A literatura, para além de estimular a leitura, pode se apresentar como uma ferramenta de combate ao preconceito racial e de promoção da representatividade. Na infância, a educação antirracista também tem a possibilidade de ser utilizada como forma de desconstrução do racismo estrutural. É isso que o casal de escritores Elenice Ferreira e Edison Miranda busca alcançar com suas obras infantis antirracistas.
“Nós queríamos escrever um livro que fosse para além dos muros das escolas. Nosso objetivo é que os personagens negros possam narrar histórias para além do racismo. Nós podemos escrever sobre tudo”, contou a pedagoga Elenice ao explicar como surgiu a vontade de escrever livros infantis.

A motivação e a inspiração para os livros vêm de quem cresceu sem se sentir representado nas obras literárias. Mesmo consumindo livros de autores e histórias que retratassem o protagonismo negro, Elenice e Edison ainda percebiam uma falta expressiva de representatividade na literatura infantil. Ao retratar personagens negros, os autores buscam trabalhar a autoestima e o sentimento de pertencimento das crianças.
No último sábado, 9 de maio, a dupla esteve presente na 27ª Feira do Livro de Esteio, realizando uma sessão de autógrafos do livro O Desejo de Léo. A obra é inspirada no filho do casal e foi escrita com o objetivo de despertar a criatividade dos pequenos leitores.

Para o secretário escolar Edison, a principal preocupação na produção dos livros é fazer com que a criança negra se sinta representada em todos os espaços.
Representatividade desde a infância
“Na nossa infância, não tínhamos livros assim, livros em que os personagens se parecessem com a gente”, relatou a autora Elenice. Um dos exemplos citados por ela sobre a importância de as crianças terem a oportunidade de se identificar com os personagens aconteceu durante uma contação de histórias do livro Eu Sou Nala em uma escola. Ao encerrar a apresentação, recebeu o retorno de uma das alunas, momento que relembra com emoção: “Eu pareço com a Nala, também sou negra”.
No Brasil, as crianças negras representam mais de 40% das matrículas em creches, segundo dados do Censo Escolar 2024. Já nas creches públicas, esse percentual chega a cerca de 45%. Levantamentos como esses tornam ainda mais relevante a discussão sobre representatividade e autorreconhecimento da população negra.

A valorização da educação étnico-racial
A importância de obras que promovem a representatividade negra desde a infância dialoga com iniciativas voltadas a valorização da educação étnico-racial dentro das instituições de ensino. Nesse contexto, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi), programa da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), atua para fortalecer o debate sobre identidade, pertencimento e combate ao racismo através do ensino. O Neabi articula e desenvolve ações e atua em atividades de ensino, pesquisa e extensão com foco na temática étnico-racial.
Segundo o coordenador do Neabi, Jorge Teixeira, o programa surge como um desdobramento da Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas redes públicas e privadas. A proposta, segundo ele, é recontar “uma história que foi narrada de forma a invisibilizar e inviabilizar a participação dos afrodescendentes e indígenas na formação do povo brasileiro”.
Mais do que contar histórias, obras como as de Elenice Ferreira e Edson Miranda contribuem para a construção de novas referências para as crianças negras desde os primeiros anos da infância. Ao lado de inciativas como a do Neabi, que buscam fortalecer a educação étnico-racial nas escolas e universidades, os livros antirracistas infantis se tornam ferramentas de valorização da identidade, pertencimento e reconhecimento da população negra.
