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Em tempos de streaming, mídias físicas seguem conquistando público

Em meio ao domínio das plataformas digitais, lojas de CDs e vinis voltam a atrair colecionadores e jovens consumidores em busca de experiências mais concretas com a música

Encontrar uma fila logo pela manhã em frente a uma loja de discos e CDs pode parecer uma cena dos anos 1990. Mas é exatamente o que vem acontecendo na Jam Sons Raros em Novo Hamburgo, e em outras lojas de música, em um momento em que o consumo por streaming domina a forma como as pessoas ouvem música. O cenário chama atenção justamente por representar um movimento contrário ao esperado, jovens e colecionadores seguem buscando a experiência física de ouvir música, seja através de CDs ou de vinis. 

Fundada em 1993, a loja de discos ficou fechada por dois anos após a morte do proprietário e DJ Luis Carlos Stumpf Peretto, popularmente conhecido como Yndyo. A reabertura aconteceu apenas em dezembro do último ano, quando a filha, Marina Peretto, resolveu abrir novamente as portas da loja da forma como o pai havia deixado. Atualmente, a loja funciona uma vez por mês. Ainda assim, o movimento surpreendeu, na primeira reabertura, mais de 150 pessoas passaram pelo local, e a fila de espera chegou a durar cerca de três horas.

Laura de Oliveira / Beta Cultura

Dentro do pequeno espaço, discos, CDs e pôsteres ocupam praticamente todos os cantos da loja. Entre corredores apertados e pilhas de álbuns, clientes passam horas procurando raridades, observando capas e trocando recomendações sobre artistas e bandas. O ambiente, carregado de referências musicais e memórias, transforma a experiência de compra em um ponto de encontro para colecionadores e fãs de música. Em meio a um consumo cada vez mais individual e digital, espaços como esse resgatam interações e trocas que acabam se perdendo na praticidade dos aplicativos de música.

Laura de Oliveira / Beta Cultura

Em meio ao crescimento dos serviços de streaming, o retorno do interesse por mídias físicas chama a atenção principalmente entre os consumidores mais jovens. Para a responsável da loja, os streamings e discos físicos não disputam espaço. “Eu não vejo como uma competição, acredito que os dois conseguem caminhar juntos”, afirma Marina. Segundo ela, enquanto as plataformas digitais oferecem praticidade, CDs e vinis proporcionam uma experiência afetiva para os consumidores. 

Além de antigos colecionadores, a loja também passou a receber um público mais jovem, algo que surpreendeu a proprietária durante as reaberturas. Segundo ela, crianças e adolescentes passaram a frequentar o espaço acompanhados dos pais, mesmo sem terem crescido em uma época marcada pela mídia física. A presença crescente desse público acompanha pesquisas recentes. Um levantamento da plataforma Gumtree apontou que 75% da geração Z comprou algum tipo de mídia física no último ano. Entre pessoas de 45 a 60 anos, o índice foi de 52%, enquanto entre consumidores de 60 a 79 anos o número caiu para 35%. O cenário reflete uma mudança no comportamento de parte dos jovens consumidores.

Laura de Oliveira / Beta Cultura

A experiência proporcionada pelas mídias físicas é um dos principais fatores apontados pelos consumidores. Diferente da rapidez dos aplicativos de streaming, ouvir um CD ou vinil envolve um ritual que passa pela escolha do álbum até a observação das capas e encartes. Além disso, a qualidade sonora dos discos também segue sendo valorizada por parte do público, especialmente entre colecionadores e apreciadores de música. 

Cliente da Jam Sons Raros há quase 30 anos, Fabiano Bender acompanha de perto as transformações no consumo musical. Segundo ele, o contato com discos começou ainda na infância, através da coleção dos pais, mas foi a partir do interesse por bandas como The Beatles que a música passou a fazer parte da sua rotina de forma mais intensa. Para o consumidor, frequentar lojas de discos continua sendo uma experiência importante não apenas pela música, mas também pelo ambiente e pela troca entre pessoas que compartilham os mesmos interesses. Fabiano também destaca a experiência proporcionada pelas mídias físicas e pela escuta completa dos álbuns. “É importante ter a experiência de pegar um disco para ouvir e respeitar a ordem daquele álbum. Muitos discos foram pensados para serem escutados daquela forma, do início ao fim. Um álbum como The Wall, do Pink Floyd, por exemplo, é um disco conceitual. Quando escutamos ele inteiro, temos uma experiência diferente”, afirma.

Laura de Oliveira / Beta Cultura

Para muitos consumidores, a busca pelas mídias físicas está ligada justamente à sensação de pertencimento e permanência que os streamings não conseguem oferecer da mesma forma. Em um cenário em que músicas e filmes dependem de assinaturas e podem desaparecer dos catálogos digitais, possuir CDs e vinis passa a representar não apenas uma forma de consumo, mas também a possibilidade de manter aquele conteúdo disponível independentemente das plataformas digitais.

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