
Ambientado no contexto da atual polarização política, o filme apresenta uma crítica clara ao domínio da religião no cenário político brasileiro
Dividido em capítulos que constroem a narrativa de forma progressiva, o documentário alterna momentos de contextualização sobre a eleição de 2018 com análises de como a religião se tornou peça-chave para a ascensão da direita no Brasil no primeiro capítulo. A documentarista Petra Costa demonstra grande interesse em compreender o tema, com uma base sólida, ela consegue fazer as perguntas certas e, ao mesmo tempo, mantém uma postura curiosa para aprofundar o assunto, construindo uma narrativa cuidadosa, sem chegar a conclusões precipitadas.
A documentarista também apresenta críticas de forma branda ao interesse político por trás das ações de pastores. Um exemplo é quando o documentário menciona que Silas Malafaia já esteve ao lado de políticos que hoje critica, como o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-candidato à presidência José Serra.
Ao contextualizar todo o cenário político no qual a religião se apoia, o documentário avança para o segundo capítulo, que se inicia com imagens impactantes de um cemitério, marcando a introdução do tema da pandemia de covid-19. Essas imagens ajudam a construir o clima do momento histórico e indicam como a crise sanitária também passa a fazer parte da análise política apresentada na narrativa.
As imagens são fortes, mas ao mesmo tempo os áudios causam aflição. O documentário apresenta, por exemplo, uma imagem calma de um céu combinada com o áudio angustiante de uma enfermeira durante a crise de oxigênio em Manaus, no auge da pandemia de covid-19. Esse contraste entre a tranquilidade visual e o desespero do relato intensifica o impacto emocional da cena.
Para tornar o documentário ainda mais imersivo na temática religiosa, os offs são repletos de citações da Bíblia, que estabelecem paralelos entre passagens religiosas e a realidade política e social brasileira apresentada ao longo da narrativa. Assim como imagens de quadros religiosos presentes em museus e imagens de políticos.
Para ilustrar esse cenário, o documentário acompanha o pastor Silas Malafaia e demonstra o poder e a influência que ele possui. Em determinado momento, ele chega a debochar da facilidade com que consegue entrar no Palácio do Planalto, sede do governo federal. Também é destacado o crescimento de sua igreja, que quando ele começou a administrá-la possuía cerca de 15 mil membros e passou para mais de 100 mil, evidenciando a grande influência que exerce na vida dessas pessoas.
Nesse ponto, o documentário também ressalta como igrejas passaram a adquirir cada vez mais poder político ao deixarem de atuar apenas como pregadoras da fé e passarem a ocupar também o papel de empresárias e proprietárias de grandes meios de comunicação. Um exemplo citado é a emissora RecordTV, que pertence ao bispo Edir Macedo. A narrativa indica que essa mudança ocorre quando as igrejas evangélicas passam a conquistar uma classe média em ascensão, capaz de contribuir com grandes quantias em troca de pertencimento e participação dentro da comunidade religiosa.
O documentário também contextualiza momentos históricos em que a religião foi utilizada como ponte para campanhas de direita, estabelecendo paralelos com campanhas eleitorais norte-americanas que igualmente se apoiaram no discurso religioso para mobilizar eleitores. Ao ampliar esse olhar para além do Brasil, a narrativa demonstra que a aproximação entre fé e política não é um fenômeno isolado, mas parte de uma estratégia recorrente em diferentes contextos políticos.
A obra também apresenta os acontecimentos de 8 de janeiro, momento em que a narrativa se afasta parcialmente do eixo estritamente religioso para evidenciar o impacto histórico daquele episódio. Com isso, o documentário amplia sua análise e conecta o discurso religioso às tensões políticas que marcaram o país nos últimos anos.
A narração calma e repleta de analogias, marca registrada de Petra Costa, já presente em Democracia em Vertigem, não cria uma sensação de urgência, mas conduz o espectador a um processo de reflexão gradual, convidando-o a observar os acontecimentos com distanciamento crítico e a compreender as conexões entre religião, poder e política que a diretora busca evidenciar ao longo da narrativa.
Ao assistir ao documentário, somos levados a questionar se o Estado brasileiro realmente se mantém laico. Em determinado momento, Petra menciona que, em períodos anteriores da história, sociedades chegaram a derrubar estruturas de poder dominadas pela religião justamente para estabelecer Estados laicos. No entanto, segundo a reflexão proposta pela diretora, o movimento observado atualmente parece seguir na direção oposta.
Essa colocação provoca uma inquietação no espectador: até que ponto estamos levando pastores e políticos ligados à religião a um nível cada vez maior de poder? O documentário levanta a reflexão de que essa aproximação crescente entre fé e política pode acabar enfraquecendo a ideia de um Estado que deveria assegurar direitos a todos os cidadãos sem que eles estejam baseados em pilares religiosos.
