Usamos cookies para melhorar sua experiência, personalizar conteúdo e exibir anúncios. Também utilizamos cookies de terceiros, como Google Adsense, Google Analytics e YouTube. Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies. Veja nossa Política de Privacidade.

Mauricio Saraiva e as mais de duas décadas de comentário esportivo

Comentarista do Grupo RBS recebeu o Beta Esporte para um bate-papo sobre a carreira no jornalismo esportivo

Todo mundo já passou por aquele momento em que está assistindo à transmissão de algum esporte e ouve o comentarista emitir a mesma opinião dada por você minutos antes. Essa sensação acaba por se tornar boa pois sabemos que o comentarista é quem tem conhecimento mais apropriado pra falar sobre determinado assunto ou partida. Enquanto o narrador conta o jogo, o comentarista tem a função de explicá-lo de forma simples para atingir tanto quem acompanha o esporte, quanto quem não acompanha. Hoje, no Rio Grande do Sul, temos uma grande gama de comentaristas capacitados e, entre eles, está Maurício Saraiva.

Completando quarenta anos de jornalismo em 2026 e acumulando mais de duas décadas no comentário esportivo, Maurício Saraiva recebeu a equipe do Beta Esporte para um bate-papo sobre sua carreira e essa função tão importante dentro do jornalismo esportivo. Confira, abaixo, como foi essa conversa.

Mauricio Saraiva compartilhou momentos únicos de sua trajetória – Foto: Luís Henrique Guarnieri/Beta redação

Como nasceu tua paixão pelo esporte?

O futebol entra na minha vida porque a primeira coisa que meu pai faz, como tantos pais fazem com o filho, é dar a bola, né? E desde muito cedo tu ganha a bola, joga com teu pai, o teu pai te dá toda a atenção do mundo, e logo tu já não sabe se gosta da bola pela bola ou da bola pelo que ela te provoca, da reação afetiva do teu pai contigo. Minha história é uma bem bonitinha. Eu estava num domingo de tarde ouvindo futebol com meu pai na rádio em um domingo de 1969, quando eu tinha 5 anos. Em dado momento acontece um gol, o narrador vibra, e o meu pai me pergunta se eu quero ser o cara que fez o gol. E eu respondo pra ele que eu quero ser o cara que está falando. Eu não sabia o nome da profissão, mas eu queria ser o cara que estava falando. Desde ali meu pai nunca mais perguntou o que eu queria ser na vida e eu fui perseguir isso. 

Como começa a tua carreira no jornalismo?

Eu estudei com o Luiz Carlos Reche e, na época, ele já trabalhava com rádio. Aí, um dia, abriu uma vaga de produtor e ele perguntou se eu queria. Aceite, mas não era de fato o que eu queria. Eu queria entrar no meio, mas desde sempre o que eu queria era o microfone, a fala, o protagonismo que o microfone dá. E lá eu posso dizer que fui o pior produtor do mundo. A única coisa que eu fiz de bom foi dizer ao meu chefe, que era o Flávio Dutra, que eu queria microfone assim que houvesse uma oportunidade. Eventualmente eu fui demitido por não fazer bem produção e, como não tinha vaga de microfone, eu fiquei sem emprego. Mas o Flávio foi para a Guaíba e, quando pintou uma vaga de microfone lá, ele lembrou do pedido que eu tinha feito a ele, e aí me deu a chance. A primeira oportunidade foi na geral, mas logo em seguida pude experimentar o esporte e dali em diante a carreira foi se construindo.

E qual a razão para tu permanecer no comentário esportivo?

Tu sabe que tem muito coach de autoajuda que gosta de dizer o quanto é fundamental tu sair da tua zona de conforto e ter novos desafios, e eu respeito muito quem pensa dessa maneira. Mas, pra mim, o grande desafio é não deixar o sonho original morrer por inércia, por tédio. Pra mim, o extraordinário é que cada novo dia que eu faço o que eu faço é como o primeiro dia que eu faço o que eu faço. É o mesmo prazer, é a mesma intensidade, é a mesma vontade de ir pro estádio, é a mesma vontade de pegar o carro, de pegar a van, de abrir o microfone, de ir pro Globo Esporte, não tem cansaço. Eu sonhei com isso. Eu tenho que proteger o meu sonho de infância que se realiza em cima do meu trabalho. Eu tenho 7 Copas do Mundo presenciais, como é que isso pode ser entediante? Como é que isso pode ser chato? Chato é tu não ter a capacidade de manter viva a chama do teu sonho, isso é chato.

