No dia 29 de novembro de 2025, a Associação Carlos Barbosa de Futsal (ACBF) venceu a equipe da SER Santiago por uma goleada de 5×0. O resultado, em jogo válido pela grande decisão do Gauchão Série Ouro, coroou o time barbosense com o título da competição. Exatamente duas semanas mais tarde, no dia 13 de dezembro, foi a vez do Atlântico Erechim, que levantou o troféu da Liga Gaúcha após bater o Passo Fundo pelo placar de 6×2. Ambos os clubes se consideram campeões estaduais daquele ano.
Por mais inusitada que pareça (especialmente àqueles que não estão familiarizados com a modalidade), esta situação não representou um caso isolado. Em 2022, por exemplo, enquanto a ACBF conquistava a Liga Gaúcha, a Associação Brasil Futsal (ABF), de São Lourenço do Sul, comemorava o título do Gauchão Série Ouro. Há quase 10 temporadas, o futsal do Rio Grande do Sul precisou se acostumar com a ideia de terminar o ano consagrando duas equipes campeãs.
“Essa divisão é muito ruim para todas as entidades. Excesso de jogos, desgaste físico e emocional muito grande dos atletas, investimento financeiro muito alto… então você só vê pontos negativos”, cita Elton Dalla Vecchia, gerente de futsal do Atlântico Erechim. “Está gerando mais custos, menos interesse para o público e tem um problema que é mais sério ainda: essa divisão não ajuda em nada para transformar o futsal em esporte olímpico”, completa Clóvis Tramontina, fundador e atual presidente da ACBF.
Para entender os impactos dessa polarização, todavia, é fundamental conhecer o contexto.
A origem da ruptura
A Federação Gaúcha de Futebol de Salão (FGFS) foi fundada em junho de 1956. Filiada à Confederação Brasileira de Futsal (CBFS), esta entidade é legalmente reconhecida como a principal regulamentadora da modalidade no Rio Grande do Sul. O Gauchão Série Ouro, organizado pela FGFS, garante ao campeão uma vaga na disputa da Taça Brasil. O campeonato em questão, dentre outros fatores de relevância, faz parte do caminho que um clube brasileiro precisa percorrer para chegar à Copa Libertadores da América — a mais importante competição da América Latina.
Em março de 2017, entretanto, surge uma organização paralela. Em movimento independente encabeçado por alguns dos principais clubes do estado, foi criada a Liga Gaúcha de Futsal (LGF), com o objetivo de gerenciar a elite do futsal gaúcho. “Entendia-se que, naquele momento, a Federação tinha suas dificuldades. Então, a Liga foi fundada justamente por esse motivo. Ter uma administração à parte”, explica Nelson Bavier, o “Nelsinho”, que foi presidente da entidade por aproximadamente oito anos.
A versão de Nelsinho é reforçada por alguns dos dirigentes que fizeram parte desta mobilização. “Os clubes vinham discordando do processo pelo qual vinha passando a Federação. Não necessariamente da entidade em si, mas da forma como as pessoas estavam conduzindo”, afirma Elton Dalla Vecchia. “Quem incentivou o surgimento da Liga Gaúcha fui eu. E ela foi formada aqui em Carlos Barbosa, juntamente com outras equipes do estado. Tudo isso porque nós estávamos vendo que a Federação não estava atendendo aos interesses dos clubes”, complementa Clóvis Tramontina.
Ao todo, 12 equipes participaram da reunião que culminou com a fundação da Liga Gaúcha de Futsal, sendo elas: ACBF (Carlos Barbosa), AES (Sobradinho), Uruguaianense (Uruguaiana), ALAF (Lajeado), América (Tapera), ASIF (Ibirubá), Assoeva (Venâncio Aires), Atlântico (Erechim), BGF (Bento Gonçalves), Guarany (Espumoso), Parobé Futsal (Parobé) e SASE (Selbach).
