O trânsito de Canoas é caótico, e talvez isso nem seja novidade. Em outros lugares também é, mas não cabe aqui fazer comparações. O que chama atenção mesmo é outra coisa: a pressa que parece morar dentro das pessoas. Uma impaciência que não espera, que não respira, que não admite o mínimo atraso. Como se cada segundo parado fosse uma perda irreparável.
Existe algo peculiar no canoense ao volante: a paciência, que já não é o forte de ninguém dentro de um carro, aqui parece evaporar antes mesmo do motor esquentar. Basta a sinaleira abrir para que um espetáculo comece. Se ela abre e o primeiro carro não arranca no mesmo segundo, é buzina pra cá, grito pra lá, e alguém já esticando o pescoço pela janela, como se fosse possível empurrar o trânsito com o olhar. E, no final, ninguém anda mais rápido por causa disso.
Na BR, não é diferente. Dois minutos atrás de um carro mais lento já são insuportáveis. O acostamento vira opção, o pisca-alerta vira ameaça, e a ultrapassagem — ou a tentativa dela — vira uma declaração invisível: eu tenho pressa, você está no meu caminho.
Esquece-se que nem todo veículo tem a mesma potência. Um Celta não é um Onix, e nem todo motorista quer — ou precisa — dirigir como se estivesse em uma corrida. Talvez aquele motorista ali na frente não esteja devagar por acaso, mas porque respeita o limite de velocidade ou simplesmente escolheu ir com calma. Não somos o Ayrton Senna competindo na Fórmula 1, e a rua não é Interlagos, por mais que alguns dirijam como se fosse. A pressa às vezes é tanta que nem prestamos atenção no caminho.
Tem dias em que o GPS ajuda. Ele traça o caminho, aponta atalhos, avisa sobre o engarrafamento à frente. Mas, mesmo com todo o caminho na palma da mão, às vezes a gente se perde. Pega o retorno errado, ignora a instrução, acha que conhece melhor o trajeto e vai parar em um lugar que não planejou.
E está tudo bem.
Porque talvez o ponto não seja chegar primeiro. Talvez seja chegar. Chegar inteiro, sem transformar o percurso em uma batalha desnecessária, sem carregar a irritação da urgência.
A gente buzina para o outro porque esquece que ele também tem um destino e uma pressa. Esquece que o carro dele não é igual ao nosso, que a estrada dele não é a mesma, que o ponto de partida foi diferente e que, às vezes, precisamos parar para o motor “respirar”.
Cada um tem o seu tempo para chegar ao destino. Alguns não têm nenhum mapa para os guiar no caminho, e vão descobrindo a rota aos poucos.
A sinaleira vai abrir. O carro da frente vai andar. E você vai chegar ao destino final.
No seu tempo.
