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“Não era normal ir no estádio e escutar uma voz feminina”, diz ex-locutora da Arena do Grêmio

Luiza Lorentz foi a voz da Arena do Grêmio entre 2023 e o início de 2026, mas, de acordo com a jornalista, só está tendo noção das barreiras que quebrou agora, ao criar conteúdo para a torcida gremista nas redes sociais e receber o carinho das pessoas que a reconhecem do estádio. Esta foi apenas uma das “mil e uma utilidades” da santa-rosense, que, além de ter sido locutora na casa gremista, também passou por veículos de comunicação como a TVCOM, o SBT, e a TV Câmara. Hoje, é líder de conteúdo na GH Brandtech.

Nesta entrevista, Luiza relembra um pouco de sua trajetória como comunicadora e fala sobre as marcas que deixou enquanto esteve na posição de locutora oficial da Arena – a primeira mulher na história do Grêmio.

Confira alguns dos principais trechos da conversa:

Como foi o início da tua trajetória?

Nasci em Santa Rosa, a mais ou menos 500km de Porto Alegre, e passei lá toda a minha infância, até meus 17, 18 anos e entrar pra faculdade. Foi quando vim para cá fazer Jornalismo na PUCRS. Eu me formei no segundo semestre de 2013, depois disso fiz uma pós em Cultura Digital e Redes Sociais na Unisinos.  Lembro que, quando comecei a faculdade, eu queria trabalhar com rádio ou TV porque sempre gostei muito de me expressar com a voz, com a fala, então os meus estágios foram sempre me direcionando para essas áreas. Passei pela TVCOM, e ali eu fazia edição de texto de alguns programetes que iam ao ar nos intervalos, boletins de notícias e tal, depois eu trabalhei no SBT e fiz a cobertura da Boate Kiss, fiquei até o dia seguinte fazendo tudo, quando veio a apresentadora e fazia inserções, nacionais, inclusive, e aí ficamos fazendo essa produção. A gente nem sabia muito como conseguir as informações oficiais, porque estava tudo acontecendo ainda, foi bem intenso. Passei também pela TV Câmara, fiquei dois anos ali, fazendo reportagens, apresentando programas, cobrindo sessões plenárias. Depois eu dei uma reviravolta e fui trabalhar com audiovisual, em uma produtora de uma amiga minha, e depois disso entrei na área do marketing, que é onde estou até hoje.

Muitas voltas. Como é ser “mil e uma utilidades” na comunicação?

(risos) Nunca tinha parado pra pensar nisso, mas acho que eu sempre fui essa pessoa “generalista”. Eu nunca fui, tipo assim, “ah, eu sei muito sobre algum assunto”, eu acho que sempre fiz bem todas as coisas que fiz na minha vida profissional. Claro, algumas eu tenho características que vão me favorecer um pouco mais, outras um pouco menos, mas aí eu percebi que ser generalista, ter trabalhado com muitas coisas e ter feito bem o meu trabalho foi o que me levou a ter hoje essa projeção da minha imagem, de ser uma comunicadora que muitas pessoas enxergam várias características em mim, não me enxergam só como uma pessoa que fala e gosta de falar de futebol. Isso sempre esteve presente em mim, essa vontade de conversar com as pessoas, de ser uma “emissora” de opinião, de ter a minha comunidade, as pessoas que eu influencio, então a vida deu muitas voltas para chegar num lugar em que eu acho que tudo fazia sentido.

Chegando um pouquinho mais na parte do futebol, como começou a tua relação com o Grêmio?

A minha relação com o Grêmio sempre existiu, na verdade. O Grêmio sempre foi algo comum na minha casa, mas que eu só fui me despertar para o futebol lá pela minha adolescência, e um dos momentos que eu tenho bem presente é o da Batalha dos Aflitos, quando eu tinha 12, 13 anos.

Quando foi a tua estreia na Arena como locutora? Qual era o jogo?

Foi no dia 3 de setembro de 2023, era um Grêmio x Cuiabá que o Grêmio ganhou por 2×0, não lembro se com dois gols do Suárez ou um gol do Suárez, mas lembro disso.

Foto: Reprodução/Instagram @luizalorentz

Como foi pra ti, tanto como torcedora quanto como mulher, ocupar esse espaço na história do Grêmio e das mulheres no futebol no Brasil?

Eu acho que estou tendo mais a dimensão disso hoje, que eu não faço mais esse papel, porque se eu não tivesse as redes sociais e mostrasse meu trabalho, eu nunca ia ter noção do quanto eu quebrei alguns paradigmas.  Pra gente que é mulher – e muitos pais e mães me falam isso – não era normal ir no estádio e escutar uma voz com que tu se identificasse, sabe? Então era um espaço como se tu fosse uma “intrusa”, porque a maior parte da torcida são homens, os jogadores eram homens, a arbitragem eram homens, os técnicos são homens… e tu estava ali. Então quando teve isso pras meninas, eu imagino que tenha sido muito disruptivo. É muito simbólico pensar sobre isso, porque até ocupar esse papel, eu mesma não me dava conta do quanto é difícil pras mulheres estarem ali e o quanto não é um ambiente que parece ser pra ti.

E qual foi o momento mais legal desse teu tempo como locutora da Arena?

Quando me perguntam isso, eu sempre dizia que uma das coisas foi pegar o fim da temporada do Suárez, que jogou toda a temporada 2023 pelo Grêmio, e muitas pessoas pensam “não, porque era ela que anunciava os gols do Suárez”, sendo que eu só assumi em setembro! Então, pras pessoas é como se tivesse sido eu o ano inteiro (risos). Eu vejo que eu fiz as coisas de uma forma que levou as pessoas a se lembrarem de mim hoje, que me conectou com elas. E um dos momentos que eu senti isso foi quando eu consegui falar o “El Pistolero” durante a escalação, que é outra coisa que as pessoas associam que foi o ano inteiro, mas foi apenas nos últimos jogos dele (risos), um mês, dois meses no máximo. E tudo isso foi num momento que eu estava mais à vontade na posição e que ele estava mais no auge, com aquele jogo lá que ele marcou 3 gols contra o Botafogo no Nílton Santos, e depois disso eu pensei: “cara, eu vou deixar a minha insegurança de lado e me soltar um pouco mais porque é histórico isso que eu estou vivendo”.

Tu continuas usando a marca de “Voz da Arena” nas redes, mesmo após deixar a locução. Como tem sido essa mudança de função?

Eu acho que eu continuo, de certa forma, colocando as mulheres em outros lugares muito naturalmente, a partir do meu trabalho mesmo, ali na Arena. Agora, no que eu estou fazendo na torcida, apesar de ver bastante esses vídeos de entrevista (a torcedores) na rua, eu não vejo muitas mulheres entrevistando, eu sempre vejo homens, então eu acho que nesse sentido eu também estou quebrando uma barreira importante a partir do meu conteúdo, do meu trabalho. E, eu acho que é muito legal falar que eu tenho muito respeito das pessoas, isso é uma coisa que eu também não tinha tanta dimensão. Eu vejo que as pessoas respeitam muito a minha opinião sobre futebol. Às vezes eu tenho conversas com homens também e ninguém nunca me falou coisas do tipo “ah, tu não sabe”, rolam conversas com diferentes pontos de vista e me respeitam muito.

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