O divórcio definitivo
Em seus primeiros dois anos de existência, a nova entidade até chegou a atuar sob a chancela da Federação, responsabilizando-se pela organização de um campeonato estadual unificado. Nos anos de 2017 e 2018, a competição foi denominada Liga Gaúcha de Futsal – Série Ouro, tendo como campeões Assoeva e ACBF, respectivamente. Todavia, em janeiro de 2019, uma reunião realizada na Câmara Municipal de Selbach (RS) mudaria definitivamente a trajetória da parceria. A partir daí, as instituições se fragmentaram, transformando de vez a Liga Gaúcha em um órgão independente.
“Num primeiro momento, existia uma comunhão entre os 12 times que estavam na Série A e o César (Cabral), então presidente da Federação, no sentido de buscar organizar. E claro, a Liga teria, dentro das suas possibilidades, autonomia. Inclusive financeira”, relata Nelsinho. “Quando chegou no final de 2018, porém, a gente entendia que existia uma discrepância em termos administrativos. E aí, essas ideias diferentes não me permitiam mais estar junto, já que ele (César) entendia que naquele momento permanecer com a Liga Gaúcha organizando a Série Ouro seria um prejuízo”, conclui.
Em outubro de 2024, César Cabral foi condenado — juntamente com outro réu — pelos crimes de apropriação indébita e lavagem de capitais. De acordo com o que foi divulgado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (TJRS), os fatos teriam ocorrido entre março e dezembro de 2016, período em que César era presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Cultura Física do Estado do RS (Sindiclubes – RS). Segundo a denúncia, os acusados teriam se apropriado de mais de R$ 1,1 milhão, sendo que parte do valor era proveniente de contribuições sindicais pagas pelo Sport Club Internacional. A pena fixada para ambos foi de 16 anos, quatro meses e 20 dias de prisão em regime fechado, além de multa.
No ano de 2019, com ambas as instituições já divididas, o futsal gaúcho viu pela primeira vez em sua história uma temporada com dois campeonatos estaduais distintos. Curiosamente, a grande maioria das equipes de ponta optou por participar do torneio organizado pela Liga Gaúcha, abandonando a disputa do Gauchão Série Ouro. “Os clubes aderiram. A gente abriu a possibilidade de fazer, organizar uma Série B, uma Série C, categorias de base, feminino… e aí houve uma explosão. A Liga Gaúcha chegou a 160 CNPJ’s”, detalha Nelsinho.
Os clubes escolhem um lado
A ACBF, recordista em títulos estaduais no Rio Grande do Sul, foi uma das equipes que optaram por migrar ao campeonato organizado pela Liga Gaúcha em 2019 — permanecendo ininterruptamente na disputa até 2023. Após retornar ao torneio da Federação em 2024, o time laranja passou a temporada 2025 disputando ambas as competições. Atualmente, em 2026, o clube barbosense participa somente do Gauchão Série Ouro.
Sobre os motivos que fundamentaram esta decisão, Clóvis Tramontina explica: “Nós vimos que a Liga Gaúcha não levava a lugar nenhum. A gente ganhava uma competição, mas ela não nos dava o direito de disputar outras coisas, por não ser filiada à CBFS. Então tivemos que voltar atrás e aderir novamente à Federação”. Apesar disso, ele reconhece que existe um desequilíbrio entre as entidades. “Eu acho que é mais séria a condução da Liga. (O campeonato) mais forte é o da Liga. Sem dúvida nenhuma. Mas o da Federação te dá legitimidade, que é aquilo que eu te disse antes”, pontua.
Outro clube que optou por abraçar o projeto da Liga Gaúcha em 2019 foi o Atlântico Erechim, que permaneceu afastado do torneio da Federação por alguns anos. Entretanto, desde 2024, o “Galo” — como é carinhosamente conhecido — disputa as duas competições.
