A Páscoa já passou. Os ovos de chocolate saíram das prateleiras, os coelhos serão engavetados até o próximo ano e os posts de “Feliz Páscoa” se perderão nos feeds das redes sociais. Tudo certo? Para alguns, não.
Basta voltar aos comentários dessas publicações: “esqueceram de Cristo”, “virou só comércio” ou “essa não é a verdadeira Páscoa”. A crítica em si não chama a atenção. Porém, se ampliar o olhar, surge algo a mais. Uma discussão sobre uma simples data revela algo maior: não se trata apenas de defender um significado religioso, mas a ideia de que os cristãos estão sendo perseguidos.
Popularizou-se, na última década, o termo “cristofobia”, que se refere a um suposto medo ou perseguição aos cristãos. Mas no que isso se baseia? A palavra envolve restrição de liberdade e impedimento de expressão. Onde o cristianismo está sendo barrado?
Além disso, o sufixo “fobia” é usado de forma equivocada. Em problemas sociais, como a homofobia, ele indica ódio, preconceito e discriminação. Existem, sim, cristãos perseguidos no mundo, mas esse não é o caso do Brasil.
Nosso país é historicamente cristão. Essa religião moldou costumes, influenciou instituições laicas e segue presente no nosso cotidiano, inclusive com feriados anuais como a Páscoa. Segundo o IBGE, 83% dos brasileiros são adeptos ao cristianismo. Já dados do Disque 100 mostram que religiões de matriz africana concentram mais casos de intolerância religiosa. Como, então, um grupo majoritário passa a se ver como minoria ameaçada?
A fé cristã contínua presente e em suma maioria. A diferença é que existem outras visões de fé, incluindo a ausência dela. Isso não é um ataque, mas uma característica base de uma sociedade plural e democrática. Além de outros tipos de fé, pautas sociais ganharam espaço. Grupos marginalizados passam a ter voz para reivindicar direitos e visibilidade. O que esse discurso de perseguição faz é transformar esses avanços em ameaça. Uma ameaça aos valores morais, aos valores cristãos. E esse discurso não é só religioso, mas também político.
Coincidentemente, um dos primeiros usos públicos do termo “cristofobia”, foi em terreno político e em um ataque a, verdadeiramente, minorias. Em 2015, o deputado federal Marco Feliciano – na época filiado ao Partido Social Cristão (PSC) e, atualmente, eleito pelo Partido Liberal (PL) – usou a palavra para atacar as manifestações realizadas na 19° Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.
No fim, parece ser menos sobre fé e mais sobre a disputa da centralidade do discurso e dos significados no espaço público. Ninguém está sendo impedido de acreditar ou celebrar sua religiosidade. A Páscoa não perdeu o significado, nem Cristo deixou de ser importante para aqueles que acreditam. O que mudou foi o ambiente. A sociedade é plural, diversas formas de viver, pensar e agir devem coexistir. E isso não deveria ser visto como ameaça. Se não, sobra até pro coitado do coelho.
