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Antes da avenida: os bastidores de quem vive o Carnaval o ano todo

Com ensaios semanais, Imperadores do Samba mostra que o Carnaval é construído o ano inteiro

O movimento do ensaio pulsava calor. Mesmo com a baixa temperatura do final de tarde de Porto Alegre, os ritmistas ocuparam seus lugares vestindo vermelho e branco, rompendo o silêncio da região com a bateria. Foi assim que a Imperadores do Samba marcou seu retorno após o desfile de 2026. 

Imperadores do Samba, também conhecida como a “escola do povo”, é a maior campeã do Carnaval de Porto Alegre, com 23 títulos. Desde 1959 ela traz consigo sua paixão pelo Carnaval. O grupo inicial de 23 componentes desfilou pela primeira vez naquele mesmo ano, e foi crescendo ao longo das décadas, passando por diferentes quadras e espaços pela cidade até se estabelecer na Avenida Padre Cacique, no bairro Praia de Belas. O que começou como uma brincadeira de meninos se transformou em um grande império do Carnaval gaúcho. 

Mas, diferentemente do que muitos pensam, o Carnaval não existe apenas em fevereiro. Pouco mais de um mês após o último desfile, a bateria já havia voltado à quadra. O Carnaval de 2027 já começou. Por trás de cada desfile existe um ciclo que não para e que vai muito além das quadras. Costureiras, cenógrafos, maquiadores, engenheiros e espaços de alimentação do entorno movimentam suas rotinas em função do que acontece na avenida. O barracão, onde fantasias e alegorias ganham forma, é apenas uma das pontas daquilo que se estende pela cidade durante meses. Luana Costa, presidente da Imperadores, afirma: “Tem mais de 300 pessoas envolvidas em cada show que a gente faz.” E completa: “Tem gente que não tem nada a ver com Carnaval e ganha dinheiro com Carnaval.” 

O compasso da bateria ecoa pela Avenida Padre Cacique, quebrando o frio da capital gaúcha muito antes da chegada de fevereiro – JOÃO PEDRO BOCH/BETA REDAÇÃO


A BATERIA BATE COM O CORAÇÃO

Bate intensamente e da mesma forma não para, refletindo o amor que é guiado com o coração. Cada ritmista carrega sua própria história, mas todos respondem ao mesmo pulso. Responsável por conduzir o grande grupo, ela agita os ensaios muito antes de agitar a avenida. Conhecida como “Sinfônica do Mar Vermelho”, a bateria da Imperadores garante que o ritmo e a harmonia serão mantidos durante a apresentação. 

Mestre Patê, Gilnei Borba, 53 anos, 45 deles dedicados ao Carnaval, também já esteve presente em outras escolas de samba. Com seu retorno para a Imperadores, afirmou que o segredo para o crescimento contínuo do grupo é o grande trabalho executado com grande intensidade. 

“Foco, o objetivo naquilo que a gente quer, que é em busca das notas 10.”

Com as mãos erguidas e o apito no peito, Mestre Patê coordena a cadência e o andamento da Sinfônica do Mar Vermelho durante o ensaio – JOÃO PEDRO BOCH/BETA REDAÇÃO


A escola também aproveita o período para compartilhar seus conhecimentos com quem deseja de alguma forma mergulhar no mar vermelho. São as oficinas de bateria e de porta-estandarte que abrem esse espaço. Foi no dia 11 de maio que os primeiros alunos tiveram sua estreia. A ideia é que possam aprender e um dia se somar à escola nos futuros desfiles.

Atentos às instruções, os novos alunos estreiam nas oficinas da Imperadores para um dia integrarem a escola na avenida – JOÃO PEDRO BOCH/BETA REDAÇÃO



UMA HERANÇA QUE CARREGA HISTÓRIA


Para muitos, o caminho até a escola de samba começa na infância, dentro de casa, onde a paixão é herdada e a escola acaba se tornando uma extensão do lar. 

Wallan dos Santos, mestre de bateria de 30 anos, carrega no sobrenome uma história que antecede a sua. Filho do saudoso Mestre Brinco, referência do Carnaval gaúcho, chegou à Imperadores em 1999, ainda criança. Começou no tamborim e foi crescendo junto com a escola. Com o tempo, o menino que acompanhava o pai nos ensaios tornou-se mestre de bateria da Imperadores. “Para mim é muito feliz estar à frente de onde ele trabalhou durante anos”, diz, com a voz de quem carrega orgulho e saudade ao mesmo tempo.

Hoje diretor-geral de bateria, Carlos Augusto Lopes, de 32 anos, carrega na trajetória as marcas da própria família. Em 2008, ainda jovem, foi pela primeira vez a um ensaio levado pelo pai, que conhecia seu amor pelo vermelho e branco. Naquele desfile, assistiu a tudo de longe, mas bastou para que aquele lugar se tornasse sua segunda casa. “Falei para o meu pai: é ali que eu quero estar”, contou. Carlos também começou no tamborim e seguiu construindo sua história na escola até assumir, em 2022, o cargo de diretor de bateria.


O DESFILE QUE NUNCA PARA

De perto, fica evidente o fio condutor da comunidade, o amor. Semana após semana, meses após meses, que o Carnaval segue vivo todos os dias naqueles que os organizam, para que cada detalhe ganhe vida na avenida. Um trabalho coletivo, constante e cuidadoso é refletido na história que é contada durante o Carnaval.
Enquanto fevereiro parece distante para quem vê de fora, dentro da quadra o próximo desfile já começou.

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