“(Para o Atlântico, a competição mais vantajosa) é a da Liga. Sem questionamento nenhum. A Liga Gaúcha tem os melhores plantéis, quadras com no mínimo 36 metros… a Federação permite 32. Então, em termos de competição e de nível técnico, nem se compara uma com a outra”, assegura Elton Dalla Vecchia. “Eu acho que é delicado, é sensível o processo de construção de uma Série Ouro mais competitiva. Para começar, temos muitas equipes. Vinte e poucas equipes é demais. Temos que primar pela qualidade, não só pela quantidade”, reverbera.

Na temporada 2026, o Gauchão Série Ouro é disputado por 22 times. De acordo com o regulamento específico da competição, a dimensão mínima da quadra de jogo é de 32x17m. Por outro lado, o estadual organizado pela Liga Gaúcha conta com a participação de 15 clubes, exigindo dimensões mínimas de 36x18m.
O que motivou a divisão
As críticas dos clubes à Federação Gaúcha de Futebol de Salão, entretanto, não se restringem somente ao critério técnico. De acordo com os dirigentes, que participaram da criação da Liga Gaúcha, a principal insatisfação estava relacionada à condução administrativa da entidade. A percepção de que havia pouca transparência na gestão e dificuldades de diálogo com os clubes foi um dos fatores que impulsionaram o movimento de ruptura.
Clóvis Tramontina afirma que um dos principais atritos dizia respeito à transparência na gestão da FGFS. Segundo ele, havia dúvidas sobre a condução financeira da entidade. “Principalmente no aspecto das contas da Federação. As contas não são aprovadas, então é o tipo da coisa… que instituições são essas? Essas instituições precisam ser organizadas. Nós estamos ligados a elas e as nossas equipes dependem delas”, relata.
No Atlântico Erechim, a avaliação era semelhante. Elton Dalla Vecchia afirma que, à época, os clubes encontravam dificuldades para acompanhar a gestão da entidade, principalmente no que dizia respeito aos dados monetários. “A gente não sabia quanto patrocínio entrava, qual é o valor do patrocínio, para onde iam os recursos desses patrocínios… porque tinha esse problema administrativo-financeiro que não se aplicava. O clube era usado, mas não tinha retorno nesse aspecto”, detalha. Segundo o dirigente, esse cenário contribuiu para fortalecer entre os times a ideia de criar uma entidade com maior participação e controle por parte das próprias equipes.
Mais cauteloso ao abordar o tema, Nelson Bavier afirma que as críticas à Federação partiram dos próprios clubes. “É complicado falar isso, porque têm coisas que eu não tenho como provar. Mas entendo que, naquele momento, essas foram questões que trouxeram para mim. Não existia, por parte da organização (FGFS), um olhar de cuidado para com os times”, comenta. Segundo ele, a criação da Liga Gaúcha foi uma resposta às insatisfações manifestadas pelas equipes da elite do futsal gaúcho.
“Se tinha pouco cuidado com os clubes, em termos de retorno, dos mais variados. Desde o retorno de marketing, até passando por questões financeiras, premiação, se cobravam taxas absurdas de transferência… mas aí vale uma ressalva. Essa não é uma situação específica da Federação Gaúcha. É uma situação da Confederação Brasileira de Futsal”, complementa Nelson. Ele fez questão de lembrar que o Brasil é o único país do mundo que possui uma confederação específica para o futsal, uma vez que a modalidade não é gerida diretamente pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
O posicionamento da Federação
Presidente da Federação Gaúcha de Futebol de Salão desde 2019 (reeleito em 2022), Ivan Rodrigues dos Santos é objetivo ao mencionar o que pensa a respeito da Liga Gaúcha. “É como qualquer outra liga amadora. Tem a Liga Canoense e outras tantas que nós já chancelamos também. Por quê? Porque a FGFS é a entidade oficial. Só tem uma por estado”, pontua.
Ele ainda esclarece que a FGFS nunca estabeleceu uma parceria formal com a organização criada em 2017. Apenas autorizou que a Liga Gaúcha administrasse temporariamente a competição principal. “Houve lá no início uma conversa de que essa Liga gostaria de ministrar a Série Ouro. Eles pediram emprestado, pois achavam que não estava legal. Aí o César (Cabral), na época, emprestou e depois pediu de volta. Eles não devolveram, disseram que iriam ficar e levar os clubes para lá. Aí aconteceu esse impasse”, explica.
