Nascido e criado em uma comunidade de Porto Alegre, Guilherme Curuja encontrou na atuação um caminho para transformar em realidade uma paixão que surgiu ainda na infância. Antes de viver da arte, passou por diferentes profissões e chegou a ser dono de mercado. Desde 2018, vem construindo sua trajetória no teatro e no audiovisual, conciliando a carreira artística com outros trabalhos.
Aos poucos, o menino de vila passou a ocupar espaços que, no início, pareciam distantes de sua realidade. Em 2021, participou de Vai Dar Nada, dirigido por Jorge Furtado, e, em 2025, voltou a trabalhar com o cineasta em Muito Prazer. No caminho, também protagonizou o curta Guerra Fria, integrou o elenco da série Dr4g0n e participou de diferentes produções independentes e universitárias.
É a partir dessa trajetória, entre a origem na periferia, os diferentes trabalhos e a entrada no cinema profissional, que esta entrevista busca conhecer o pai da Anne Guilhermine, esposo da Caroline e o artista Guilherme Vargas da Silva, 35 anos, que se divide entre o ator Guilherme Curuja e o cantor e compositor SoulCuruja, para além dos créditos na tela: o artista que construiu seu espaço no audiovisual sem abandonar a multiplicidade de profissões que marcam sua história.
Quando você percebeu que queria ser ator? E o que fez você decidir investir nesse sonho?
Eu sempre fui muito criativo e envolvido com a arte. A atuação surgiu por último entre os meus interesses artísticos, mas de uma maneira muito natural, quando percebi que ela já fazia parte da minha vida. Desde criança, imitava as pessoas e criava interpretações cômicas dos fatos do dia a dia, entre amigos e família. Mas foi aos 27 anos que comecei a investir na atuação. O foco, inicialmente, era aprender a atuar para criar curtas-metragens para as minhas músicas. Quando cheguei às aulas de atuação para TV e Cinema, fui incentivado pelos professores a apostar mais na atuação. Eles ressaltaram minha capacidade de improviso como um potencial a ser explorado.
Você concilia a carreira artística com o trabalho do cotidiano. Como é viver essas duas realidades tão diferentes?
Na verdade, sempre faço e fiz mais de uma atividade simultaneamente na minha vida. E, na maioria das vezes, em atividades distintas, que, para mim, têm alguma conexão. Aliás, quando não faço isso, me sinto acomodado demais.
Quais foram os principais obstáculos que você encontrou para entrar no mercado audiovisual?
O ingresso no ramo artístico, por si só, já é difícil, e no mercado audiovisual é ainda mais complicado, principalmente para quem é de fora do eixo Rio-SP. Mas, digamos que, embora seja um mercado complicado, vejo possibilidades muito melhores hoje, em comparação com as que teve uma geração de atores que veio antes. Isso se deve a alguns fatores, como plataformas digitais que possibilitam o acesso de atores ao mercado de maneira mais independente. Até mesmo as redes sociais democratizaram um pouco mais as oportunidades em chamadas abertas de elenco.
Além disso, o perfil das produções tem trazido um protagonismo negro maior. Mas ainda acho que tenho um caminho muito longo a galgar. Além do aprendizado, que deve ser constante, é preciso estar preparado para grandes trabalhos. E ainda estou em busca de um grande personagem que possa mudar o patamar da minha carreira.
Você nasceu e cresceu em uma comunidade de Porto Alegre. De que forma a sua origem influencia o ator que você é hoje?
Sim, eu nasci e me criei numa “Vila”, no meu caso, a Vila Malvina, que fica no complexo de vilas da Cruzeiro, na zona sul de Porto Alegre. A principal influência que carrego comigo, como ator e para a vida, é a “malandragem” de ser adaptável em qualquer ambiente. É saber jogar o jogo e usar as armas que temos.
Você já trabalhou com nomes como Jorge Furtado e participou de produções diferentes no audiovisual. Qual experiência mais marcou a sua trajetória até agora? Por quê?
Assim como minhas composições, eu carrego um carinho por todos os personagens que já fiz, até os mais escrotos. Mas, se for para destacar algum momento marcante, foi o primeiro de que fiz parte em uma grande produção: o filme “Vai Dar Nada”, do Jorge Furtado, produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, que está disponível na Paramount Plus. Esse trabalho, além de ter sido meu primeiro em uma grande produção, me proporcionou a honra de conhecer e trocar uma ideia com o Furtado, de quem eu já era fã desde o filme “O Homem que Copiava”. Outro fator que marcou foi o fato de o filme ter sido gravado onde moro. Pude auxiliar na produção do elenco de apoio, onde tivemos mais de 50 moradores participando do filme. Quando uma produção desse nível chega na comunidade, ela não envolve somente os atores e a equipe técnica. Ela acaba criando oportunidades, envolvendo os moradores e trazendo uma imagem de pertencimento. Então, acho que esse trabalho me marcou não só pela dimensão profissional, mas principalmente pelo significado que teve para a minha comunidade e para a minha própria trajetória dentro da arte.
Em 2025, você integrou o elenco de Muito Prazer, novo longa de Jorge Furtado, roteirista muito renomado. Como foi receber o convite para fazer parte desse projeto?
Sempre é muito desejado realizar trabalhos com grandes profissionais, e poder trabalhar mais uma vez com o Jorge Furtado foi, mais uma vez, incrível. Por ser roteirista e gostar de contar histórias, o Furtado sempre deixa bastante espaço para o ator criar e improvisar. Então, quando recebi o contato da Dani Silveira, que é produtora de elenco vinculada à Casa de Cinema, já sabia que era para trabalhar com eles. Como acompanho os projetos da Casa de Cinema e sabia que o “Muito Prazer” estava em pré-produção, fiquei ansioso aguardando o convite.
A pré-estreia do filme aconteceu neste ano. Como foi viver esse momento e acompanhar a estreia do trabalho?
Sim, a pré-estreia foi no dia 11 de agosto, no Cinesystem Bourbon Country. Como no dia estavam algumas emissoras de televisão que foram convidadas, acabei falando sobre o filme para uma repórter da RBS TV. Mas o mais interessante foi participar do brinde após a pré-estreia em um evento exclusivo para a produção do filme e os atores. Nesse momento, pudemos curtir e comentar com os colegas nossas percepções sobre o trabalho.
O que esse projeto e essa experiência representaram para a sua trajetória como ator? Após isso, você passou a enxergar a sua carreira de alguma forma diferente?
Na verdade, esse foi o meu primeiro longa que foi para o cinema. Na minha carreira, participei de vários formatos de audiovisual: streaming, curtas universitários, desbrie, esquetes para redes sociais, porém, para cinema, tem um gostinho diferente. Desde a minha habilitação para o registro profissional como ator, acho que passei a me enxergar como um ator efetivamente. Cada trabalho importa, mas ainda não considero que esse trabalho tenha sido um divisor de águas na minha carreira. Ele representa muito, mas ainda falta aquele papel com um arco dramático interessante.
O que ainda falta o Guilherme Curuja realizar como ator?
Muitas coisas! Quero fazer novelas, filmes premiados, performances reconhecidas e filme internacional.
Qual é o próximo sonho que você quer transformar em realidade?
Construir uma casa, trocar de emprego e ser um protagonista nacional.
Olhando para tudo que você já conquistou, o que o Guilherme de alguns anos atrás acharia do Guilherme de hoje?
Continue se dedicando e acreditando cada vez mais em você, seja paciente para esperar, tudo tem seu tempo, cuide do corpo e da mente. Nada pode te parar!
