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Andanças e a responsabilidade cultural

Como o grupo quebra estereótipos através da dança folclórica e popular e utiliza experiências vividas para a criação de novos espetáculos

Contando atualmente com 54 bailarinos, o Andanças é um grupo de danças folclóricas nacionais, internacionais e populares brasileiras localizado na cidade de Porto Alegre. Fundado em 1999 por Clóvis Rocha como um  projeto de extensão da UFRGS, o conjunto tornou-se independente em 2013 e atualmente possuí também uma banda de seis músicos, chamados Bandanças, que costumam acompanhá-los em suas viagens.

Dirigido por seu fundador, diretor geral e coreógrafo, Clóvis Rocha, e pela também diretora do espaço cultural e diretora artística, Cláudia Dutra, já realizaram diversas viagens para espetáculos, com o objetivo de representar a cultura brasileira no exterior e adquirir conhecimento para seus trabalhos.

Símbolo da cultura popular pernambucana, o guarda-chuva do frevo acompanha a energia e a expressão corporal de uma das manifestações mais tradicionais do carnaval brasileiro. FOTO: Jonatas de Souza.

A primeira viagem do grupo ocorreu em 2002, para a França. O convite surgiu através da Associação Brasileira de Festivais de Folclore e Artesanato. O grupo teve cerca de metade das passagens pagas, enquanto o restante foi dividido para que todos os membros pudessem participar. Este foi o estopim para o seguimento dos trabalhos do Andanças. 

As idas para o exterior são muito mais que viagens. Elas possibilitam que a cultura brasileira seja representada em outros países e que o grupo aprenda novas técnicas de dança e música para que possam apresentá-las no Brasil e no mundo. Além disso, as experiências vividas contribuem para a inspiração de espetáculos que contam histórias com base nas vivências do grupo.

Representando o Brasil

Durante as apresentações no exterior, estereótipos são quebrados. Segundo Clóvis, os outros países possuem o “imaginário” da cultura brasileira, mas não conhecem toda a diversidade que nosso país possui. Quando eles apresentam o xaxado (dança típica do sertão nordestino), por exemplo, os estrangeiros ficam impressionados pela dança com armas, e até mesmo pelas roupas pesadas, pois não sabem que faz frio no Brasil. Clóvis explica que a representação da cultura popular e do folclore brasileiro é importante tanto para o currículo e experiência desses profissionais quanto para influenciar o turismo no país. 

Entre saias rodadas, movimentos coletivos e ritmos tradicionais, o grupo Andanças fortalece a presença da cultura popular brasileira em espaços culturais internacionais.FOTO: Jonatas de Souza.

Além disso, o grupo carrega responsabilidade comportamental, mostrando quem somos para os outros países. Segundo Cláudia Dutra: 

“Quando a gente viaja para fora, não representamos só o Andanças, a gente está representando os brasileiros. A maneira como nos comportamos num festival internacional leva essa imagem de como os brasileiros são.”

A responsabilidade na representação de outras culturas

Além da cultura nacional, o Andanças possui apresentações de danças internacionais, como: salsa, country, tango, argentina e italiana. Representar culturas do exterior demanda estudo e responsabilidade. Cláudia explica que, quando o grupo viaja através de editais públicos, tem o compromisso de trazer uma contrapartida para a sociedade. Então, buscam a dança e a música como forma de conhecimento. Cláudia também destaca a importância da disseminação da cultura para a promoção da paz: 

“Os festivais internacionais de folclore surgiram depois da Segunda Guerra Mundial. A Unesco, que é um braço da ONU, faz esses festivais para aprender a respeitar o que é diferente da sua cultura. Isso é para promover a paz entre os povos”.

Em muitas viagens do grupo, hospedam-se na casa de pessoas, não em hotéis. Dessa forma, observam e vivem de fato os costumes e a cultura daquele país, inserindo-se, conhecendo e fomentando cada vez mais a vontade de aprender: 

“Normalmente viajamos com música ao vivo, então, nossos músicos se grudam nos músicos dos outros países e ficam tentando aprender os instrumentos deles, que são diferentes. Isso é uma troca que se dá muito naturalmente. A gente gosta de coisas e, quando trazemos para cá, queremos desenvolvê-las”, explica Cláudia.

Mais do que um grupo de dança, o Andanças constroi laços de amizade, união e pertencimento entre os integrantes. FOTO: Jonatas de Souza.

Clóvis acrescenta um exemplo da viagem para Oaxaca, no México – o berço do Dia de los muertos – onde ficaram 20 dias vivendo na casa das pessoas, conhecendo a alimentação e a religiosidade: 

“A gente consegue trazer não só a dança, não só o colorido, mas também o porquê que isso acontece”, comenta. 

Cláudia complementa que muitas experiências vividas durante as viagens jamais aconteceriam se estivessem em um hotel, pois iriam privar-se de conhecer realmente a vida das pessoas. O grupo carrega a virtude da humanização, não somente no contato com pessoas de outros países, mas também com seus próprios integrantes. Isso contribuí para o processo criativo de novas coreografias. 

As experiências humanas vividas em conjunto tornam o Andanças o que ele é hoje, um grupo diverso, tal qual a cultura brasileira, e rico em sentimentos reais: 

“A gente convive muito intensamente. Vivemos o luto de todo mundo, vivemos muitos casamentos, doenças, nascimentos e mortes”, relata Cláudia.

O luto é exemplo de um dos momentos de conexão que resultou em um espetáculo. Com as mortes da irmã de Cláudia, dos pais de Clóvis e a pandemia ainda lembrada por todos, surgiu o pensamento de que tudo isso não poderia ser somente dor. A partir dessas experiências pessoais, somada com o conhecimento adquirido pelo grupo na viagem feita ao México (onde observaram como o país lidava com a morte), eles desenvolveram o espetáculo Uma dança para a morte – que aborda culturas que transformam a morte em celebração e renovação. O espetáculo aborda as culturas do Tibete, Gana, Madagascar, e as águas sagradas do Ganges na Índia. Além disso, a pesquisa inclui um ritual indígena estudado em colaboração com um antropólogo.

O grupo Andanças trabalha com aquilo que os “atravessa”, que ultrapassa barreiras culturais. Suas experiências, conexões, dores e alegrias fomentam a necessidade de criar. Representam países distintos, bem como o seu próprio. Compreendem a responsabilidade que carregam toda vez que viajam representando o Brasil, e quando trazem o conhecimento de diferentes culturas para o nosso país. 

Suas viagens quebram estereótipos, mostram quem somos de verdade, para além do “imaginário” criado no exterior. Além disso, reforçam que o Andanças é um grupo para todos aqueles que desejam aprender. Ali, criam-se raízes, conexões. Suas vivências geram experiências que, nas mãos de artistas, tornam-se criações. Conforme Cláudia e Clóvis complementam juntos sobre Uma dança para a morte

“Quando está doendo muito, a criação começa a acontecer de verdade. Porque a gente entende que precisamos fazer alguma coisa sobre isso”.

Atualmente, o Grupo Andanças conta com 54 bailarinos e 6 músicos na equipe. FOTO: Jonatas de Souza.

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