Sobre as críticas relacionadas à transparência administrativa da FGFS, Ivan dos Santos sustenta que as denúncias apresentadas por dirigentes de clubes foram analisadas pelo Ministério Público e não resultaram em irregularidades. Segundo ele, toda a documentação referente às prestações de contas da entidade foi encaminhada ao órgão. “Eu peguei toda essa documentação, ano a ano, e foi entregue ao Ministério Público. O Ministério Público deu ok de que estava tudo correto”, declara. O dirigente também afirma que a instituição nunca contou com apoiadores privados. “A Federação Gaúcha nunca teve patrocínio. A Federação sobrevive com as taxas de participação dos clubes que pagam para jogar os campeonatos oficiais”, acrescenta.
Ivan dos Santos também rebate a percepção de dirigentes que classificam a Liga Gaúcha como a competição de maior nível técnico do estado. Ao ser perguntado sobre essa avaliação, o presidente respondeu com um novo questionamento. “Se o nível técnico lá é melhor, por que os clubes retornaram para a Federação?”, indaga. Ele ressalta que a FGFS é a única entidade oficialmente reconhecida para organizar competições que dão acesso ao calendário nacional da Confederação Brasileira de Futsal (CBFS). “O que a Federação oferece é transparência, organização e vaga em nível nacional e internacional”, resume.
União: sonho ou possibilidade?
Embora não descarte as dificuldades existentes, Nelsinho acredita que uma futura aproximação entre Liga Gaúcha e Federação é possível. Para ele, as duas entidades possuem estruturas democráticas, com estatutos e eleições periódicas, o que abre espaço para mudanças de rumo ao longo do tempo. O ex-presidente também recorda que, durante sua gestão, houve diversas tentativas de diálogo entre as partes, que sempre acabavam esbarrando nas divergências administrativas e de gestão que motivaram o rompimento. Ainda assim, ele entende que uma reunificação não deve ser descartada. “Pode existir diálogo, sim”, afirma
Clóvis Tramontina demonstra otimismo em relação a uma possível convergência entre as entidades. O dirigente da ACBF acredita que um movimento de aproximação entre as instituições nacionais do futsal poderia influenciar diretamente a realidade gaúcha. Na sua avaliação, a união entre Liga e Federação seria um passo importante para fortalecer e contribuir para objetivos maiores, como o reconhecimento do futsal como esporte olímpico. Para ele, caso haja uma unificação em âmbito estadual, “isso vai vir em nível nacional e, consequentemente, nós vamos ser esporte olímpico”.
Já Elton Dalla Vecchia afirma que a reunificação é o cenário que mais gostaria de ver concretizado. O gerente de futsal do Atlântico sustenta que a existência de uma entidade única significa o interesse coletivo dos clubes e permitiria fortalecer a representação da modalidade no estado. Segundo ele, a divisão atual não produz vencedores e acaba prejudicando todos os envolvidos. “Hoje ninguém está ganhando. Hoje todos estão perdendo. O objetivo é unir para que todos ganhem”, afirma. Apesar disso, reconhece que o caminho ainda parece distante, principalmente porque parte das lideranças das entidades não compartilha da mesma visão defendida pela maioria dos clubes.
Diferentemente dos dirigentes da ACBF, do Atlântico e do ex-presidente da Liga Gaúcha, que defendem uma futura aproximação entre as entidades, Ivan dos Santos descarta a possibilidade de reunificação durante sua gestão. Para ele, a Federação, por ser a entidade oficial do futsal gaúcho, não tem motivos para incorporar uma organização paralela. “Enquanto eu estiver aqui, não (vai haver união)“, afirma. “A Federação vai se unificar com o quê? Com uma liga amadora? Os clubes já retornaram para a Federação. Então por que a Federação iria se unificar com alguma liga no nosso Estado?”, questiona.
