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Com 151 anos, São Sebastião do Caí conta sua história por meio de rota histórica  

Caminhada histórica destaca patrimônios e resgata a memória do município.

A cidade de São Sebastião do Caí, localizada no Vale do Caí, destacou-se principalmente no século XIX por ser o último ponto navegável utilizado no transporte de mercadorias rumo à Serra Gaúcha. Seu porto tornou-se um dos mais movimentados do Rio Grande do Sul, exercendo papel estratégico no escoamento de produtos agrícolas e industriais em direção a Porto Alegre e outras localidades.  

Em 2025, o município celebrou os 150 anos de emancipação política, e como parte das comemorações, a Secretaria de Cultura, Turismo e Desporto inaugurou um novo atrativo cultural que busca reviver a história do município. A rota histórica caiense teve sua primeira caminhada no dia 1º de maio de 2025, data que São Sebastião do Caí comemorou seu sesquicentenário, depois disso se repetiu dezenas de vezes em datas comemorativas, como o Dia do Patrimônio Histórico, a Páscoa, o Natal e outros eventos culturais.

Guiada pela estudante de História e servidora da secretaria, Maria Eduarda Klein, a caminhada inicia na Praça Cônego Edvino Puhl, ponto central do município, em frente à Igreja Matriz. É neste local que, há cerca de 140 anos, acontece a festa mais tradicional da cidade, conhecida por alguns como Festa do Boa Noite, por outros como Festa da Praça, mas chamada pela maioria de Festa de São Sebastião. Nos primeiros dias de janeiro, toda a comunidade caiense se reúne durante 10 dias para celebrar o dia de seu santo padroeiro.  

Também localizado na praça está o Museu Histórico Vale do Cahy, onde a caminhada se estende por um longo período para que os visitantes possam apreciar os artefatos históricos que retratam a trajetória do Vale do Caí. O museu funciona em um prédio histórico conhecido como A Tafona, um bar construído em 1926 que foi, durante décadas, ponto de encontro da comunidade caiense, até tornar-se o museu municipal em 1991. 

Para a guia, Maria Eduarda Klein, a caminhada possui grande importância cultural por resgatar e valorizar a história do município. “Percebemos que muitos moradores nunca se perguntaram ou procuraram conhecer a trajetória dos prédios históricos pelos quais passam todos os dias. É de extrema importância conhecermos a história da nossa cidade para que possamos transmiti-la às futuras gerações, além de contribuir para a preservação desses patrimônios”, destaca. 

A caminhada passa por locais históricos como o Cine Aloma, inaugurado em 1950. O espaço foi o segundo cinema de São Sebastião do Caí, tendo como antecessor o Cinema Gaúcho, mas, com o passar dos anos, o prédio se deteriorou e não existe mais.

Após passar pelo centro da cidade, a caminhada segue até o bairro Navegantes, região ribeirinha às margens do Rio Caí e local de origem do crescimento de São Sebastião do Caí. É ali que estão alguns dos prédios mais antigos do município, como a velha sede do Banco Pelotense e a residência de Egídio Michaelsen, importante político caiense que foi prefeito do município de 1935 a 1944. Seu mandato foi estendido durante o Estado Novo, em 1937. Mais tarde, Michaelsen também atuou como ministro da Indústria e do Comércio do Brasil no governo de João Goulart, entre 27 de junho de 1963 e 31 de março de 1964.  

No ponto em que está localizada a Casa de Egídio, a guia compartilha um episódio que desperta surpresa entre os participantes e alimenta diferentes teorias que atravessaram gerações. Na época, circulavam pelo bairro rumores de que Egídio Michaelsen, então gerente do Banco Pelotense, teria construído um túnel ligando sua residência à sede da instituição financeira.

A história ganhou força porque, segundo relatos populares, Egídio surgia de maneira misteriosa no banco em horários aleatórios do dia e ninguém o via entrar pelas portas, o que trouxe à tona teorias conspiratórias de que ele havia construído túneis subterrâneos ligando os dois locais. E a reação dos visitantes é clara, após a guia contar a histórias se ouve diversos cochichou seguidos de “será?”, situação que causa curiosidade em todos.

A caminhada é finalizada às margens do Rio Caí, onde havia um porto natural de terra que facilitava o embarque e desembarque de mercadorias e passageiros. Ao longo dos anos, a região recebeu diferentes nomes ligados aos proprietários das terras, passando de “Porto do Matheus” para “Porto D. Theodora” e, posteriormente, “Porto dos Guimarães”, denominação adotada após a venda das terras ao Tenente-Coronel Antônio José da Silva Guimarães Júnior, durante a década de 1840. 

Para a caiense Jeane Zardo, a caminhada traz o pertencimento dos moradores pelo município. “Vejo a caminhada histórica não apenas como um evento nostálgico ou turístico, mas como um exercício fundamental de educação patrimonial e de fortalecimento da história da cidade. Essa iniciativa vai muito além de resgatar o passado; ela cria um espaço vivo de identificação e pertencimento em cada morador. É a oportunidade de conectar a paisagem urbana atual com as camadas do tempo que lhe deram origem”, destaca. Jeane também comenta que já fez a caminhada mais de uma vez e que, mesmo que conhecesse alguns fatos, toda vez que acompanhava o passeio ela descobria um acontecido novo.

O evento que tem como objetivo fomentar os atrativos históricos e valorizar a trajetória de um município que, há 150 anos, se consolidava como polo econômico regional, a ação integra um esforço da prefeitura municipal para resgatar o orgulho caiense por sua história. Entre as iniciativas estão a criação de um foto-álbum histórico e a construção do inventário do patrimônio histórico do município, resgatando a memória de uma cidade que construiu sua trajetória às margens do rio que leva seu nome.

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