Gustavo Lima, conhecido por Lima, é socorrista nível 03 dos Anjos do Asfalto. O grupo é formado por socorristas voluntários que atuam nas cidades da região de Gravataí e Cachoeirinha, dando auxílio para situações pré-hospitalares e emergências clínicas. Morador de Gravataí, com 19 anos, ele trocou a Engenharia de Software pela Enfermagem, onde ‘se encontrou’.
Participante do grupo há seis meses, Lima fala de sua experiência e a importância do trabalho que o levou a mudar de curso. Nesta entrevista, ele conta sobre a rotina desses socorristas voluntários nas ruas da Região Metropolitana.
O que são os Anjos do Asfalto?
Os Anjos do Asfalto são grupos formados por voluntários treinados que atuam diretamente em ocorrências de trânsito, prestando o primeiro atendimento às vítimas até a chegada do socorro oficial (SAMU ou o Corpo de Bombeiros). Esse primeiro contato é extremamente importante, porque muitas vezes é o que define as chances de sobrevivência da pessoa envolvida. Nosso papel é garantir que a vítima receba um atendimento inicial, estabilizando o estado e evitando agravamentos. Não substituímos o atendimento profissional, mas atuamos como um suporte essencial naquele intervalo crítico entre o acidente e a chegada da equipe especializada. Além disso, também ajudamos na organização da cena, sinalização da via e suporte emocional às vítimas e familiares, muitas vezes em estado de choque.
De onde surgiu essa sua ideia ou sonho de participar do grupo?
A vontade de participar surgiu do desejo de transformar o conhecimento técnico em algo significativo. Sempre tive interesse em aprender coisas úteis, mas sentia falta de aplicar isso de forma direta, e sempre gostei de auxiliar as pessoas. Quando conheci o trabalho dos socorristas voluntários, entendi que ali existia a oportunidade de fazer a diferença, principalmente no chamado “período de ouro”, que são os primeiros minutos após um acidente. Saber que uma ação rápida pode salvar uma vida foi o que mais me motivou. Com o tempo, isso deixou de ser apenas um interesse e se tornou um propósito, algo que eu realmente quis levar para minha vida, foi aí que acabei trocando o curso para algo que fazia mais sentido para mim.
O que te chama mais atenção nesse tipo de trabalho?
O que mais chama atenção é a necessidade de manter a técnica e o controle emocional mesmo em situações extremamente caóticas, pois cada ocorrência é diferente e nunca sabemos o que realmente podemos encontrar, muitas vezes chegamos em cenários com muita pressão, pessoas feridas, familiares desesperados e riscos ao redor. Mesmo assim, precisamos agir com calma, seguir protocolos e tomar decisões rápidas. Esse equilíbrio entre agir com precisão técnica e manter a mente estável é algo que exige muito preparo e autoconhecimento, que tu aprende fazendo o curso e vivenciando o dia a dia. É muito desafiador porque ali não existe espaço para erro, isso pode ser fatal, mas ao mesmo tempo é o que torna esse trabalho tão significativo e necessário.
Qual foi a situação mais difícil que você já vivenciou?
As situações mais difíceis costumam ser aquelas com múltiplas vítimas, às vezes acontece que os recursos disponíveis não são suficientes para atender todos ao mesmo tempo. Nesses casos, é preciso fazer escolhas rápidas e priorizar quem tem mais chances de sobrevivência, o que é extremamente pesado. Não é só uma questão técnica, mas também emocional, porque você está lidando com vidas e precisa agir de forma racional mesmo diante de um cenário muito impactante. Esse tipo de ocorrência exige preparo, mas também deixa marcas, porque nem sempre conseguimos ajudar todos da forma que gostaríamos.
O que você acha que mais pesa emocionalmente nesse tipo de situação?
O que mais pesa é lidar com a dor das famílias e das pessoas ao redor. Muitas vezes, enquanto estamos atendendo, há alguém chorando, pedindo ajuda, ocorrendo brigas entre os envolvidos do acidente e pedestres ou tentando entender o que está acontecendo. Além disso, também existe o peso de aceitar que nem todos os desfechos dependem apenas do nosso esforço. Fazemos o possível, aplicamos tudo o que aprendemos, mas existem situações que fogem do nosso controle. Entender isso e aprender a lidar com essa realidade é uma das partes mais difíceis do trabalho, por isso o controle emocional e o apoio entre a equipe também são importantes.
O que é necessário para se tornar um socorrista voluntário?
Para se tornar um socorrista voluntário, é fundamental ter treinamento em Atendimento Pré-Hospitalar, conhecido como APH, certificação em Suporte Básico de Vida o BLS e principalmente, equilíbrio psicológico para o que pode acontecer. Não basta apenas saber o que fazer na teoria, é preciso estar realmente preparado para agir sob pressão e lidar com situações emocionalmente intensas. Também é importante ter responsabilidade, comprometimento e disposição para aprender constantemente, já que esse é um tipo de atuação que exige atualização e prática, o trabalho em equipe é essencial, porque ninguém atua sozinho em uma ocorrência.
Na sua visão, qual o maior desafio de atuar nessa área?
O maior desafio é lidar com a escassez de recursos e com o desgaste mental causado pela exposição constante a situações traumáticas e estressantes. Muitas vezes, não temos todos os equipamentos ideais ou precisamos improvisar dentro do possível, sempre buscando fazer o melhor com o que temos disponível no momento. Além disso, o impacto psicológico das ocorrências pode ser acumulativo, exigindo que o socorrista tenha maturidade e estratégias para cuidar da própria saúde mental. É um trabalho que exige muito, não só fisicamente, mas emocionalmente também.
Por que é importante incentivar a ter mais voluntários?
É importante incentivar mais pessoas a se tornarem voluntárias porque isso aumenta significativamente as chances de sobrevivência das vítimas e ajuda a distribuir melhor as demandas entre os voluntários, evitando sobrecarga. Quanto mais pessoas treinadas estiverem nas ruas, maior é a probabilidade de alguém capacitado chegar rapidamente ao local de uma ocorrência e iniciar o atendimento. Esse tempo de resposta faz toda a diferença, especialmente em casos graves onde cada minuto conta. Além disso, fortalecer esse tipo de trabalho cria uma rede de apoio mais eficiente para a comunidade, mostrando que todos podem contribuir de alguma forma para salvar vidas.