O que é um bom comentário esportivo?

O bom comentário do futebol tem que ser humanizado. O esporte é disputado por humanos. O número no comentário só funciona se ele me ajuda a botar no receptor da minha mensagem aquilo que eu estou dizendo. Ele por ele mesmo é um conjunto vazio. Passes certos, posse de bola… se tu não contextualizar, é nada. É como um relatório de quem faz prego. “Fiz 500 pregos em uma hora, o que dá uma média de tantos pregos por minuto”, não. Pra futebol, não. Tem que contextualizar, analisar tudo que cerca o jogo. O atleta pode ter brigado com a mulher, brigado com o filho, estar preocupado com doença de alguém e por isso vai render menos, e tu tem que levar isso em conta. Se as pessoas vão concordar contigo ou não tanto faz; o mais importante é que tu tenha a honestidade de dizer exatamente a tua opinião. Tu trabalha com a opinião.

Da esquerda para a direita: Luciano Périco, Luís Henrique Guarnieri, Mauricio Saraiva e Vitor Brandão – Foto: Geison Lisboa/Grupo RBS

De forma geral, tanto pra TV quanto para rádio, é preciso sintetizar toda a opinião em pouco tempo. Como se faz isso?

Se eu fosse indicar seria principalmente ler. Mas não é só ler manchete de jornal ou texto de jornal. É ler livro pra ter vocabulário vasto, pra te ajudar a dizer a mesma coisa com três, quatro palavras diferentes. Para a capacidade de síntese, o treinamento que tu pode fazer se tu tem muita dificuldade, se tu é muito prolixo, é te gravar e ver depois. Aí quando tiver na condição de telespectador, tu mesmo vai perceber se ficou longo, se abriu muita vírgula, como ficou teu gestual. Então usa todo o recurso tecnológico pra alcançar o teu objetivo, que é concisão, que é ser claro no que tu diz.

Nesses mais de 20 anos que tu está inserido no comentário esportivo, o que mais mudou?

A principal mudança é o mercado: hoje tu não precisa ser formado em jornalismo. Basta ser colorado ou gremista, por exemplo. Tu abre um canal de YouTube, passa a expressar as tuas opiniões, e haverá algum público para tu ser agressivo, lacrador, haverá outro público para tu ser equilibrado, sensato. Hoje há um público de internet que não exige o curso de jornalismo, não exige ouvir os dois lados ou ter cuidado com a crítica para ela não ser pessoal. 

Com as redes sociais, ao momento em que se dá uma opinião, já há inúmeras respostas tanto positivas quanto negativas. Como se preparar pra isso não te afetar?

Tu tem que ter preparo mental. Ou fazendo terapia, ou porque tu ao natural é forte mentalmente. Ser verbalmente agredido, num mundo onde não há limite de emissor-receptor, é parte do teu contracheque. Hoje tu acaba de dar uma opinião e alguém acaba de rebater, e tanto pode rebater te contra-argumentando, como dizendo “cala a boca, palhaço”. E tu vai ter que entender que é assim. Tu pode ocultar, bloquear, se aquilo te deixa mal. Algumas vezes, quando são muito agressivos, eu questiono se é isso mesmo que a pessoa tem para me dar. Quando é agressivo mas tem um nível de argumentação, eu me autorizo a tentar argumentar e criar um canal de comunicação.

Pra finalizar, quais as principais dicas pra quem quer atuar na área do jornalismo, principalmente do comentário esportivo?

Comunique-se. Está empregado? Tem um chefe? Diz pra ele o que tu quer da vida. Pede oportunidades. Depois de se comunicar, ou até antes, te prepara pra oportunidade que tu pediu. Lê, vê, te informa. Interpreta, analisa. Não explode emocionalmente, a menos que essa seja a trajetória que tu quer levar como jornalista. Tem que prestar atenção em tudo, não descansar nunca. Jornalista não tem horário de oito horas. A minha melhor ideia de um comentário pode ser meia noite e dez tomando banho. E não está supostamente na minha hora de trabalho. Isso tudo te torna um potencial jornalista. O resto depende de determinação, do mercado se abrir pra ti. Hoje tem como abrir um canal de Youtube e fazer o teu caminho. O dinheiro não vai entrar tão fácil assim, mas é um caminho. Então te preparar para aquilo que sonhou é o melhor que tu pode fazer. Porque quando a oportunidade chegar, não dá pra tu dizer que não tá pronto. Dá teu jeito de estar pronto. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também