Com os sentimentos de responsabilidade e felicidade, Heloisa Pires Lima demonstra sua relevância histórica como a décima mulher e primeira negra a ser homenageada na 72ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre. Em sete décadas, tanto Heloisa quanto o evento nos trazem traços sobre a cultura afro-brasileira, reconhecimento histórico e representatividade da cultura no Rio Grande do Sul.
Tendo como principal gênero literário os contos infantis, a homenageada deste ano conta um pouco sobre como a escrita, sua miscigenação e o fato de ter nascido em Porto Alegre no mesmo ano da primeira edição da feira, em 1955, a fizeram pensar na literatura como uma oportunidade da nova geração de vivenciar a representatividade e se encontrar além das memórias e da esperança.
Embora tenha nascido na capital gaúcha, Heloísa se mudou para a cidade de São Paulo aos nove anos de idade. Formada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) na década de 1980 e em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) em 1995, a patrona fala, nesta entrevista, sobre o sentimento de ser a homenageada e também sobre como a literatura mudou sua trajetória de vida enquanto menina negra.
Como é, para você, ser a primeira mulher negra a ser patrona em 72 edições da Feira do Livro de Porto Alegre?
É uma felicidade muito grande, mas também uma responsabilidade enorme. Eu não consigo olhar para essa escolha apenas como uma conquista individual. Existe uma dimensão coletiva muito forte, porque eu represento uma população negra que está espalhada pelo Rio Grande do Sul e que também precisa se reconhecer nos espaços de cultura, nos livros e nas histórias que são contadas. Ser a primeira mulher negra nesse lugar, depois de tantas décadas, mostra também o quanto ainda temos para avançar. Ao mesmo tempo, é bonito pensar que uma menina preta gaúcha, que saiu daqui ainda criança, pode retornar tantos anos depois como patrona da Feira. Eu não estou ocupando esse lugar sozinha. Chego acompanhada de muitas histórias, de muitas pessoas e de uma ancestralidade que é parte fundamental de quem eu sou. É uma mistura de felicidade, emoção e responsabilidade. Eu e a Feira nascemos no mesmo ano, em 1955, então costumo brincar que somos colegas de maternidade. São muitos encontros e reencontros ao longo dessa história. A Feira se tornou uma espécie de alma gêmea de nascimento e, agora, essa relação ganha uma dimensão muito especial. Também vejo a patronagem como uma oportunidade de caminhar pela Feira, conversar com leitores, encontrar crianças, escritores e educadores e valorizar aquilo que acredito ser essencial: a literatura como espaço de encontro entre gerações e como ferramenta de formação.
Teve alguma influência na escolha do tema deste ano?
A escolha do tema não partiu de mim, mas vejo uma sintonia muito bonita entre “Essência que faz histórias” e aquilo que venho defendendo ao longo da minha trajetória. As histórias não existem apenas nas páginas. Elas estão nas pessoas, nas memórias, nas experiências e nas relações que construímos. Uma Feira como a de Porto Alegre tem justamente essa capacidade de fazer essas histórias circularem e encontrarem outras pessoas. Para mim, a essência também está nessa possibilidade de ampliar o que entendemos como literatura e como história. Quando comecei a escrever, eu me perguntava: se a literatura é uma janela para o mundo, onde está esse mundo que não aparece nos livros? A Feira pode ser esse lugar de abrir janelas, colocar diferentes histórias em contato e permitir que novas vozes sejam ouvidas.
Como escritora do gênero infantojuvenil, acha que falta representatividade para as gerações mais atuais na literatura?
Houve uma mudança importante, sem dúvida. Hoje existe uma presença muito maior de personagens, autores e histórias negras na literatura, e isso é fundamental. Mas ainda não podemos considerar essa questão resolvida. Quando uma criança negra encontra nos livros personagens com os quais pode se reconhecer, com histórias construtivas e complexas, ela amplia as possibilidades de imaginar quem pode ser e que lugar pode ocupar no mundo. Quando publiquei Histórias de Preta, em 1998, ainda havia uma ausência muito grande. A menina negra muitas vezes aparecia reduzida à sua cor, sem uma história, uma subjetividade, uma experiência própria. O que eu queria era justamente mostrar uma humanidade negra em toda a sua diversidade. A literatura precisa ser uma janela para o mundo inteiro, e não apenas para uma parte dele.
O que o tema atual da Feira abrange com o gênero literário escrito por você?
A literatura para crianças e jovens tem tudo a ver com a essência de fazer histórias, porque é nesse momento da vida que muitas das nossas primeiras referências são construídas. Uma criança está descobrindo o mundo e precisa encontrar nos livros não apenas aquilo que já conhece, mas também aquilo que pode conhecer. O livro pode ser uma janela, um espelho e também uma ponte. Minha trajetória nasceu muito desse desejo de responder às perguntas das crianças e de lidar com as ausências que eu percebia. Um livro veio depois do outro porque uma criança pergunta, outra provoca uma conversa, e a literatura acaba sendo uma grande mediadora para construir conhecimento. Por isso, falar de essência também é falar das experiências que formam leitores e das histórias que ajudam cada geração a imaginar o seu futuro.
Você acha que a Feira poderia ter um apelo maior para o tema deste ano?
Acho que a própria Feira já tem um apelo muito forte porque ela não acontece somente durante os dias do evento. Existe um trabalho ao longo de todo o ano nas escolas, nas livrarias, nas bibliotecas e em diferentes espaços culturais. Essa continuidade é uma das grandes riquezas da Feira de Porto Alegre e algo que outras feiras poderiam aprender com ela. Talvez o maior desafio seja justamente fazer com que cada pessoa perceba que também faz parte dessa história. A Feira não é apenas de quem escreve ou de quem vende livros. Ela é de quem lê, de quem ainda está descobrindo a leitura, de quem leva uma criança pela mão, de quem conta uma história. Se a essência está nas pessoas, quanto mais gente se reconhecer como parte dela, mais sentido o tema terá.
Você acredita que a geração atual vai ser mais ativa quanto à representatividade e aos espaços de colaboração na sociedade na luta contra o racismo?
Eu acredito muito na capacidade das novas gerações de fazer perguntas, provocar mudanças e construir outras formas de convivência. Mas isso não acontece automaticamente. É preciso oferecer repertório, educação, livros, acesso à cultura e espaços de escuta. A criança precisa perceber desde cedo que faz parte da vida ao redor e que suas histórias também merecem ser contadas. A representatividade não pode ser apenas uma presença simbólica. Ela precisa produzir possibilidades concretas de participação. Quando diferentes histórias entram nos livros, nas escolas, nas bibliotecas e nos espaços de decisão, estamos ampliando o território imaginário e também o território real das próximas gerações. Acredito que esse movimento já está acontecendo, mas é uma construção coletiva e permanente.
