajar o Brasil, Carlos percebeu a importancia de usar a sua arte para reivindicar o cuidado com o Rio dos Sinos. (Foto: Mateus Dias / Beta Redação)

Na luta pelo rio e pela arte

Ainda que carregue sempre um tom bem humorado, Carlos admite que a sua carreira não tem uma trajetória fácil. Não apenas por lidar com um tema que é ao mesmo tempo tão sério e tão sensível, mas pelo trabalho dobrado que realiza ao conduzir sua vida profissional e seu sonho de artista.

Ao voltar de seu mochilão, tentou viver aproveitando o máximo possível da sua arte. Por isso, morou por um longo tempo na Casa da Praça, onde pode socializar com outros artistas. O viver coletivo também trouxe um certo alívio nas contas, o que contribuiu em sua criação por um tempo.

Mas, aos poucos, percebeu que a produção cultural no país não tem uma única ordem ou estrutura, o que leva os artistas a terem que se reinventar diversas vezes para manter a estabilidade. Além disso, poucas pessoas enxergam o artista de fato como um profissional, por isso, quem trabalha com arte normalmente possui alguma outra fonte de renda que garanta a sua sobrevivência. Além de cantor e ator, Carlos atualmente é comunicador.

Mas nada disso é impeditivo para ele. Carlos reconhece a dificuldade de misturar arte e ativismo, principalmente quando este trabalho foca na conscientização, e não no lucro. Mesmo cercado de empecilhos, move-se com dedicação, não apenas para cumprir suas próprias metas, mas para ser referência para os que caminham atrás dele. “O começo é sempre difícil, mas as coisas vão se encaixando”, reflete.

Seguindo a correnteza da vida

Entre a música e o trabalho, Carlos tem muitos planos para o futuro. Graças ao seu talento e sua dedicação com o Rio dos Sinos, ele foi selecionado em diversos editais públicos culturais, e já possui planos para novas músicas e um EP com algumas de suas primeiras composições. Seu repertório é variado, seja sobre o rio ou sobre a região em que vive.

Seu maior desejo, porém, é voltar a encontrar o público em apresentações especiais. Carlos sente falta do contato humano durante os espetáculos. “A internet é boa, mas o encontro presencial faz falta”, brinca. 

Seja como for, Carlos Rasch não vai parar de cantar, atuar e conscientizar, levando no peito sua luta pela casa de todos nós, o meio ambiente.

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