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Rastros da Raiz Africana: o artesanato como herança ancestral

Projeto da OSC Caro reúne artesãs e empreendedoras de comunidades de terreiro que encontram no fazer manual uma forma de preservar ancestralidade e gerar renda

O artesanato sempre foi uma forma de transmitir ensinamentos e ancestralidade. Além de fonte de renda, o “fazer manual” carrega identidade cultural, religiosidade e pertencimento. É essa relação entre arte, memória e cultura que move a iniciativa da Organização da Sociedade Civil (OSC) Caro, vinculada à Casa Africana Reino de Oxalá, que atua na defesa e garantia dos direitos dos povos de terreiro. Entre as ações desenvolvidas pela entidade está a ocupação da Travessa dos Cataventos, na Casa de Cultura Mario Quintana, por símbolos de fé, estampas coloridas Ankara e produções artesanais ligadas à cultura de matriz africana.

A ação é resultado do projeto Rastros da Raiz Africana. Inicialmente, a proposta do projeto era atender mulheres atingidas pelas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024 em Porto Alegre e região. “O projeto tem Rastros no nome porque é a partir de pedaços de tecido que se constrói algo novo”, explica Milena Bittencourt, nutricionista e gestora do projeto. 

O projeto Rastros da Raiz Africana é uma iniciativa que busca exaltar e valorizar a cultura afro-brasileira – Mônica Lima/Beta Cultura

Como forma de garantir o recomeço e uma nova perspectiva de produção de renda, a Caro realizou oficinas de corte e costura voltadas principalmente para as mães solos, mães de terreiro e yalorixás que perderam suas casas e territórios sagrados durante a tragédia climática.

A partir da formação, as participantes passaram a produzir roupas, acessórios e outros itens ligados à cultura afro-brasileira e às religiões de matriz africana como forma de geração de renda. Segundo Milena, o projeto começou com 20 mulheres e hoje já alcança diferentes regiões do estado. “Elas produziram o material, e a gente começou a buscar feiras para elas exporem os seus trabalhos, para gerar renda”, afirma.

Assim como o artesanato mantém relação direta com a memória cultural das comunidades, foi natural expandir a iniciativa para outros empreendedores e artesãos ligados à cultura e à religiosidade. A organização entrou em contato com artesãs de diferentes cidades para ampliar a participação no projeto durante a ocupação na Casa de Cultura.

Embora algumas das mulheres atendidas pelas oficinas não estivessem presentes na primeira edição realizada na Travessa dos Cataventos, a feira reuniu artesãs e empreendedoras convidadas a partir dessa rede construída. Para além da geração de renda, a iniciativa também se conecta à preservação cultural. “Para a gente é extremamente importante manter essa cultura porque é a nossa ancestralidade, é a história”, diz a gestora.

O fazer manual na busca por representatividade

As trajetórias das expositoras mostram como esse conhecimento atravessa gerações, circulando entre famílias, comunidades religiosas e redes de convivência, dos mais velhos ao mais novos dentro da religião.

É o caso de Edu Freitas, de 19 anos, e Duda Cruz, de 18, que começaram cedo a empreender com a criação da Axé Dori, marca que tem cerca de um mês e é fruto da luta pela representatividade. Participando pela primeira vez de uma feira, as jovens produzem acessórios inspirados na ancestralidade africana e na religião. A ideia, conta Duda, surgiu depois de uma visita a uma loja de acessórios, no caminho para buscar a sua roupa da religião.

“Olhando para aquelas peças, eu entendi que, apesar dos tempos terem se passado, a gente ainda não consegue ter acesso a isso. Eu não tinha acessórios que me representassem”, explica. Assim, ela mesma comprou algumas miçangas e produziu sua primeira peça. “Eu queria me encher de acessórios que contassem um pouco da minha ancestralidade, um pouco da minha religião, mas também do meu estilo”. 

Nas peças produzidas pela marca, búzios, guias e miçangas aparecem não apenas como elementos estéticos, mas também como símbolos de proteção e identidade religiosa. As cores das miçangas representam os diferentes guias que regem e protegem seus filhos de fé. “O artesanato é uma arte e ele pode virar cultura de diversas formas”, afirma. “Ele remete a uma cultura africana, traz ancestralidade e demonstra o orixá.”

A relação entre artesanato e ancestralidade também aparece no trabalho da artesã Fernanda Feijó, 44, criadora da marca Vidólé. A produção começou há 10 anos, motivada pelo nascimento do filho, Mahounan, que tem raízes no Benin, país africano de origem do companheiro de Fernanda. “Quando ele nasceu, eu queria vestir ele com roupas que representassem a ancestralidade dele”, conta. “E notei que roupas infantis com essa representação quase não existiam”. Uma década depois, ela segue produzindo, desde bodies para bebês com o símbolo do continente africano costurado até babadores e vestidos com tecidos tradicionais de cores vibrantes.

Assim como a Axé Dóri, foi a partir dessa percepção de ausência que Fernanda começou a costurar roupas infantis utilizando estampas africanas e referências culturais ligadas à herança do filho. Hoje, além de atuar como cuidadora, possui a Vidólé como importante fonte complementar de renda. O próprio nome da marca carrega esse significado. No idioma Fon, falado no Benin, Vidólé significa “filho tem benefícios”. “Para representar realmente isso, o que o filho traz pra vida de uma pessoa”, explica.

“Nós somos cultura o tempo todo”

Já para Larissa Machado, 56, de Alvorada, o artesanato está ligado tanto à religião quanto à herança familiar. Filha e nora de costureiras, ela começou a produzir roupas religiosas a partir da necessidade de confeccionar suas próprias peças. “Comecei esse trabalho por fazer parte da religião”, conta. “Pela necessidade de me vestir para a religião, e também pela questão financeira.”

A primeira peça vendida por Larissa foi uma saia branca. Desde então, o trabalho manual é sua principal fonte de renda. “Gosto do que faço, gosto de trabalhar para os orixás, de vestir as pessoas para a religião”. No terreiro, a roupa religiosa é uma vestimenta sagrada, como uma forma de conexão entre o kavalu (médium) e a espiritualidade.

Mesmo sem conhecer anteriormente a Casa Africana Reino de Oxalá, Larissa foi convidada para participar da feira a partir da rede criada. “Nós somos todos irmãos. Dividimos a fé, a memória, a ancestralidade”, afirma.

Fundador da Casa Africana Reino de Oxalá, Pai Zeca relaciona iniciativas como a da feira e a organização em si ao fortalecimento da memória coletiva e da permanência cultural das comunidades negras e de matriz africana. “Nós somos cultura o tempo todo. Nascemos numa cultura e morremos numa cultura”, afirma.

Olhando para os estandes, e para cada uma das peças expostas na Travessa, ele sinaliza as diferenças nas produções culturais de cada um dos feirantes, mas também o coletivo. As roupas, bonecas, búzios espalhados, carregam na sua essência a arte e a cultura de um povo que nunca deixou de lutar pelos seus e reivindicar espaço através da ancestralidade. “Viver sem memória é a pior coisa que existe”, resume.

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