“É arte, é criatividade, é uma realização do sentimento.” Foi assim que uma das participantes, produtora e fã da banda, definiu a composição durante a roda de conversa realizada pela Daparte na última quinta-feira (29/10). A banda desembarcou em Porto Alegre para mais um show da atual turnê e, para além da apresentação no palco, reservou os momentos que antecederam o evento para ouvir e ser ouvida.
No Bar Ocidente, os vocalistas João Ferreira e Juliano Rosa apresentaram a Roda de Conversa Composição, momento e espaço em que os artistas podem ter uma troca mútua e sincera com o seu público. Os ingressos eram gratuitos e possuíam vagas limitadas. João Ferreira conta que a turnê está sendo financiada por meio da Lei Rouanet, de incentivo à cultura. O projeto foi escrito pela banda há cerca de dois ou três anos, submetido ao processo de aprovação e, depois, recebeu o apoio de empresas que direcionaram parte do imposto de renda devido para a iniciativa.
Como contrapartida ao investimento, os artistas precisam retribuir, de forma gratuita, ao público, e a ação escolhida foi a roda de conversa: uma oportunidade de aproximação e de troca de conhecimento sobre como a música nasce, do início ao fim, em um formato mais de diálogo do que de aula. Além disso, os ingressos do show têm valor acessível. Para João, o incentivo ajuda a pagar a equipe, os funcionários das casas de show e a fazer a música circular para quem, muitas vezes, não consegue pagar para entrar. Depois de 10 anos mexendo com música, ele contou viver pela primeira vez um processo assim, e aproveitou para defender o direito de o Brasil incentivar a própria cultura.

Letras e melodias
O público, de aproximadamente 12 pessoas, compartilhou suas experiências com a composição. Uma jovem, de 15 anos, contou que escreve e toca guitarra e, ao responder ao questionamento dos artistas, disse que presta mais atenção na melodia das músicas. Já Leonardo, de 20, compartilhou que presta mais atenção nas letras e consome bastante música brasileira. O contraste entre as duas respostas desenhou um dos temas da tarde.
Logo no início da conversa, um dos compositores descreveu a beleza do ofício justamente nesse encontro entre duas frentes: de um lado, a melodia, uma coisa instintiva e irracional; do outro, a letra, a parte puramente linguística, da língua. Na dupla, a melodia costuma chegar primeiro. Só depois vem a busca pelas palavras que caibam nela.
O caminho de Ultravioleta mostra isso na prática. Os artistas contaram que a música nasceu de uma melodia de refrão enviada por áudio, ainda sem letra. Antes de escrever qualquer verso, o compositor perguntou ao parceiro o que aquela melodia despertava nele, no lado instintivo. A resposta veio carregada de mistério e de uma sensação de coisa proibida, que se juntou a um romance feito de meias verdades que ele vivia na época. Com o bloco de notas em mãos, a primeira coisa que apareceu foi uma palavra, e só então uma ideia: uma cor para criar atmosfera e a imagem de um crime perfeito para sustentar a narrativa. A partir daí, foram acrescentando símbolos até a letra se fechar. Na mixagem, o pedido era que a faixa soasse como entrar em uma balada escura, de luzes neon, meio roxa.
O processo também tem seus tempos de seca. Questionados sobre o bloqueio criativo, os artistas disseram que o mais difícil é reconquistar a fase de inspiração. Para isso, apostam em livros, filmes, em ouvir música nova e em brincar: juntar a galera para fazer um som, sem compromisso. Citaram O Ato Criativo, livro do produtor Rick Rubin, que trata da criatividade dentro e fora da música.

Conexões – algumas que ficam marcadas na pele
Quando a música é lançada, ela deixa de pertencer só a quem a escreveu. Os artistas contaram que as pessoas costumam ter relações muito próprias com as canções, às vezes até mais fortes do que a ideia inicial. Quando lançaram Farol, chegaram a fazer uma enquete para saber sobre o que o público achava que a música falava, e receberam respostas bem diferentes. Uma fã chegou a dizer que Ultravioleta era uma música de vampiro. Para os compositores, todas as interpretações são válidas, e a deles é só mais uma. A Thaís, uma das fãs que estava no evento, compartilhou a letra que a comoveu, com a qual se identifica e que decidiu inclusive tatuar na pele.
Os artistas destacaram o momento como uma quebra da distância entre artista e público, “dos dois lados”, e disseram que também aprendem ao conhecer quem os escuta. Entre melodias que nascem antes das palavras e letras que acabam marcadas na pele, a roda mostrou que a música continua sendo escrita depois de pronta, por quem a escuta. Depois da conversa, ainda restava o show.
