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Uma vida em diferentes palcos

Cantora, Kellin Mello transformou a admiração por Rita Lee na banda Mania de Rita, projeto que marcou seu retorno à vida artística

Psicóloga formada pela Unisinos de São Leopoldo, Kellin Mello construiu sua trajetória profissional conduzindo grupos, atendimentos e atividades ligadas à Comunicação Não Violenta. Mas existe uma segunda parte dessa história que começou muito antes do consultório: a música.

Aos 14 anos, ganhou o primeiro violão do pai. A adolescência foi marcada pelas letras que ouvia repetidamente até decorá-las, pelas primeiras composições e pelas apresentações na escola. Uma das músicas daquele repertório era de Rita Lee, na época, era apenas mais uma canção entre tantas que faziam parte da trilha sonora da sua juventude: “Esses dias eu pensei nisso. Quem diria que lá na escola eu já estava cantando uma música da Rita Lee”.

O primeiro palco

Nascida em Santo Ângelo, na região das Missões, Kellin cresceu em uma casa onde a música fazia parte do cotidiano. Na adolescência, o violão se tornou uma companhia constante. Logo vieram as primeiras bandas, os ensaios e as apresentações.

Aos 17 anos formou Os Alquímicos, banda que tocava clássicos do rock como Janis Joplin, Led Zeppelin, Beatles, Rolling Stones e Mutantes. As apresentações em festas universitárias de Caxias do Sul ajudaram a consolidar uma relação que já parecia natural: “Eu andava pra cima e pra baixo com aquele violão, ia até para a escola com ele”.

Mesmo com a música ocupando espaço cada vez maior, o caminho profissional ainda parecia indefinido. Primeiro veio o curso de Direito, depois, três anos tentando ingressar em Medicina. Nenhuma das duas escolhas permaneceu por muito tempo.

Música sem fronteiras

Aos 23 anos, uma mudança levou Kellin para fora do país, ao lado de um namorado músico, foi morar nas Ilhas Canárias, na Espanha. A promessa era construir uma vida juntos e continuar trabalhando com música, quando percebeu que as oportunidades não surgiriam da forma esperada, decidiu procurá-las por conta própria: “Eu peguei meu violão e fui batendo de pub em pub.”

A estratégia funcionou. Conseguiu apresentações fixas em um bar local e passou a cantar semanalmente para turistas e moradores da ilha. A experiência durou poucos meses, mas deixou uma marca importante: pela primeira vez precisou construir espaço sozinha como artista.

A escolha pela Psicologia

De volta ao Brasil, Kellin mudou-se para Porto Alegre, o plano era encontrar um produtor musical para gravar suas composições e retomar os estudos.

Foi então que a Psicologia entrou definitivamente em sua vida. Na Unisinos, encontrou uma área que dialogava com interesses antigos relacionados ao comportamento humano, às emoções e às relações interpessoais. Durante a graduação, continuou envolvida com projetos musicais, entre eles a banda Casa Blanca, dedicada a tocar em bares as principais trilhas sonoras de filmes, inspirada no tempo que trabalhou em uma locadora. Juntamente com a Pequeno Príncipe, outra banda mais voltada para músicas autorais.

Mas a rotina foi mudando, entre aulas, estágios e trabalho, os palcos começaram a ficar mais distantes: “Ou eu escolhia a Psicologia ou eu escolhia a música, não tinha tempo para os dois”.

Kellin em sua casa e local de atendimento como psicóloga – Foto: Valentina Lopardo/Beta Redação

Quando a música virou ferramenta de cuidado

Mesmo longe das apresentações, a música nunca desapareceu completamente.

Durante sua formação, Kellin conheceu a Comunicação Não Violenta, área que se tornaria uma das principais referências de sua atuação profissional. Passou a conduzir grupos, oficinas e palestras, tornando-se conhecida em Porto Alegre pelo trabalho desenvolvido nessa abordagem.

Após a graduação, formada em 2017, também encontrou uma forma de unir suas duas paixões. Em uma clínica oncológica, passou a utilizar a música em grupos terapêuticos realizados com pacientes durante sessões de quimioterapia. Com o violão nas mãos, as canções serviam como ponto de partida para conversas, memórias e compartilhamento de experiências: “Fiquei distante dos palcos, mas da música eu nunca fiquei”.

Rita Lee como ponto de partida

Quando decidiu retornar aos palcos, precisava escolher um caminho. Pensou em diferentes repertórios e possibilidades, mas a resposta acabou vindo de uma artista que a acompanhava desde a adolescência: “Eu sempre gostei muito da Rita Lee, gostava das músicas e do jeito único dela, mas não sabia que eu ia me identificar tanto”.

A criação da Mania de Rita levou meses. Houve desistências, dificuldades para reunir músicos e momentos em que pensou abandonar a ideia, mas o projeto finalmente saiu do papel.

Com o tempo, o tributo deixou de ser apenas uma homenagem. Ao interpretar Rita Lee, Kellin encontrou uma forma de expressar temas que também atravessam sua própria trajetória.

Liberdade, autenticidade, feminismo e independência passaram a fazer parte dos shows. Em Flagra, balas circulam pela plateia em referência aos drops de anis citados na letra. Em Erva Venenosa, uma cascavel de brinquedo passa de mão em mão entre o público. Já antes de Todas as Mulheres do Mundo, a cantora interrompe o clima festivo para lembrar vítimas de feminicídio e discutir a violência contra as mulheres. Os figurinos também mudam ao longo da apresentação, acompanhando diferentes fases da trajetória de Rita Lee.

Foto: Valentina Lopardo/Beta Redação

Hoje, além da banda, ela também integra o bloco carnavalesco Desculpa o Auê, inspirado também na obra de Rita Lee. A iniciativa surgiu do encontro entre pessoas que compartilhavam o desejo de homenagear a cantora durante o Carnaval e acabou ampliando um projeto que já vinha sendo desenvolvido na Mania de Rita. Para Kellin, o bloco representa mais uma oportunidade de celebrar a liberdade, a irreverência e a autenticidade que enxerga na artista.

O que começou como admiração na adolescência ganhou novos formatos ao longo dos anos e hoje ocupa espaço tanto nos palcos quanto nas ruas.

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